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Esta tese teve como objetivo analisar as implicações da implementação do REUNI e da expansão da Universidade Federal de Viçosa no trabalho de docentes dos cursos de Ciências Biológicas (Bacharelado integral e Licenciatura noturno), levando em conta suas contradições, o contexto, dados objetivos, documentos oficiais e institucionais e a visão dos professores.
Procuramos identificar se existiram pontos supostamente privilegiados de intensificação do trabalho do professor perante a implementação do programa. E ainda investigar como os fenômenos da reconfiguração produtiva da universidade pública se efetivam na instituição pesquisada e como eles repercutem no trabalho do professor; caracterizar o cotidiano de trabalho do professor frisando as relações de trabalho; examinar os processos de adesão e/ou estranhamento à suposta intensificação do trabalho do professor. Para isso levamos em conta em nossa investigação e análise as condições objetivas e as contradições existentes na materialização do REUNI na UFV.
A natureza do objeto de investigação fez com que buscássemos como referência central para análise de nosso objeto de pesquisa uma compreensão mais geral a respeito das mediações das relações entre trabalho e educação. Para isso, fez-se necessário levar em conta a contribuição de análises sobre: as relações entre as mudanças no mundo do trabalho, Reforma do Estado e as políticas educacionais; a expansão da universidade pública e suas implicações para o trabalho docente, tais como a intensificação, flexibilização e precarização.
Compreendemos que a universidade pública, como a UFV, se inscreve em um novo modelo, uma nova cultura institucional, que vem se estabelecendo nas IES. Consideramos que a carreira acadêmica passou a ser balizada pela lógica de se alcançar o mais útil e mais eficaz no menor espaço de tempo. Partimos da hipótesede que a expansão da instituição de nossa pesquisa, implementada nos moldes do REUNI, poderia ter gerado sobre o trabalho docente sobrecarga de trabalho e uma rotina produtivista e intensificante.
No tocante ao fenômeno da reconfiguração produtiva que vem reestruturando as atividades universitárias e o trabalho dos professores, pudemos identificar que no caso da UFV e dos cursos de Ciências Biológicas e seus docentes, veem se estabelecendo modificações nas condições de trabalho como a implementação de processo de gestão pautados no modelo gerencialista, que tem como característica produzir mais com menos custos, utilizando a mão de obra de trabalhadores flexíveis e que estejam prontos a assumir
diferentes tarefas. Neste sentido, foi citada pelos docentes a prática de buscar financiamento próprio para proporcionar compra de materiais para as aulas e para realização de pesquisa. Outro ponto característico das reformas gerencialistas foi a introdução tecnologia como o usos de computadores portáteis que transformou o cotidiano do trabalho do docente, na medida em que ampliou os espaços de trabalho fora da instituição. Alguns docentes citam que continuam através da internet a trabalhar em casa ou em horários de lazer, para conseguirem cumprir suas metas e objetivos.
Outro ponto importante ligado especificamente relacionada à execução do REUNI, foi a expansão do número de alunos e a adoção de novas metodologias, assim como novas formas de reorganização do ensino e da avaliação por parte do docente, para que seja humanamente possível, aferir o conhecimento obtido por um número muito elevado de alunos. O que implica apontar para um processo intrínseco de reestruturação da prática docente com desdobramentos para instituição de novas metodologias de ensino e aprendizagem, levando a
posteriori a uma flexibilização do currículo da instituição. E a participação de alguns docentes
de um determinado departamento, em diferentes cursos, não somente nos cursos de Biologia. Ligado ao aumento do número de alunos houve também à ampliação de funções que o docente passou a desempenhar, funções estas relacionadas à burocracia que pode estar ligado, ao quadro deficitário de contratação de técnicos administrativos, que como apontamos, não acompanhou o crescimento da instituição, fato que pode também estar comprometendo a capacidade intelectual e a produção do docente.
Outro ponto de intensificação do trabalho docente apareceu ligado ao aumento das exigências de produtividade em pesquisa. O número elevado de produção de artigos, a predominância de índices e metas em detrimento do trabalho substantivo tem sido uma das causas do trabalho ininterrupto do docente e também de conflitos entre os pares no caso estudado.
