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Perante o que foi explicado anteriormente, seria viável que a ida à praia, no sentido moderno do termo, tivesse como principal motivo a terapia do corpo (física e mental). Porém, como vimos, a praia começou também desde cedo a ser um espaço de distinção social, não apenas no seu espaço físico como também nas modalidades em que esta era frequentada e nos espaços envolventes.

Mas quando falamos da “praia terapêutica” e da “praia social”, temos também de falar na “praia lúdica”, cuja origem é difícil de datar, uma vez que as fontes sugerem-no num

338 “O desenvolvimento da educação física fundamentava-se num discurso científico novo que, em ruptura

com o passado, rejeitava a ideia de um corpo imutável e definitivamente formado por determinações exter- nas.” – Jorge Crespo, “O processo de civilização do corpo em Portugal”, p.38.

339 Como afirma Manuela Hasse, “o passeio, a procura do ar livre, as distracções no campo ou à beira-mar,

revelam-se auxiliares dos médicos. A mudança introduzida na rotina, a diversão do espaço, o efeito do campo e a atraente sedução do mar e das vagas e o seus resultados terapêuticos, não deixam de ser recomendados sem hesitação pelos médicos que observavam a influência do meio no estado de saúde geral dos indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades”. Manuela Hasse, p.126.

340 Sobre estas competições ver Manuela Hasse, pp.315-332 e 343-358. 341 Paula M. Pereira de Oliveira Dias, pp.180-182.

tom quase sempre crítico342. Maria Luísa Afonso Martins considera que, se na primeira meta- de do século XIX a ida à praia é alvo de críticas que concernem ao “fenómeno enquanto moda e aos álibis terapêuticos que esconderiam outros pretextos”343, na segunda metade do século as críticas “têm como objecto um modelo de veraneio, o das elites que tornaram as estações balneares em locais de divertimento e de prazer. (...) É a moral burguesa, a valoriza- ção do trabalho, a crítica à vida de luxo e de prazer aristocráticos que estes textos denun- ciam”344.

Sabemos, ainda assim, que o “prazer” da vilegiatura marítima foi desde o início um factor importante para muitos banhistas, tanto mais não fosse pelo convívio e pela vida social inerentes. Helena Machado aponta que desde cedo a estadia balnear expressava um desejo claro de desfrutar de uma “vida social intensa” – basta atentarmos nas memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, em que este descreve as suas estadias na casa do Conde de Lumiares, em S. José de Ribamar (Algés), e na casa da família em Pedrouços, locais onde predominava um clima de festa, convívio, divertimento e despreocupação345.

Estes dados parecem contrariar outros autores346 que apontariam a formação de um conceito dominante de praia vocacionada para o prazer apenas na segunda metade do século XIX, em contraste com a “praia terapêutica”, frequentada por receita médica, que teria vigo- rado essencialmente entre 1800 e 1840347. Este pensamento parece advir de uma aparente simplificação daquilo que foram os hábitos balneares ao longo do século XIX. Em contraste com esta posição, Helena Machado defende que, até meados do século XIX, a praia em Por- tugal foi frequentada essencialmente pela aristocracia e com os “objectivos lúdicos” a sobre- porem-se aos de teor terapêutico; a partir da segunda metade de oitocentos entraríamos numa

342 Veja-se o que diz um edital do Conselho de Saúde Pública do Reino, de Agosto de 1856: “sendo chegada a

época, em que muitas pessoas costumam fazer, por mera recreação, usos dos banhos de mar, e quase sempre imoderadamente...” – Diário do Governo, nº197, 21 de Agosto de 1856. Citado em Maria Luísa M. Afonso Martins, p.16.

343 Veja-se, por exemplo, o folheto Os Banhos do Mar ou Os Olhos de huma Senhora Banhados em Lagri-

mas..., em que a mulher se defende das críticas do marido dizendo que todas as suas amigas e conhecidas frequentam os banhos (pp.3-4 e 11).

