O procedimento investigativo proposto neste estudo tem como objetivo tecer um retrato do fenômeno da aposição como algo que se inscreve nos usos da língua não com estatuto de um termo acessório da oração, mas como formulação linguística condutora de significados retóricos e direcionadora da argumentação.
Os processos de fundamentação teórica, coleta e análise dos dados são integrados e recursivos. À medida que avançamos na coleta e análise dos dados, aprofundamos as bases conceituais e interpretativas de acordo com o referencial teórico escolhido, dentro do qual fizemos reflexões críticas e propositivas.
Optamos pela pesquisa de cunho predominantemente qualitativo porque ela responde à pretensão de uma descrição discursivo-estrutural, como prevista na GDF, que tome como ponto de partida a língua em uso. A análise estatística de frequência tem valor demonstrativo nesta pesquisa como uma investigação explanatória, discutindo as motivações para o uso de uma expressão linguística em detrimento de outras possibilidades em dado contexto. Ao mesmo tempo, este procedimento possibilitou construir uma pesquisa que ensejasse discussões futuras sobre a aplicabilidade das descrições ou prescrições feitas nos manuais de sintaxe, permitindo uma tentativa de explicação funcionalmente embasada no uso real que fazemos da língua sobre as diferentes formas e funções da aposição encapsuladora.
Esta pesquisa não se limita ao método indutivo, a partir do qual se vai dos resultados empíricos para a formulação de generalizações. Partimos da observação de alguns dados e formulamos as hipóteses sobre a formulação e a codificação morfossintática da construção que é nosso objeto de investigação. Por meio de uma análise qualitativa e de uma análise de frequência de determinadas estruturas, voltamos a essas hipóteses para, com o auxílio da dedução, verificar a necessidade ou não de refazê-las.
A organização descendente (top-down) do modelo é uma condição prévia para uma teoria gramatical que tem como objetivo descrever os atos discursivos, em vez de cláusulas isoladas, na perspectiva das decisões comunicativas do falante. Em um modelo orientado para o discurso, a cláusula é apenas uma das opções que o falante tem para contribuir para o fluxo
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discursivo, motivo pelo qual a formulação tem que preceder codificação.
Em função disso, toma-se como unidade básica de análise, de acordo com os pressupostos da GDF, o Ato Discursivo, que pode se manifestar na língua tanto como cláusulas, quanto como fragmentos de frase totalmente gramaticais, sintagmas ou palavras. Masson (2009, p. 80) acrescenta-nos que o ato discursivo nos permite compreender que o uso da linguagem não se limita ao processo de informar apenas, mas que se configura como a reconstrução do próprio mundo real.
Para identificação das ocorrências de aposição encapsuladora, assumimos a concepção de que a aposição é uma estrutura que pode remeter a outro elemento da sentença, mas também atoda a sentença ou a porções textuais difusas. Diante dos estudos já existentes para o fenômeno da aposição, em especial o de Nogueira (1999) e o de Decat (2001), voltamos nossa atenção para a expressão apositiva que toma como escopo orações, encapsulando-as e sobre elas predicando.
Definimos dois critérios estruturais mais gerais para a identificação das aposições encapsuladoras nas amostras textuais e constituição de nosso corpus de ocorrências para a análise:
a – O primeiro elemento da construção apositiva deve ser uma ou mais oração, podendo ser, ainda, uma porção de informação difusa ou apenas inferível sobre a qual recai o encapsulamento do núcleo da aposição encapsuladora,
b – O segundo elemento pode ser uma proforma ou um lexema, acompanhados de oração adjetiva, um sintagma composto de nome e modificador não oracional ou um nome sem modificador, conforme os exemplos a seguir:
(72) Desde que surgiram na imprensa algumas informações sobre o projeto que mandei elaborar, recebi muitos apoios. Surgiram também várias críticas, o que é natural [...] (AO1906)
(73) Paradoxalmente, a partir da década de 90, a prática de extorsão mediante sequestro foi sensivelmente maior do que antes, fato que se repetiu, aliás, com outros tantos delitos mais ou menos hediondos. (AO2406)
(74) [...] Mas, por falta de uma perspectiva mais lúcida, ou acabam resvalando, em alguma medida, na tese perigosa de que a corrupção é mais ou menos inerente a toda prática política operando em “meio” capitalista, ou atenuam responsabilidades por meio do argumento de que também os outros partidos cometeram pecados e que destes não se falou o quanto era preciso, argumento insuficiente (mesmo se a imputação é legítima), já que, além do tamanho da operação, há, no caso do PT, uma circunstância agravante pelo fato de se tratar de um partido que se apresenta como modelo de virtude cívica. (AO2306)
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(75) Qual foi o gancho para a invasão do Iraque? Armas de destruição em massa, afinal nunca encontradas? Claro que não. E essa onda agora contra o Irã? O perigo de bomba atômica nas mãos dos aiatolás? Conversa. É que eles ainda têm muito petróleo e não podem escapar à dominação do Ocidente. (AO0806)
Nesses exemplos, temos que a primeira unidade é uma ou mais orações. Uma oração em (72) e (73), um período com duas orações coordenadas entre si, encaixadas em uma oração complexa em (74) e, em (75), o conteúdo construído: o perigo de bomba atômica nas mãos dos aiatolás justifica essa onda agora contra o Irã , a partir do conjunto de interrogativas. A segunda unidade de cada exemplo representa, respectivamente, um encapsulador pronominal (proforma) acompanhado de adjetiva, um nome acompanhado de adjetiva, um nome com modificador não oracional e um nome simples.
