Em diferentes discursos e relatos de empregadores, trabalhadores, trabalhadoras e manuais de orientações para o plantio está presente a noção de que mulheres possuem habilidades manuais inatas que lhe facilitariam o trato com as plantas.
3. Bases teóricas
120 Destacamos abaixo um fragmento da narrativa de uma trabalhadora do cultivo de flores para demonstrar esse argumento:
Tacinara – Eu fico olhando, assim, aquelas violetas, tudo bonitinha, verdinha, eu fico admirando. E aí perguntam: “por que ela está assim?” “porque suas mãos são mãos abençoadas” [risos] “porque suas mãos, você fica aí, o que você tocar tudo fica bonito” (Artur Nogueira/SP, maio de 2013).
O excerto mostra que a habilidade manual de Tacinara foi classificada como “bênção”, e não como um conhecimento adquirido ou desenvolvido. Desse modo, o entendimento de que algumas mulheres possuem o “dedo verde” e as “mãos mágicas” desde o nascimento contribuem para a baixa remuneração das atividades, uma vez que existe uma interpretação de que as habilidades não teriam sido desenvolvidas e adquiridas com o tempo, e sim presenteadas pela natureza, e por isso não precisariam ser remuneradas. Adiante veremos como essa construção também faz com que recaia sobre as mulheres o peso da responsabilidade pelos cuidados com a saúde e o bem-estar dos membros da unidade doméstica.
Para dar seguimento à reflexão, lembramo-nos dos escritos de Simone de Beauvoir (1970) que contribuíram para a recusa de que os corpos biológicos levariam a um destino imutável para homens e mulheres. A autora mostra que os corpos e a fisiologia humana são instrumentos de domínio não por conta da natureza em si, mas de uma construção social que estabelece uma hierarquia entre os sexos e relega à mulher o lugar de Outro, enquanto o homem teria sempre a posição de tipo humano absoluto e universal. Beauvoir (1970) mostra que a fisiologia por si própria não cria valores e que o corpo da mulher “só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através das ações e no seio de uma sociedade; a biologia não basta para fornecer uma resposta à pergunta que nos preocupa: por que a mulher é o Outro?” (BEAUVOIR, 1970, p. 57). Para buscar respostas a este questionamento, a autora recorre aos pontos de vista da psicanálise e do materialismo histórico, apontando avanços e limites destas correntes.
O progresso da psicanálise em relação à explicação biológica, de acordo com Beauvoir (1970), foi “considerar que nenhum fator intervém na vida psíquica sem ter revestido um sentido humano” (p. 58). Portanto, a natureza não seria suficiente para definir a mulher. É de suma importância que se conheça também a estrutura econômica e social na qual homens e mulheres estão inseridos e inseridas. Nesse sentido, a relevância do materialismo histórico para as reflexões de Beauvoir (1970) se dá pelo fato de
3. Bases teóricas
121 proporcionar o entendimento de que a humanidade é uma realidade histórica e não sofre passivamente a presença da Natureza.
A partir desse entendimento, explicações que determinam que mulheres sejam as únicas responsáveis pelos cuidados das crianças em razão do fato biológico de serem progenitoras perdem sentido, na medida em que os costumes são construídos historicamente.
Joan W. Scott (1990) apresenta outros elementos para o debate ao enfatizar a necessidade de rejeitar o caráter fixo e permanente da oposição binária homem/mulher, masculino/feminino, historicizar e desconstruir os termos da diferença sexual. A autora mostra que a história do pensamento feminista é marcada pela recusa à construção hierárquica entre masculino e feminino, buscando reverter ou deslocar seus funcionamentos (p. 13). As feministas, segundo Scott (1990), “não somente começaram a encontrar uma voz teórica própria; elas também encontraram aliados científicos e políticos. É dentro deste espaço que nós devemos articular o gênero como uma categoria de análise” (p. 14).
Dando prosseguimento à proposta, Scott (1990) elabora as bases para a definição de gênero. Primeiramente, o conceitua como um “primeiro modo de dar significado às relações de poder” (p. 14) e como um “elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos” (p. 14). Para a autora, as relações de gênero podem ser compreendidas por meio do entrelaçamento de quatro elementos: o primeiro deles são os símbolos culturais disponíveis que evocam representações simbólicas (por exemplo, Maria como símbolo da mulher na tradição cristã ocidental); o segundo elemento é constituído por conceitos normativos que evidenciam as interpretações do sentido dos símbolos – estes conceitos estão assentados em doutrinas religiosas, educativas, científicas, legais e políticas, e adquirem a forma de oposições binárias fixas e afirmam de forma categórica o sentido do homem e mulher; o terceiro diz respeito à noção de político com uma referência às instituições e à organização social (pensando numa perspectiva de gênero que inclua o mercado de trabalho e a educação, por exemplo); e o quarto elemento refere-se à construção da identidade de gênero historicamente situada (SCOTT, 1990, p. 15).