344 Maria Luísa M. Afonso Martins, pp.151-152.

345 “No verão de 1806 tomou a minha família a casa do Conde de Lumiares, a S. José de Ribamar, para irmos

aos banhos de mar. Era nosso vizinho meu amigo e tutor, o Marquez de Bellas, que residia no seu forte, e, segundo as recordações que tenho, foram contínuos os divertimentos e festas. Todas as tardes iamos merendar ao forte, e os bailes, concertos, ceias, pescas ao candeio, e passeios no rio, nas tardes serenas, com bandas de musica militar, eram a occupação dominante dos habitantes d’aquele sitio”. O Marquês chega mesmo criticar a obsessão da sua avó com os banhos de mar: “...minha Avó teve a phantasia de tomar a direcção dos banhos e fez com que todos adoecessemos, porque nos constipámos, em consequência d’ella nos fazer lavar em agua doce, logo que sahimos do mar”. - Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, pp.19, 151.

346 Nomeadamente Rob Shields, Places on the Margin – Alternative Geographies of Modernity, Londres e

nova fase, em que a burguesia edificou a “praia terapêutica”, exaltando as virtudes da “auste- ridade” e do “comedimento” e promovendo uma nova noção do corpo adequada ao trabalho e ao progresso, em oposição à suposta ociosidade e luxúria aristocráticas348. Porém, a própria autora considera que esta divisão deve ser matizada, pois, como vimos anteriormente, estes valores tão prezados pela burguesia seriam sobretudo canalizados para o sexo feminino, enquanto para o sexo masculino a estadia na praia depressa se tornou uma forma de escapis- mo e uma fonte de prazeres mundanos. Para a socióloga Maria de Lourdes Lima dos Santos, passada a fase do “capitalismo inicial”, a ideologia burguesa sofreria na realidade um proces- so de despersonalização, assistindo-se a uma coexistência de “práticas originalmente burgue- sas” com “práticas de imitação do estilo de vida da aristocracia”349. Maria Luísa Afonso Mar- tins considera mesmo que nas últimas décadas do século XIX é visível que “o preceituário médico sobre os banhos de mar está desvalorizado” em favor do convívio e do cosmopolitis- mo nas praias350.

O elemento sexual, observado por Alain Corbin, teve também uma relação profunda com aquilo que era o prazer dos banhos de mar. Segundo o autor, algumas fontes viam no contacto das mulheres com o banheiro e com a água do mar (ver figura 31) um espectáculo indecente, uma espécie de “simulação do orgasmo” feminino351. Já para o homem, o mergu- lho, a flagelação pelas ondas e pela água salgada, o confronto com o mar, do qual o homem saía vencedor, constituiriam um sinal de virilidade, de exaltação do masculino352. Maria Luí- sa Afonso Martins considera que os banhos de mar provavelmente teriam uma vertente de “prazer sexual” (embora se desejasse que tivessem um efeito contrário, o de suportar os dese- jos da volúpia), remetendo para um trabalho de 1878, em que se refere que o banho de mar teria efeitos sobre o aparelho genito-urinário, “observando-se como geral o orgasmo penial depois do banho”353.

347 Helena Machado, pp.63-64.

348 Jorge Crespo, A História do Corpo, Lisboa, Ed. Fragmentos, 1990, p.465.

349 Maria de Lurdes Santos, “Para uma análise das ideologias da burguesia” in Análise Social, vol.XIII (49),

1977, p.33. Citado em Helena Machado, pp.64-65. Sobre o suposto processo de “aristocratização da burgue- sia” ver o artigo de Immanuel Wallerstein, “The Bourgeois(ie) as Concept and Reality” in New Left Review, I/167, Janeiro-Fevereiro de 1988, pp.91-106.