Ao final da leitura dos 550 artigos publicados entre 2006 e 2010 disponíveis no site da Folha de S.Paulo, chegamos a um total de 108 ocorrências. Embora pareça um número pequeno, levamos em consideração que se trata de uma estrutura muito específica e que, no decorrer da leitura, verificamos a repetição de padrões estruturais a serem descritos com base nas categorias da GDF.
Diante do mapeamento dessas construções apositivas que têm como escopo pelo menos uma oração, voltamos para a identificação dos padrões encontrados. Nesta fase, operamos a descrição das ocorrências, identificando, a priori, a configuração da aposição encapsuladora.
É necessário afirmar que as estruturas encapsuladoras analisadas nesta pesquisa ocupam a posição posterior ao segmento encapsulado, justificada por sua função discursiva geral de Adendo (afterthouht). Por isso, para a análise desses dados, desconsideramos outros posicionamentos como o apresentado no exemplo a seguir:
(76) Luiz Gama soube denunciar, com competência e indignação, essa impostura perversa. Sozinho – fato único em nossa história -, conseguiu libertar nos tribunais mais de 500 escravos. (AO2107)
Nesse exemplo, observamos que a aposição encapsuladora ocupa uma posição intermediária entre o segmento constituído pela palavra “Sozinho” e a oração “conseguiu libertar nos tribunais mais de 500 escravos”. Está claro que o escopo desse comentário (fato único em nossa história) é toda oração em que ele se encontra em posição intercalada (Sozinho, conseguiu libertar nos tribunais mais de 500 escravos). Dada a baixa frequência
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dessas estruturas deslocadas, optamos por excluí-las do corpus.
Diante da diversidade de configuração estrutural, optamos por analisar a frequência de cada padrão para definir qual a mais recorrente. Para essa fase da pesquisa, adotamos a ferramenta computacional para análise estatística SPSS (Statistical Package for Social Science). Em linhas gerais, esse programa é um pacote estatístico para análise de dados em Ciências Sociais que tem como vantagem a interface fácil de ser manuseada e linguagem simples para a realização da análise de dados. Além disso, permite fazer análise descritiva, análises inferenciais multivariadas, módulos gráficos etc.
A partir da análise de frequência, observamos qual estrutura de aposição encapsuladora figura como mais recorrente, para a qual atribuímos o título de protótipo dessas construções. Esses dados numéricos, aliados à observação do fluxo informacional e da construção argumentativa, formaram um panorama que permitiu analisar não somente a estrutura da aposição encapsuladora, com a identificação das construções específicas, mas também a funcionalidade dessa construção apositiva - muito pouco estudada apesar de conter informações importantes sobre a condução argumentativa; por extensão, permitiu lançar luz sobre o modo como a aposição encapsuladora contribui para a construção dos sentidos do texto e como suas funções se efetivam com base no aporte da Gramática Discursivo- Funcional (GDF), avançando da formalização, nos níveis NI, NR e NM, até sua funcionalidade.
A partir do tratamento estatístico dos dados, em termos de frequência, fizemos a apresentação em tabelas e, então, passamos ao tratamento qualitativo deles sob o escopo da Gramática Discursivo-Funcional (GDF). Em suma, o fenômeno da aposição foi retomado para tratar especificamente da aposição encapsuladora por considerarmos que essa estrutura contribui de maneira peculiar para a construção dos textos.