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As primeiras utilizações de histórias de vida em Ciências Sociais ocorrem na década de 1920, pela Escola de Chicago, que se tornou conhecida por estudos sobre criminalidade, desvio e delinqüência juvenil.

Centrada nas pesquisas voltadas para o comportamento humano no meio urbano, a Escola de Chicago assumiu uma postura metodológica de priorizar a análise do indivíduo, a pesquisa empírica, a Sociologia Qualitativa e a observação minuciosa das interações dos

observar uma cultura que não é a dele. Dizia Laplantine que o antropólogo deveria era saber promover uma análise etnográfica e, em sabendo, ele poderia aplicá-la no próprio âmbito do espaço geográfico onde nascera.

indivíduos dentro do tecido social e as diversas interpretações que esses atores têm dessas interações e que “transparecem” durante os relatos orais.

Sobre esse viés interacionista simbólico22, Blumer (1969 apud COULON, 1992:94) enfatiza que o pesquisador tem que entrar no papel do ator e ver seu mundo do ponto de vista dele (ator social), pois, “o ator age no mundo em função do modo que ele vê não da forma que aparece a um observador estrangeiro” (tradução livre23

Ainda Becker, em seu prefácio ao livro de Clifford Shaw, The Jack-Roller: a delinquent boy’s own story (1966:xv-xvi) – “uma das obras mais célebre de toda escola de Chicago” (COULON, opus cit.: p.64, tradução livre)

). Dentro dessa mesma discussão, Becker (1994:103):

Para entender por que alguém tem o comportamento que tem, é preciso compreender como lhe parecia tal comportamento, com o que pensava que tinha que confrontar, que alternativas via se abrirem par si; é possível entender os efeitos das estruturas de oportunidades. Das subculturas delinqüentes e das normas sociais, assim como de outras explicações comumente evocadas para explicar o comportamento, apenas encarando-as a partir do ponto de vista dos atores.

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, em que Shaw faz um estudo de caso a respeito de um jovem delinqüente chamado Stanley e sobre quem Shaw escreve a autobiografia a partir de relatos orais – enfatiza que se colocando na pele de Stanley, podemos entender o delinqüente desde o ponto de vista deste25

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Segundo Coulon (1992:13), o interacionismo simbólico influenciou profundamente a Sociologia de Chicago, e teve sua raiz no pragmatismo de John Dewey, inaugurado por Charles Peirce e William James, mas que foi desenvolvido, principalmente, por Mead. Como seu nome o indica, o interacionismo simbólico ressalta a natureza simbólica da vida social: as significações sociais devem ser consideradas como “produzidas pelas atividades interagentes dos atores” (BLUMER, 1969, p. 5). Isso implica para o observador que se propõem compreender e analisar essas significações que ele adote uma atitude metodológica que autorize esta análise. O pesquisador só terá acesso a esses fenômenos privados, que são produções sociais significantes dos atores, se ele participar igualmente a um ator, no mundo que ele se propõem estudar (tradução livre).

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O texto no original e integral: “Il faut prendre le rôle de l’acteur et voir son monde de son point de vue. Cette approche méthodologique contraste avec la soi-disant approche objective, si dominante aujourd’hui, qui voit l’acteur et son action depouis la perspective d’un observateur détaché et extérieur (...) L’acteur agit dans le monde en fonction de la façon dont il le voit e non dont il apparaîtrait à un observateur étranger”.

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Texto no original: “L’un des ouvrages les plus célèbres de toute l’École de Chicago est sans doute celui que Clifford Shaw consacra au cas de Stanley, jeune déliquant de seize ans, qu’il fréquente régulièrement pedant six ans et qu’il incite à écrire un récit autobiographique dans lequel Stanley raconte les circonstances pratiques dans lesquelles il est devenu un délinquant, ainsi que sa « carrière » de délinquant”.

