• No results found

Conclusão

Percorremos um longo caminho com o propósito de demonstrar a viabilidade das hipóteses apresentadas como respostas aos problemas propostos na introdução desta pesquisa. Verificamos que a matriz do Mito dos Anjos Vigilantes, que floresceu no período do Segundo Templo de Israel, tem seu cerne no Livro dos Vigilantes (Cap. 1-36). A partir deste primeiro relato, uma vasta literatura apocalíptica despontou no cenário religioso de Israel. Testemunham esta evolução o Livro das Parábolas (Cap. 37-71); o Livro das Luminárias (Cap. 72-82); o Livro dos Sonhos (Cap. 83-90); a Epístola de Enoque (Cap. 91-105); o Nascimento de Noé (Cap. 106-107); e Outro Livro de Enoque (Cap. 108), que hoje fazem parte de uma única obra conhecida como 1 Enoque. Cada um desses livros representa um estágio de desenvolvimento da tradição de Enoque e do Mito dos Anjos Vigilantes, cada qual construída com bases na anterior. Mas a influência desta tradição e do mito não pára nestes testemunhos. Há também outros registros que demonstram a extensão desta influência. Por ordem cronológica, vimos a história do anjos vigilantes sendo expressa no livro pseudoepígrafo Jubileus, no Documento de Damasco, em textos dos Manuscritos do Mar Morto (Qumran) e no Testamento dos Doze Patriarcas. Em todos esses textos, buscamos averiguar elementos comuns e centrais ao Mito dos Anjos Vigilantes. Comprovamos que pelo menos quatro elementos relacionados à hipótese geral (cf. Introdução, item iv) desta pesquisa estavam presentes nos textos pesquisados.

Em seguida, com esses elementos em mãos, verificamos se haveria ecos na narrativa mítica de 1 Enoque 6-11 nos escritos neotestamentários e nas obras dos pais da igreja. Os resultados obtidos demonstram suficientemente as hipóteses formuladas e, de fato, a igreja primitiva, seja os autores do Novo Testamento ou os pais da igreja, lançaram mão de elementos associados à matriz narrativa do Mito dos Anjos Vigilantes. Ficou evidente que a história dos anjos vigilantes era suficientemente conhecida dos autores da igreja primitiva, a ponto de ser usada com os mais variados propósitos.

Vale destacar que demonstramos que pelo menos dois autores neotestamentários – as epístolas de Judas, Primeira e Segunda Pedro – utilizaram a história dos anjos vigilantes. E muitos pais da igreja, do século I ao IV d.C., conheciam a tradição de Enoque, principalmente

no que se refere aos anjos vigilantes. Além destes fatos, destacaram-se também, os elementos comuns e centrais do Mito dos Anjos Vigilantes presentes em textos da igreja primitiva. Novamente, quatro elementos paralelos à matriz do mito e pertinentes às hipóteses desta pesquisa foram encontrados, a saber: (1) os “filhos de Deus” de Gn 6,2 eram considerados como sendo seres angelicais; (2) os anjos vigilantes eram tidos como os responsáveis pela corrupção da humanidade; (3) houve uma transgressão primordial entre as fronteiras do céu e terra por parte dos anjos, que mantiveram relações com mulheres, geraram gigantes, e após a morte destes, transformaram-se em demônios; e por último (4) a culpabilidade pela transgressão varia entre autores citados. Alguns atribuem a culpa aos vigilantes, outros a ambos, anjos e mulheres.

A etapa seguinte da pesquisa foi dedicada à investigação da possível influência do Mito dos Anjos Vigilantes sobre o texto de 1 Coríntios 11,2-16 e à análise exegética dessa perícope. Assim, identificamos que Paulo lançara mão de cinco argumentos distintos do porquê do uso do véu, a saber: (I) argumento baseado na tradição da igreja, (II) argumento baseado na ordem da criação, (III) argumento baseado no contexto social, (IV) argumento baseado na própria natureza física do ser humano, e por último, (V) por causa dos anjos. Entre os resultados obtidos na análise exegética, dois merecem destaque. Primeiro, Paulo no versículo 10, segundo nossa perspectiva, estaria atribuindo às mulheres a responsabilidade por seus próprios atos, ou seja, deveriam responsabilizar-se por sua própria cabeça, pois o desvelamento poderia gerar constrangimentos a ela e à figura masculina – marido ou pai, e além disso, poderia colocá-la em situação de disponibilidade sexual. Assim, pôde-se afirmar que tal expectativa estaria em paralelo à tradição do Mito dos Anjos Vigilantes, onde parte da responsabilidade pela transgressão angelical era atribuída às mulheres por exporem sua beleza aos anjos. Segundo, a menção aos anjos no final do versículo 10, seria outro ponto de contato com aquela tradição, pois o desvelamento das mulheres poderia causar desejos nos anjos. As mulheres, portanto, deveriam comportar-se adequadamente quanto a sua maneira de pentear- se e vestir-se, de modo a não incitar a lascívia angelical. À luz desses fatos, é difícil de acreditar que o autor de 1 Coríntios 11,2-6 estivesse completamente alheio às tradições do judaísmo intertestamentário, em particular à tradição de Enoque. No entanto, embora esta tradição tenha exercido forte influência na vida religiosa de certos seguimentos do judaísmo intertestamentário (por exemplo, Qumran), não é possível afirmar que o autor de 1 Coríntios 11,2-16 tenha se apropriado de todos os elementos daquela tradição.

Ao finalizar esta investigação, agora munido dos resultados da pesquisa, compreendemos que nosso trabalho está circunscrito por algumas limitações, entre elas podemos destacar a ausência de uma pesquisa mais aprofundada sobre a linguagem apocalíptica nos textos Paulinos similares àquelas da narrativa do Mito dos Anjos Vigilantes. Também não foi pesquisado o uso que Paulo faz do termo anjo(s) – ou similares: potestades, principados – em outros textos de sua autoria. Isto poderia indicar uma dependência mais profunda à angelologia intertestamentária, e por último, não investigamos outras possíveis influências de textos da matriz apocalíptica judaica, como por exemplo, o Livro de Jubileus, na teologia Paulina.

Possíveis contribuições futuras ao objeto de estudo desta pesquisa podem ser vislumbradas. Uma delas seria investigar a dispersão geográfica da influência da tradição de Enoque, e, mais especificamente, a dispersão do Mito dos Anjos Vigilantes. Qual seria esta extensão? Quais cidades ou regiões testemunham o uso de temas e textos associados ao Mito dos Anjos Vigilantes? Outra contribuição importante seria verificar o quanto os textos Paulinos se apropriaram do vocabulário comum à matriz apocalíptica judaica, da qual 1 Enoque faz parte, por exemplo, a angelologia em Paulo parece apresentar traços comuns à angelologia encontrada em outras obras do período intertestamentário, assim, termos tais como arconte, principados, potestades, pneuma podem indicar uma possível dependência da tradição apocalíptica judaica.

EXCURSO