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Segundo Schmidt e Wrisberg (2010), a aprendizagem relacionada às habilidades motoras pode ser avaliada sob duas perspectivas: i) quanto ao aspecto de realização de uma tarefa e ii) quanto aos fatores de proficiência na execução de movimentos.

41 Considerando a perspectiva de realização de tarefas, é necessário considerar que essas são desempenhadas de diferentes formas e/ou são aprendidas com princípios e métodos diferentes.

Schmidt e Wrisberg (2010) mencionam três características que os cientistas do movimento têm utilizado para definir habilidades: i) a forma como uma tarefa é organizada; ii) a importância relativa dos elementos motores e cognitivos; e iii) o nível de previsibilidade do ambiente durante o desempenho.

Ao analisar a forma como uma tarefa é organizada, há uma subdivisão em três dimensões: discreta, seriada e contínua. As habilidades ou tarefas discretas são definidas por Schmidt e Wrisberg (2010, p. 28) como “uma habilidade ou tarefa que é organizada de maneira em que a ação é normalmente breve em duração e tem início e fim bem definidos”.

Já a dimensão seriada pode ser definida como “um tipo de organização da habilidade caracterizado por várias ações discretas conectadas em uma sequência, sendo, frequentemente, a ordem das ações crucial para o sucesso do desempenho” (SCHMIDT e WRISBERG, 2010, p. 28).

As tarefas, em uma dimensão de habilidades contínuas, podem ser compreendidas como “uma habilidade organizada de maneira que a ação se desdobra em um início e um fim identificáveis de forma contínua e repetitiva” (SCHMIDT e WRISBERG, 2010, p. 28).

Com o objetivo de ilustrar esses conceitos, a Tabela 3 apresenta exemplos que envolvem as dimensões discreta, seriada e contínua na perspectiva de organização de uma tarefa ou habilidade.

Tabela 3 - Dimensões discreta e contínua da habilidade

Habilidades discretas Habilidades seriadas Habilidades contínuas Características: Início e fim distintos Ações discretas conectadas Início e fim não distintos

Exemplos: Arremessar um dado Martelar um prego Pular corda

Estalar os dedos Enfaixar o tornozelo Remar

Levantar-se da posição Escovar os dentes Andar de rollerskate

42 Além das dimensões tabuladas, convém mencionar a importância relativa aos elementos motores e cognitivos na definição de uma tarefa. Para Schmidt e Wrisberg (2010, p. 29),

uma habilidade cognitiva enfatiza, principalmente, o saber o que fazer, enquanto que uma habilidade motora enfatiza, principalmente, o fazer efetivamente. Observe que introduzimos a palavra “principalmente” na frase anterior. Fizemos isso porque habilidades puramente motoras e puramente cognitivas estão, na realidade, em um contínuo, com a maioria das habilidades localizadas em algum lugar entre esses extremos.

Ainda na dimensão de organização de tarefas, Schmidt e Wrisberg (2010, p. 29) argumentam que uma forma mais efetiva de definir as habilidades com o sistema motor/cognitivo pode ser feita levando-se em consideração o “[...] grau com que os elementos cognitivos (i.e., saber o que fazer) e os elementos motores (i.e., saber como fazer isso) contribuem para a busca dos objetivos”.

Esse contínuo pode ser visualizado na Tabela 4 que descreve características e exemplos das dimensões motoras e cognitivas de habilidade.

Tabela 4 - Dimensões motora e cognitiva de habilidade

Habilidades motoras Habilidades Cognitivas

Características Tomada de decisão minimizada

Alguma tomada de

decisão Tomada de decisão maximizada Controle motor maximizado Algum controle motor Controle motor

minimizado Exemplos: Salto em altura Jogar de quarto-zagueiro no futebol americano Jogar pôquer

Levantamento de peso Dirigir um carro de corrida Cozinhar uma refeição Trocar um pneu Caminhar em um terminal

movimentado de um aeroporto

Treinar uma equipa esportiva

Fonte: Schmidt e Wrisberg (2010, p. 30)

Quanto ao ambiente de execução de uma tarefa, Schmidt e Wrisberg (2010, p. 29) também questionam até que ponto há estabilidade e previsibilidade na realização de uma tarefa. Habilidades realizadas em um ambiente variável e imprevisível são definidas como habilidades abertas, enquanto que as realizadas em ambiente estável e previsível são definidas como habilidades fechadas, conforme exemplos apresentados na Tabela 5.