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Texto lido: …by putting ourselves into Stanley skin, we can feel and become aware of the deep biases about such people that ordinarily permeate our thinking and shape the kinds of problems we investigate. By truly entering into Stanley's life, we can begin to see what we take for granted (and ought not to) in designing our research - what kinds of assumptions about delinquents, slums, and Poles are embedded in the way we set the questions we study. Stanley's story allows us, if we want to take advantage of it, to begin to ask questions about delinquency from the point of view of the delinquent. If we take Stanley seriously, as his story must impel us to do, we might well raise a series of questions that have been relatively little studied - questions about the people who deal with delinquents, the tactics they use, their suppositions about the world, and the constraints and pressures they are subject to.

.... nos colocando no lugar (na pele) de Stanley, nós podemos sentir e tornar-se cientes das polarizações profundas sobre tais pessoas que permeiam normalmente nosso pensar e damos forma aos tipos dos problemas que nós investigamos. Verdadeiramente entrando na vida de Stanley, nós podemos ver o que nós tomamos como garantido em projetar nossa pesquisa – que tipos de suposições sobre delinqüentes, favelas e Poloneses são encaixados na maneira que nós ajustamos as perguntas que nós estudamos. A história de Stanley nos possibilita, se quisermos tirar vantagens em posicionar perguntas sobre a delinqüência do ponto de vista do delinqüente. Se nós levarmos Stanley seriamente, da forma como sua história nos impele, podemos levantar uma série de perguntas que foram estudadas relativamente pouco – perguntas sobre as pessoas que tratam dos delinqüentes, as táticas que usam, suas suposições sobre o mundo, e os confinamentos e as pressões a que são sujeitas. (SHAW, 1966. Tradução livre).

Na Escola de Chicago, trilharam caminho semelhante para citar apenas dois exemplos, John Ladesco, que trabalhou com histórias de vidas de gangsters, e Edwin Sutherland, que constitui sua pesquisa sobre ladrões “profissionais”, com supedâneo nos relatos orais de um ladrão “profissional”26

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Ver, sobre a Escola de Chicago, Coulon (1992) e Joseph; Grafmeyer (2004).

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Neste trabalho, entre as fontes de que me vali (processos judiciais, inquéritos policiais, arquivos particulares, fontes hemerográficas), privilegiei os relatos orais de histórias de vida, como fonte que me permitiram obter um conhecimento mais detalhado da interação dos processos mentais individuais e as relações sociais.

As histórias de vida me permitiram, por exemplo, ler e analisar o pistoleiro, não tão só como os “outros” o vêm, mas, também, como ele se vê. O pistoleiro se apresentava nas categorias de pai de família, homem corajoso, valente, temente a Deus. Resumidamente, as histórias de vida me possibilitaram compreender como distintos planos da realidade, como múltiplas dimensões do real, em seus mais variados sentidos, vivem juntos dentro de um mesmo indivíduo (MORIN, 1997:329).

Cada informante/narrador, tomado como um arquivo onde os registros de vida estão a todo tempo sendo selecionados, reclassificados, ressignificados, recalcados e redefinidos, sofrem daquilo que Derrida chamou de “mal de arquivo”, (2001). Não podemos tomar as histórias de vida como “realidades estocadas” que nos dariam uma sensação do retorno à origem dos fatos narrados. As narrativas não nos servem como restituidoras de um tempo perdido. O arquivo “não será jamais a memória nem a anamnese em sua experiência espontânea, via e interior. Bem ao contrário: o arquivo tem lugar em lugar da falta originária e estrutural da chamada memória” (Opus cit.: p. 22).

Ora, toda classificação ou catalogação, seja de livros, selos ou histórias, é, antes de tudo, um exercício seletivo do poder. E é aí, exercitando o poder selecionador, que nos relatos são fabricados “anjos” e “demônios”, heróis e bandidos; “crimes hediondos” são transformados em vingança, em que o “sangue frio” do matador pago se torna o “sangue quente” do vingador, e alguns fatos são esquecidos ou colocados debaixo do tapete da história, outros lembrados e outros, ainda, realçados como velhas medalhas que são lustradas, a fim de fazer retornar o brilho que o tempo apagou. Nesse sentido, é válido trazer aqui um trecho da fala de Darnton (1986:249):

Um livro colocado no lugar errado da prateleira pode desaparecer para sempre. Um inimigo definido como menos do que humano pode ser aniquilado. Toda ação social flui através de fronteiras determinadas por esquemas de classificação, tenham ou não uma elaboração tão explícita quanto a de catálogos de bibliotecas, organogramas e departamentos universitários.

