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A vida segue mais tranqüila no turno da tarde no Quilombo. Após o descanço do almoço as pessoas da comunidade aproveitam para assistir as novelas de televisão, outras preferem sentar no pátio, quintais e em frente a suas residências porque é mais ventilado. Sentam-se para conversar, trançar cabelo e ou desempenhar alguma função que exija trabalho com as mãos. Devagarinho vai chegando um, outro e de repente se forma uma rodadinha de

pessoas para “bater papo”. São muitos assuntos debatidos nessas rodas. São ditas “coisas de bem e de mal”, de tudo o que acontecena e fora da comunidade. Frutas, comidas, doces, pães, café, sucos, chope (de frutas) são aconsumidos pelas pessoas no transcurso do contar os fatos ocorridos dentro e fora do Cria-ú.

No momento de contarem as histórias existe uma perfeita harmonia entre o corpo todo do (a) contador (a) que dá vida aos fatos, com o conteúdo do que está sendo dito. Nesse momento unem-se inúmeros gestos corporais que ganham vida dentro das histórias relatadas e

19 O açaí é abundante nas terras do Cria-ú no primeiro semestre. Depois vai ficando escasso (difícil) e passa a

ser comprado nas amaçadeiras de açaí localizadas fora da comunidade. O produto nesse período de escassez no Estado do Amapá é comprado dos municípios do Pará que devido ao translado dos barcos por dia e dias pelos rios, chegam sem tanta qualidade à Macapá, ou seja, seco e se pegar chuva fica azedo.

para cada uma delas, face a dinâmica que envolveu a situação, tem um conjunto de expressões faciais que o (a) contador (a) lança mão para dar maior realismo ao fato. A entonação da voz também é outro requisito que prende a atenção dos (as) ouvintes.

Durante a contação das histórias volta e meia passa alguém pela rodovia de carro buzinando, moto, bicicleta e a pé gritando “e parente” e acenando com a mão. O gesto de cumprimento é retribuído pelo (a) contador (a) e em seguida segue-se com as narrativas dos fatos até o cair da tarde.

Nesse momento percebe-se uma confluência maior de pessoas no Cria-ú. Trata-se do horário em que as crianças e adolescentes saem da escola e se encaminham para casa. Alguns desses estudantes ficam em frente ao educandário esperando o ônibus para retornarem as suas residências localizadas no Cria-ú de Fora e bairro Novo Horizonte. A grande maioria segue para suas residências pelo transporte escolar gratuito oferecido pelo governo do Estado do Amapá identificado pelo nome de Kombi (transporte da marca wolkswagem que comporta quatorze passageiros incluindo o motorista . A natureza do serviço é terceirizado). E os (as) que moram ladeando a escola retornam as suas residências a pé.

Os proprietários de animais como galinha, porco, pato,boi saem em busca de suas criações para recolhê-las aos galinheiros, chiqueiros e currais respectivamente. Ao cair da tarde muitas pessoas dentro do Cria-ú aproveitam para bater açaí. Esse açaí é utilizado tanto para o consumo caseiro, da família como para ser comercializado em pequenas quantidades nas vizinhanças do Cria-ú. A exemplo da farinha, o açaí do Cria-ú é sinônimo de excelência na qualidade no mercado de Macapá. Durante a safra desse produto em Macapá, muitos moradores do Quilombo aumentam a renda familiar comercializando-o. O açaí que é comercializado fora do Cria-ú, por seus habitantes tem como embalagem garrafas, reaproveitadas de plástico de dois litros ou saquinhos plásticos.

Esses (as) vendendores (as) de açaí já tem seus clientes certos que ficam a esperá- los para saborear o delicioso produto que é consumido a qualquer hora do dia, da noite e tem aqueles (as) que o tomam também em certos horários da madrugada em Macapá. As pessoas que apreciam o açaí são advertidos pelos idosos (as) a não tomarem tal produto se ingerirem outros alimentos como manga, leite e consumirem bebidas alcoólicas. Na verdade essa foi uma estratégia utilizado pelos escravizadores, que é vista até hoje, para que seus escravizados não comessem os alimentos das casas grandes sob a alegação de que se os comessem e ou misturassem com outros alimentos morreriam.

Dentro do Cria-ú os habitantes desse lugar dispensam qualquer outro alimento por

quero açaí.” Escutando eles (as) falarem fico a imaginar, ao mesmo tempo que o açaí não é uma comida (dizem isso porque não tem pedaço de carne, frango, peixe) ele é o alimento principal que de tão forte e vitaminado dispensa até acompanhamento. E quase todas (os) no Cria-ú o apreciam. Os alimentos são produzidos em quantidade no Cria-ú, portanto, existe sempre fartura.

O hábito alimentar no Cria-ú além do consumo intenso do açaí nas refeições, a noite, o jantar é a base da comida que sobra do almoço. O costume antigo sempre foi de comer bem e a vontade para saciar a fome. Por isso é possível perceber na pele, aparência facial, textura dos cabelos que os (as) moradores (as) do Quilombo são bem nutridos (as), de pele e olhos brilhantes aparentando ótimo bem estar físico e de saúde, em sua maioria.

Os aquilombados do Cria-ú durante e após o jantar sentam-se para assistir aos programas de televisão. As vezes as salas ficam cheias, mas é um silêncio total. A atenção está voltada para as tramas das novelas que absorvem sobremaneira as pessoas que vibram com cada cena de contato físico e ou descoberta de alguma situação ou revelação que envolve o (a) protagonista da história.

A exemplo do que acontece em outros territórios tradicionais e de Quilombos pelo

Brasil, as pessoas estão retornando “afoitas” da lida na roça e com pressa de terminarem suas

atividades domésticas para se debruçarem em frente à televisão para assistirem as novelas.

Dizem: “- Não posso perder a novela. Está demais! Quero ver o que irá acontecer com fulano de tal...”. O momento do diálogo entre gerações da população do Quilombo do Cria-ú que se

dava após o jantar sobre as histórias que os mais velhos aprenderam desde crianças, sobre as aparições espirituais nas terras do Quilombo, relatos de fatos ocorridos no cotidiano da comunidade, perderam lugar para os programas televisivos que impõem uma certa

“passividade” aos telespectadores.

O consumo de tudo que é apresentado nas programações televisivas para todos (as) os (as) brasileiros (as), mesmo que suas culturas e histórias reais não sejam temas desses programas é um perigo iminente a salvaguarda das culturas ancestrais em nosso país e no Cria-ú. O mercado local não aparece na televisão e nem na educação local. Parece que ele é errado, que não faz parte da cultura e tampouco é importante para a população. Por isso é comum vermos pricipalmente as crianças e adolescentes querendo transformar seus cabelos e corpos nos biotipos das (os) protagonistas das novelas.

Com base nesse contexto reforçamos que a cultura do Quilombo do Cria-ú precisa está visual, teórica e didaticamente dentro da escola, lugar onde esses educandos (as) passam mais da metade de seu dia, como alicerce para que construam valores positivos sobre si e seus

semelhantes, sustentados pelos discursos, exemplos e trabalhos escolares voltados para a história e cultura local em dialógo com outras culturas.

A diminuição dos encontros nas rodas de conversas noturnas dentro do Quilombo do Cria-ú considero uma ameaça a continuidade da tradição local em que sua transmissão se dá pela oralidade e gestos corpóreos que dão vida ao que é dito. As pessoas quando contam as histórias que escutaram contar, repetem também os gestos e expressões faciais de quem os

contou o fato. Para dar maior veracidade as histórias ainda dizem: “pela bença de Deus que foi assim que aconteceu...”