Identificamos que o docente que se destaca na produção tende a ser considerado como um docente de maior prestígio, especialmente no espaço da pós-graduação, em detrimento dos docentes que se dedicam aos processos pedagógicos de ensino. Fato que nos leva a entender que assim nasce ou é criada uma elite intelectual dentro dos espaços acadêmicos, levando ao acirramento das individualidades e a competição, fazendo com que professores lutem entre si para alcançar posição de destaque e de superioridade entre os pares. Todavia é importante assinalar que o acirramento de disputas entre os pares também é fruto das políticas estatais de regulação que busca naturalizar a eficiência e a meritocracia, tornando-as regra básica para o
funcionamento do sistema. Politicas cuja forma é derivada da forma-valor (MASCARO, 2013).
Os professores considerados produtivos tendem a naturalizar o trabalho intensificado e o produtivismo e por vezes a negá-los, para se manterem no topo da hierarquia entre os pares. Em contrapartida há queixa dos docentes ligados ao ensino que acabam ministrando mais aulas na graduação e absorvendo mais os impactos do número elevado de alunos e da expansão. Enfim, há queixas de ambos os lados sobre os esforços distintos; e descompassos, senão injustiças, em relação à valorização real e simbólica dos esforços empreendidos pelos docentes, seja na pós-graduação ou no ensino.
Todavia, de modo geral, a maior parte dos docentes reconhece o processo de intensificação para atender ao produtivismo e que há alta demanda na graduação e de atividades no interior de uma instituição que ampliou significativamente seu número de alunos e cursos. E ainda indicaram os efeitos negativos à qualidade do ensino e os riscos de políticas públicas de ampliação de acesso ao ensino superior. A massificação e deterioração da infraestrutura foram criticados, por alguns dos entrevistados.
Os resultados dessa pesquisa assinalam que as implicações da implementação do REUNI para o trabalho docente, na UFV, no caso dos cursos de Ciências Biológicas, trouxeram um acréscimo à intensificação do trabalho docente que já existia fruto das mudanças estruturais do capitalismo e das transformações do mundo do trabalhobalizado pela lógica da eficiência e da maximização dos recursos e da força de trabalho. Na visão dos docentes participantes da pesquisa o principal impacto da expansão foi o aumento no número de alunose os desdobramentos que este trouxe no que tange à distribuição das tarefas de gestão, ensino, pesquisa e extensão.
Foi possível observar também que docentes mais dedicados à pesquisa tendem a naturalizar o processo de intensificação, que conforme a produção e as diferentes etapas da carreira, os docentes tem seu trabalho intensificado pelo produtivismo ou pelo atendimento a uma grande demanda na graduação, fato que gera conflitos nas relações de trabalho uma vez que cria uma hierarquização entre professores considerados “bem sucedidos” que produzem mais e se dedicam mais a pós-graduação e professores “menos sucedidos” que se dedicam a graduação, sendo reiteradas as queixas dos professores uns em relação aos outros. Enfim, verificamos o gerencialismo engendrado no cotidiano de trabalho com a predominância dos índices e metas em detrimento do trabalho substantivo do professor. A ideologia gerencialista tende a naturalizar o produtivismo acadêmico e a gerar conflitos nas relações de trabalho.
Deste modo, os pontos privilegiados do processo de intensificação do trabalho docente estão ligados ao aumento do número de alunos e às exigências de produtividade em pesquisa, que repercutem no trabalho do docente de forma a reconfigurar as práticas universitárias,o que ameaça a qualidade do ensino e da pesquisa na instituição.
Contudo, é sabido que, mesmo com todo o esforço empreendido nesse estudo, não foram esgotadas todas as possibilidades de análise do tema, de modo que novas questões surgiram ao longo do trabalho, tais como: a possibilidade de estudo sobre as visões dos gestores que auxiliaram na implementação do REUNI; a relação entre a implementação do REUNI e número de concluintes e evadidos dos cursos de licenciatura criados; se pode estar havendo uma restruturação curricular e/ou flexibilização no currículo a partir da expansão da universidade e do REUNI, dentre outros. O que realça a importância de novos e contínuos estudos sobre o tema. Estudos que, finalizado o período de expansão via REUNI, já diante de um horizonte temporal mais amplo, possam vir a melhor elucidar seus efeitos a longo prazo, e uma possível continuidade das formas precárias e intensificadasdo trabalho docente sob os determinantes da economia financeirizada, da lógica privado-mercantil inserida na universidade e dos ditames gerencialistas da avaliação e do financiamento.
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