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―Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entretenimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida. Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objetividade ao prazer subjetivo da leitura.‖

Fernando Pessoa, Livro do Desassosego

Considero suficiente justificativa para os estudos da idéia das influências ambientais o fato de que basta ao homem existir para que, ao menos alguns aspectos de seu ambiente natural circundante sejam vistos, ainda que minimamente, como um problema ou ameaça a seu bem-estar, independentemente do espaço ou do tempo que se considere. Assim, em todas as épocas e em todos os lugares, as influências ambientais se fazem sentir das maneiras as mais diversas e impõe aos homens alguma forma de resposta, qualquer que seja ela, desde estratégias variadas de adaptação e

ajuste, até a modificação dessas influências. Essas influências ambientais foram alvo de particular interesse pelo que se convencionou chamar, equivocadamente, de ―escola geográfica determinista‖, ou, ainda ―determinismo geográfico ou ambiental‖, termos cuja vaguidade e generalidade mais obscurecem do que iluminam toda uma dialética da relação homem-meio19, relação cuja natureza é complexa e não pode ser reduzida

por falsas dicotomias e teorias frágeis.20

Importantes referências acerca do papel exercido pelos fatores ambientais sobre a humanidade, como na formação e desenvolvimento das sociedades, nos rumos da história, na marcha das civilizações, no caráter do indivíduo e dos povos, aparecem, de maneira explícita, não necessariamente todos eles, em obras de grandes expoentes da Geografia como Ratzel, Ellsworth Huntington, Ellen Semple, Griffith Taylor, La Blache, Brunhes, Fevbre e Max Sorre, Sauer; em autores das ciências sociais, como Boas, Lévi-Strauss; em historiadores, como Buckle, Caio Prado Junior, Toynbee; em marxistas russos, em teoristas políticos, na diplomacia, em obras geográficas de caráter regional, como as monografias da primeira metade do século XX; em algumas das primeiras obras da Geografia acadêmica, como por exemplo, Humboldt e Ritter; em relatos de viajantes europeus, como Saint-Hilaire, Ave-Lallement e D‘orbigny; em trabalhos recentes de pós-graduação de áreas afins à Geografia e à climatologia; nas áreas da climatologia aplicada, como na bioclimatologia, agroclimatologia, e climatologia urbana; em obras consagradas das humanidades, como Casa Grande & Senzala (Gilberto Freyre); em grandes obras da literatura21 brasileira, como O Cortiço e Os Sertões22; em obras-primas da literatura estrangeira, como ―O Estrangeiro‖, de

19 O termo homem-meio nesta tese é usado como sinônimo de homem-ambiente, ou homem-natureza, homem-ambiente físico, sociedade-natureza. Entretando, o último termo será preferido.

20 As soluções para diversos problemas da sociedade exigem uso da natureza, o que implica num antropismo desmedido, ou tais soluções prescindem da natureza, apoiando-se em entes abstratos ou formulações metafísicas?

21 Segundo Wallis (1926), o escritor britânico Taine acreditava que a literatura de seu país tinha sido ditada pelo ambiente natural.

22 A literatura e a política também foram influenciadas significativamente pelo ―determinismo‖ geográfico e algumas obras literárias discutem a relação clima-sociedade deixando transparecer um

Albert Camus, em Best-sellers atuais, como a obra ―Armas, Germes e Aço‖, e ―Colapso‖, do geógrafo Jared Diamond; em políticas públicas das nações; e também em organismos internacionais, como o BIRD.23

Jared Diamond, o mais atual e célebre dentre os ―deterministas‖ rotulados pela crítica, afirma que há um preconceito, principalmente dos historiadores, em relação a idéia de que o ambiente físico e a biogeografia influenciam o desenvolvimento social, e que atualmente o conhecimento acumulado facilita a revisão dessa idéia:

―Naturalmente, o conceito de que o meio ambiente geográfico e a biogeografia influenciaram o desenvolvimento social é antigo. Hoje em dia, entretanto, essa opinião não é bem vista pelos historiadores. É considerada errada ou simplista, ou é

classificada de determinismo ambientalista e rejeitada – ou, ainda, toda essa questão

de tentar compreender as diferenças do mundo é evitada por ser muito difícil. A Geografia, obviamente, teve algum efeito na história.‖(DIAMOND, 1997, p.26)

Diamond prossegue com dois questionamentos cruciais para o assunto e dos quais a Geografia e ciências afins não puderam se livrar meramente rotulando-os e descartando-os como impossíveis: ―A questão que permanece aberta é sobre a

extensão desse efeito [dos fatores ambientais]24e se a Geografia pode ser responsável

por um padrão mais amplo de história. Esta é um boa época para rever essas questões, em função das novas informações proporcionadas pela ciência‖. (id)

viés um tanto ―determinista‖έ Todavia, nosso foco serão as outras áreas, por julgarmos que nelas houve maior impacto de teorias deterministas e suas ideologias, e também por uma questão metodológica relacionada ao recorte de pesquisa cabível a uma tese e ao tempo relativamente limitado de pesquisa. Na questão política, os Sprout escreveram um livro essencial e bastante esclarecedor, e que por assimilar-se ao meu propósito central (acender ao menos uma vela no porão conceitual e semântico dos discursos deterministas e antideterministas), será debatido mais adiante.

23 Os autores e instituições dessa longa lista não podem ser rotulados, de modo algum, de ―deterministas‖έ Aliás, se um deles o fosse, a coerência mandaria rotular todos os demais. Caberia aqui a pergunta aos geógrafos atuais, especialmente aos climatólogos: ainda pretendem rotular algum autor de determinista? Comecem então pelas próprias têmporas!

24 Todos os comentários entre colchetes que aparecem nas citações é de minha autoria, assim como todos os grifos.

Diamond reconhece os avanços de um amplo leque de áreas de pesquisa e são essas variadas áreas que fornecem um cabedal de evidências que Diamond usa em sua polêmica obra. Assim, ―graças a disciplinas como genética, biologia molecular e biogeografia aplicadas às colheitas atuais e suas ancestrais silvestres; as mesmas disciplinas mais a ecologia comportamental, aplicadas a animais domésticos e seus antepassados selvagens; a biologia molecular dos germes humanos e de animais; a epidemiologia das doenças humanas;a genética humana, a lingüística; os estudos arqueológicos sobre todos os continentes e as principais ilhas/ e estudos sobre a história da tecnologia, da escrita e da organização política.‖(id)

Todavia, apesar de existir um razoável número de obras discutindo as influências dos fatores ambientais/climáticos sobre a humanidade, o fato é que inexiste na Geografia brasileira uma contribuição exclusiva sobre o assunto, que sistematize, na forma de levantamento bibliográfico e de análise preliminar, a contribuição desses pensadores ao longo da história da Geografia.

A respeito do eixo norteador desta pesquisa, o ―determinismo‖ ambiental, cabe mencionar que se tem constituído, ao longo da história moderna do pensamento geográfico, em uma de suas hipóteses mais controversas, causador de intensos debates não apenas no âmbito da Geografia, mas também no das ciências sociais, história e outros campos do saber.

1.3.2. Da necessidade de uma nova história do pensamento geográfico: para