Já expressei que iniciei minhas pesquisas no ano de 200227

Percebi que se encontram, com certa facilidade, “notícias” de crimes dessa natureza em jornais, inquéritos e processos. Quando se passa para o campo das obras ficcionais (literatura ou cinema), porém, ou mesmo os trabalhos acadêmicos, e cinema documentário, não se apresentam tantas as fontes. Como trabalhos acadêmicos, existem três livros, que se encontram na bibliografia deste trabalho e com os quais travo diálogo durante esta tese.

. Em princípio, fiz uma grande coleta de “todo” o material publicado disponível sobre crimes de pistolagem e pistoleiro. Em meu recorte metodológico, precisei que a minha procura dessas fontes se restringiria aos casos de crimes de pistolagem ou aos eventos em que houvesse fortes suspeitas de terem sido crimes dessa natureza, porém, desde que ocorridos nos limites geográficos do Estado do Ceará.

Meu percurso arquival iniciou-se pela Biblioteca Pública Menezes Pimentel. Lá vasculhei jornais (periódicos ainda em circulação e outras que já saíram de circulação). De lá passei para os arquivos de dois principais jornais locais, O Povo e Diário do Nordeste.

Consultei, em seguida, antigos processos judiciais e inquéritos policiais no Arquivo Público Estadual do Ceará e as mesmas fontes, só que mais recente, a partir de 1995, no arquivo do Fórum Clovis Beviláqua.

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Ingressei no Doutorado no ano de 2003, porém, conforme já mencionei na Introdução desta tese, dei início às pesquisas no ano anterior, em 2002.

Na literatura nacional, li obras que falavam sobre o cangaço28, jagunços, cabras, sobre o sertão, e poucas que tratavam diretamente sobre o personagem pistoleiro. Encontrei três cordéis que falavam diretamente sobre pistolagem. Dois são citados neste trabalho, pois foram escritos baseados nas trajetórias de Mainha o outro menciono na bibliografia. Li, também alguns romances, sobretudo os intitulados de “romances regionalistas” ou “romance de 30”29

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Formei, durante minhas pesquisas, uma biblioteca e uma filmoteca sobre temas relacionados ao cangaço. Conversei com alguns pesquisadores do tema e, também, entrevistei um ex-cangaceiro do bando de Lampião, conhecido por “Moreno”. Estas aproximações foram tentativas de compreender de forma “transversal”, algumas categorias que são presentes, tanto no cangaço quanto na pistolagem. Por exemplo, a “valentia”, “honra”, “lealdade” etc.

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Romances que se basearam em costumes e tradições regionais, com uso da linguagem local e de concepção realista.

. No cinema também encontrei poucos títulos disponibilizados entre obras de ficção e documentário.

Fiz consultas, ainda, a duas pesquisas realizadas pela APAVV, consultei os arquivos da Academia Cearense de Letras (ACL) e do Instituto Histórico e Antropológico do Ceará (IHAC), além de ter-me sido disponibilizada a pesquisa em alguns arquivos particulares de policiais, ex-policiais e jornalistas.

Também foram consultados alguns exemplares de revistas de circulação nacional que abordaram os crimes de pistolagem no Ceará, algumas edições das revistas Veja, Época e IstoÉ.

No período em que cumpri missão de estudos na l’Universitè Lumière Lyon 2, em França, pesquisei sobre conflitualidades, crimes de vingança em culturas mediterrâneas, sempre nas abordagens antropológicas e sociológicas, tanto no Centre de Recherches et d’Études Anthropologiques (CREA), ligada à Faculté d’Anthropologie et de Sociologie quanto na biblioteca da l’Université Lumière Lyon 2.

Adicionadas a todas essas fontes, foram consultadas a legislação penal e a Constituição Federal brasileira, no que concerne ao Direito Penal.