No tocante aos símbolos sociais que possuem a força de organizar as relações sociais, podemos retomar a análise feita por Beauvoir (1970) sobre as correspondências entre a mulher, a natureza, a reprodução e a agricultura de um lado, e de outro lado a figura do homem relacionada com o poder de criação. A autora faz menção
3. Bases teóricas
122 ao caso dos índios do Rio Orinoco que confiavam às mulheres o cuidado de semear e plantar, acreditando que as sementes e as raízes plantadas por elas poderiam dar mais frutos pelo fato de que as mulheres sabiam conceber e parir. Do mesmo modo, em algumas sociedades, o trabalho agrícola era confiado à mulher porque os grupos acreditavam que ela era capaz de “atrair a seu seio as larvas ancestrais” e tinha o poder de “fazer jorrar dos campos semeados os frutos e as espigas” (BEAUVOIR, 1970, p. 88). Na Índia existia uma crença de que as plantas floresceriam com maior facilidade depois de receber as súplicas e o toque das mulheres (GOODY, 1993). Em outras sociedades, pelo contrário, a natureza feminina teria o poder de destruição – as mulheres que estivessem no período menstrual não podiam cozinhar ou se aproximar de algumas plantações porque, ao tocar as flores, a “impureza” da menstruação faria murchar as plantas (BEAUVOIR, 1970).
As plantas e o corpo feminino não apresentam somente uma relação de reprodução ou destruição da natureza, mas também são carregados de outras simbologias e metáforas. Uma delas é a expressão “colher a flor”, que para muitos grupos significa tirar a virgindade de uma mulher (BEAUVOIR, 1970, p. 197). As simbologias também estão presentes na literatura, quando os poetas do Ocidente e do Oriente “metamorfoseiam o corpo da mulher em flores, em frutos, em pássaros” (BEAUVOIR, 1970, p. 197).
O antropólogo Jack Goody (1993), em estudo aprofundado sobre a representação e uso das flores ao redor do mundo, nos ensina que a sexualidade é o centro da existência da flor e desempenha um papel importante quando é referida à vida humana. Em muitas sociedades estão presentes comparações entre a flor e a atividade reprodutiva/menstrual das mulheres. Por meio dessa associação, muitos grupos sociais entendem que a “defloração de uma virgem” seria como se estivesse arrancando as pétalas de uma flor, tirando sua essência (GOODY, 1993). O autor remonta ao ano de 240 a.C., citando o Festival Romano da Floralia55 que consagrava a fertilidade e os ciclos agrários
– uma das celebrações do festival era um espetáculo com prostitutas que se despiam a convite dos espectadores. Nestas festividades as flores eram associadas com a ostentação pública da sexualidade (GOODY, 1993). Em Pompeia, durante a Antiguidade, o uso e a venda de flores eram associadas com o sexo e com a venda de sexo. No âmbito religioso, em diferentes países como Israel e Roma, a Virgem Maria era representada por meio da imagem da flor em um jardim fechado ou ainda por meio de uma rosa branca sem
55 Deusa das flores
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123 espinhos (GOODY, 1993). O autor ressalta que as flores não estavam relacionadas somente com as mulheres – no Egito, por exemplo, as flores eram usadas pelas mulheres, que as colocavam nos cabelos e seios, mas também por homens que a utilizavam como adorno e também para extrair o perfume delas (GOODY, 1993).
No que diz respeito ao contexto social de nossa pesquisa – o cultivo de flores na região de Holambra, podemos mencionar os seguintes aspectos que relacionam de modo concreto e simbólico as plantas com as relações sociais de gênero:
a) No âmbito da produção simbólica de significados no cultivo de flores é possível dizer que a referência da maternidade é utilizada em pelo menos três ocasiões. A primeira delas diz respeito à nomeação de plantas como “plantas- mãe” ou “folha-mãe” – são as folhas utilizadas no matrizeiro para dar origem a outras plantas. A segunda é o uso do termo “berçário” para indicar o local onde são realizados os processos de enraizamento de certos tipos de plantas e é caracterizado por ser um ambiente ainda mais protegido que a estufa. O fluxo de circulação de pessoas em seu interior é restringido para evitar a propagação de fungos e bactérias. Finalmente, podemos citar uma metáfora utilizada por um trabalhador para enfatizar a importância das rosas no contexto geral do cultivo de flores: “A rosa é a mãe de todas as plantas” (Roberto, Artur Nogueira/SP, abril de 2013).
b) Na dimensão da distribuição das atividades no cultivo de flores é possível afirmar que existe uma divisão sexual do trabalho56. Os homens são destinados
principalmente para atividades de irrigação, aplicação de veneno, transporte dos carrinhos entre as estufas e os barracões, e condução de tratores que fazem o preparo da terra e dos caminhões que transportam as plantas para a comercialização. As mulheres estão empregadas principalmente no plantio, enraizamento, colheita, classificação e embalagem das plantas.
c) No âmbito da comercialização – com implicações diretas no processo de produção – temos o fato de que as mulheres são as principais presenteadas com flores, isso porque o Dia das Mães é a data comemorativa com a maior produção de plantas, e isso faz com que sejam intensificadas as atividades no cultivo de flores, com prolongamento das jornadas de trabalho e utilização do trabalho de diaristas.
56 Este tema será abordado em maior profundidade no item 4.2 Descrição das atividades nos campos e nas estufas.
3. Bases teóricas
124 Desse modo, compreendemos que as reflexões propostas por Beauvoir (1970) e Scott (1990) nos fornecem ferramentas necessárias para pensar nos usos, associações e metáforas das flores com os corpos, na medida em que estruturam a percepção e a organização das relações, seja no plano concreto ou simbólico da vida social. Portanto, serão de fundamental relevância para a análise acerca do trabalho no contexto do cultivo de flores na região de Holambra pelo fato de que a construção social de gênero se apresenta como chave explicativa de dinâmicas laborais que se dão nos campos e estufas de flores e que estão intrinsecamente ligados às dinâmicas no ambiente doméstico.