350 Maria Luísa M. Afonso Martins, p.23.

351 “A descrição do espectáculo das mulheres, e sobretudo das mocinhas no banho, converte-se sub-

repticiamente em pintura de cenas de volúpia. Essas banhistas nos braços de um homem vigoroso, aguardando a penetração brutal no elemento líquido, a sufocação e os pequenos gritos que a acompanham, sugerem o coito com tanta evidência que a similitude leva o doutor Le Couer a se inquietar com a indecência do banho de onda”. - Corbin, pp.86-87.

352 Idem, pp.89-90.

353 José Pocariça da Costa Freire, Algumas Palavras sobre Os Banhos de Mar Frios, Lisboa, Typ. Nova

Como local de sociabilidades, a praia era também uma fonte de prazer para os primei- ros banhistas. Por se tratar de um meio recentemente “descoberto”, a praia era um local onde o controle social não era tão apertado para o sexo feminino, dando-lhe outras oportunidades de expor o seu corpo e os seus sentimentos354. A praia foi assim desde cedo aproveitada pelos rapazes para namorar as suas prometidas em casamento, ou para estas falarem entre si dos seus pretendentes355. Frequentemente as mulheres eram também alvo de olhares voyeuristas, dada a invulgar exposição dos seus corpos.

Se encararmos o ir à praia como uma actividade de lazer, é fácil percebermos como esta se tornou uma actividade importante nas sociedades industriais modernas. Os sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning salientam que neste tipo de sociedades “são menos frequentes as situações críticas sérias que originam comportamentos de excitação nos indivíduos”356, em comparação com as sociedades menos desenvolvidas. As “explosões fortes e apaixonadas” por parte dos indivíduos foram amortecidas por determinadas restrições – códigos comporta- mentais, concepções sobre o corpo, separação rigorosa dos tempos de trabalho e de lazer – que levaram a um controlo social bastante rígido. Por essa razão, o lazer constituiu-se como “um enclave para o desencadear, aprovado no quadro social, do comportamento moderada- mente excitado em público”357 – ou seja, uma actividade em que se busca uma “quantidade ideal” de excitação-prazer que compense de alguma forma a monotonia dos tempos de traba- lho, nos quais não há lugar para grandes manifestações emocionais ou “irracionais”. Segundo os autores, esta excitação procurada no lazer seria uma “excitação mimética”, por forma a desencadear sentimentos ou sensações semelhantes aos originados por determinadas situa- ções “sérias”358 – neste caso, o choque do contacto com o mar, a luta contra as ondas, a expo- sição ao sol, a visualização dos corpos semi-desnudados são situações não habituais ou mes- mo não desejáveis socialmente, mas que na praia assumiriam um lugar de normalidade ou de aceitação social. A aceitação destas práticas contribuiu para que a praia se desenhasse, em simultâneo com as suas funções terapêutica e social, como um local de lazer e de excitação.

Podemos assim dizer que há, desde o início, um multiplicidade de razões para fre- quentar a praia, sejam elas terapêuticas, sociais ou lúdicas. A sua importância variava con-

354 Maria Luísa M. Afonso Martins, p.64.

355 Matusio Mata, Os banhos de mar na Junqueira e sítio de Santa Apolónia..., p.10. Citado em Maria Luísa

M. Afonso Martins, p.24.

356 Norbert Elias e Eric Dunning, “A busca da excitação no lazer” in A busca da excitação, p.101. 357 Idem, pp.103-104.

soante as características das praias, as necessidades e as preferências do banhista359, bem como as restrições impostas pelo contexto social. Porém, é seguro dizermos que, pelo menos até à década de 10 do século XX, em virtude de um paradigma caracterizado pelo controlo do corpo e das pulsões, a praia constituiu-se essencialmente como um espaço onde os corpos e os comportamentos eram rigorosamente vigiados, sendo a função terapêutica aquela que pre- valecia como álibi principal para a estadias à beira-mar360. Esta situação começou a alterar-se a partir da década de 1920, como veremos a seguir.