A Sociolinguística é uma área da linguística que estuda os aspectos da relação entre a língua e sociedade. Segundo Bright (1974), o objetivo da Sociolinguística deveria ser o de “[...] demonstrar a covariação sistemática das variações linguística e social. Ou seja, relacionar as variações linguísticas observaveis em uma comunidade e as diferenciações existentes na estrutura social desta mesma sociedade” (p. 56).
É relevante mencionar que os estudos sociolinguísticos ganharam força e se firmaram como uma ciência na década de 1960 com as pesquisas empíricas do linguista americano William Labov, partindo do princípio de que a variação e a mudança são inerentes à língua e que por esse motivo elas devem ser sempre levadas em conta na análise linguística (CEZÁRIO & VOTRE, 2010). Dessa forma, a
linguagem é vista como um instrumento de comunicação heterogêneo e variável, devendo ser analisada dentro de contextos sociais, levando em consideração não apenas os seus aspectos fonológicos, lexicais, semânticos e estruturais, mas também a influência que os fatores sociais têm sobre ela (por exemplo: sexo, idade, escolaridade, relacionamento entre os interlocutores, tópico da conversa, intenção do falante, reação do ouvinte, entre outros). Desde então, pesquisadores das diversas áreas das ciências humanas, principalmente da sociologia, psicologia e antropologia, têm demonstrado interesse pelo estudo desse segmento da linguística, contribuíndo sobremaneira para avanços no estudo da linguagem em contextos sociais.
De acordo com Ducrot & Schaeffer (1972 [1995]), os estudos sociolinguísticos podem ser analisados sob a ótica de três tipos de abordagens distintas, porém interligadas, conhecidas como: a Sociolinguística Variacionista, a Sociolinguística Interacional, e a Etnografia da Comunicação. Entretanto, como foi mencionado no início desse capítulo, devido à natureza qualitativa do presente estudo, essa seção focalizará mais nas áreas da Sociolinguística Interacional e da Etnografia da Comunicação.
A Sociolinguística Interacional surgiu como uma vertente da Sociolinguística, através das observações e dos estudos do antropólogo/linguista, John J. Gumperz. Ela concentra-se nas investigações sobre o uso da linguagem e o contexto no qual essa interação se desenvolve. Com isso, observa-se como o indivíduo reage às situações de interação face a face dentro de um determinado ambiente social. De acordo com Ducrot & Schaeffer (1972 [1995]), observações dessa natureza são essenciais nos estudos da fala, pois preocupam-se em integrar as dimensões pragmática e interacional na análise dos fatos da variação social.
Nessa linha de pesquisa, os elementos não-verbais e paralinguísticos são considerados indispensáveis. De acordo com Ouriques (2009), os ‘novos elementos’, tais como características expressivas, paralinguísticas e cinéticas, são parte do comportamento da fala e precisam ser levados em consideração nas análises dessas interações verbais. Segundo Gumperz (2002 apud Ouriques, 2009), esses fatores, conhecidos como pistas de contextualização, oferecem esclarecimentos relacionados ao sentido e a real intenção das enunicações, como um todo. Segundo ele, essas ‘pistas’ são divididas em quatro tipos: pistas linguísticas (alternância de código, dialeto ou de estilo); pistas paralinguísticas (valor
das pausas, tempo da fala, hesitações etc.); pistas prosódicas (entonação, acento, tom etc.); e pistas não-verbais (direcionamento do olhar, distância entre interlocutores, postura, gestos etc.). Dessa forma, a Sociolinguística Interacional analisa o discurso dos falantes, somado a elementos paralinguísticos e não-verbais no intuito de formular uma análise mais precisa sobre o verdadeiro sentido da fala no ato comunicativo.
Segundo Ducrot & Schaeffer (1972 [1995]), os estudos sociolinguísticos podem ser realizados também, através de uma perspectiva antropológica conhecida como Etnografia da Comunicação. Desenvolvida pelo antropólogo/linguista Dell Hymes, a Etnografia da Comunicação, estuda e analisa o ato social da fala com o pressuposto de que a interação verbal reflete a ‘competência comunicativa’ dos falantes de uma comunidade, ou seja, o grupo ou conjunto de regras estabelecidos socialmente e que permitem o uso apropriado da competência gramatical (DUCROT & SCHAEFFER, 1972 [1995]). Esse conceito leva em conta que o uso adequado de uma língua, depende tanto do conhecimento sobre seus aspectos linguísticos, quanto dos aspectos culturais e contextuais. Em outras palavras, o domínio de uma língua exige que o falante tenha um conhecimento pleno não apenas no que diz respeito aos seus aspectos estruturais, mas como essas estruturas se organizam em diferentes contextos e situações sociais dentro de uma cultura específica. Dessa forma, compreendemos que:
A etnografia da comunicação tem base tanto linguística quanto antropológica, assumindo a comunicação como um meio de se fazer sentido do mundo, sendo ela parte intergrante da cultura. Nela, a língua é vista como estando simultaneamente constrangida pela cultura, bem como a revelando e sustentando (SOUZA LEÃO & BENÍCIO DE MELLO, 2007, p. 2).
As pesquisas na área da Etnografia da Comunicação são qualitativas por natureza e tradicionalmente realizadas através de diferentes formas de observação e interação, como afirma Saville-Troike (2003, p. 4):
Doing ethnography in another culture involves first and foremost fieldwork, including observing, asking questions, participating in group actrivities, and testing the validity of one´s perceptions against the intuitions of natives. Research design must allow an openness to categories and modes of
thought and behavior which may not have been anticipated by the investigator.16
Assim, o pesquisador pode triangular os dados coletados por meio da observação não participante (incluindo qualquer aspecto da interação considerado relevante) com dados mais explícitos coletados através das entrevistas etnográficas realizadas com os indivíduos observados, bem como com outros membros da comunidade. Dessa forma, o pesquisador estará mais apto a tirar suas próprias conclusões sobre a relação entre a fala dos membros de uma comunidade e suas crenças e costumes.