43 Tabela 5 - Dimensões aberta e fechada de habilidade

Habilidades fechadas Habilidades abertas

Características: Ambiente previsível Ambiente semiprevisível Ambiente imprevisível

Exemplos: Fazer ginástica Caminhar na corda bamba Jogar futebol Digitar Dirigir um automóvel Praticar luta greco-romana Cortar vegetais Atravessar uma rua Caçar uma borboleta

Fonte: Schmidt e Wrisberg (2010, p. 30)

Para fatores de proficiência na execução de movimentos, faz-se necessário apresentar características do desempenho habilidoso e, para isso, os cientistas do movimento apresentam um debate sobre execuções habilidosas e não habilidosas.

Apesar de existirem diferentes formas de caracterizar tarefas habilidosas, Schmidt e Wrisberg (2010, p. 33) afirmam que “a melhor forma de os professores avaliarem a aprendizagem motora é observando o desempenho motor e percebendo as mudanças que ocorrem sistematicamente com a prática educacional”.

Com o objetivo de apresentar uma definição para desempenho motor, Schmidt e Wrisberg (2010, p. 31) a relacionam com a capacidade que um indivíduo possui para atingir um resultado final com o máximo de certeza e um mínimo dispêndio de energia ou tempo. Quando se trata de avaliar a execução de um desempenho habilidoso, admitem ser necessário partir de uma meta ambiental.

Uma meta ambiental pode ser definida consoante critérios de avaliação de HSM, que podem ser originados tanto em metas pessoais de executantes de uma tarefa, como em metas relativas a objetivos de programas educacionais ou de treinamento.

Segundo esses autores, se não há meta ambiental não há como definir execuções habilidosas, ou seja, “os movimentos que não têm meta ambiental específica, tal como batucar com os dedos sem tentar qualquer ritmo, não são considerados habilidosos nesse sistema” (SCHMIDT e WRISBERG, 2010, p. 31).

Em uma abordagem de aprendizagem motora baseada na situação (ou no contexto), é oportuno ressaltar que, para formular metas ambientais corretas, é preciso relacioná-las a questões importantes que são consideradas em um contexto de avaliação de HSM.

44 Nesse sentido, Schmidt e Wrisberg (2010) definem que os profissionais do movimento devem considerar, antes de tudo, características básicas para oferecer qualquer auxílio de instrução: a pessoa, a tarefa e o ambiente.

As características relacionadas à pessoa estão ligadas às capacidades que cada indivíduo possui, como “[...] um nível maturacional específico, experiências prévias de movimento, um background sociocultural, um nível de motivação, um perfil emocional e, em alguns casos, uma condição de deficiência que são únicos” (SCHMIDT e WRISBERG, 2010, p. 38).

Além disso, do ponto de vista ambiental, há uma preocupação dos cientistas do movimento quanto ao desempenho diversificado, que ocorre em decorrência da influência do ambiente de execução de um movimento, ou seja, “[...] a ênfase colocada na prática do movimento desejado em um ambiente que seja semelhante àquele em que a pessoa necessitará finalmente ser capaz de executar a tarefa” (SCHMIDT e WRISBERG, 2010, p. 38).

Quanto à definição de tarefa, Schmidt e Wrisberg (2010) assinalam que uma forma útil para iniciar essa discussão é relacionando-a a uma das definições sobre formas de organização apresentadas anteriormente, ou seja, em contextos de habilidades fechadas, discretas, abertas, seriadas ou dentro de uma relação estabelecida no espaço contínuo motor-cognitivo.