Possivelmente, o Sol, junto com toda a “família cósmica”, encontra-se entre os elementos mais antigos cultuados. Num mundo sem eletricidade ou as descobertas fundamentais, que promoveram uma vida com mais segurança ou comodidade, sofrendo os efeitos impactantes da escuridão absoluta ao chegar a noite, sua presença era certamente cercada de grande paz e alívio, e o astro solar, a cada manhã, removia os temores noturnos, que percorriam as emoções das pessoas nos primórdios pré-civilizatórios. Recordam Borg e Crossan que,
“a luz é um símbolo arquetípico. O arquétipo, como sugere a raiz da palavra é uma imagem, um „tipo” impresso na consciência humana desde os tempos imemoriais, desde “os primórdios‟. Conhecido em todas as culturas, o arquétipo da luz, com seu oposto de escuridão, é central em tradições religiosas do mundo inteiro. É também, como veremos fundamental na Bíblia judaica, no Novo Testamento e na teologia da Roma Imperial”. (BORG e CROSSAN, 2008, p. 205).
Jung fala sobre o termo arquétipo:
“o conceito de arquétipo deriva da observação reiterada de que os mitos e os contos da literatura universal encerram temas bem definidos que reaparecem sempre e por toda parte. Encontramos estes mesmos temas nas fantasias, nos sonhos, nas ideias delirantes e ilusões dos indivíduos que vivem atualmente. À estas imagens e correspondências típicas, denomino representações arquetípicas”. (JUNG, 2012, p. 486).
As culturas agrárias, por exemplo, dependiam totalmente do sol; a sua chegada ao horizonte, marcada por luz e calor, irrompia e afastava as trevas noturnas de uma forma, que, os temores e inseguranças mais imediatos eram quase prontamente dissipados, alternando a segurança ligada ao aspecto mais imediato da subsistência, até os modelos psicológicos da iluminação, promovendo esta a segurança, numa época que parte considerável do dia, mergulhava na mais absoluta escuridão, evocando medos reais e imaginários. Afirma Harpur, “que a religião antiga baseava-se nos aspectos solares e lunares (...) o que é fundamental recordar que, quando exaltavam o esplendor do sol, eles o viam como algo simbólico (...) o deus sol era a incorporação, ou o modelo, do que cada um de nós, por meio da evolução espiritual, deveria tornar-se finalmente”. (HARPUR, 2008, p. 36). Pode-se recordar de igual modo, que um dos medos mais constantes dos antigos grupos humanos, era a possibilidade do sol não surgir no horizonte, a partir do ocaso. Seria „a morte do Sol‟, um tema quase universal dentro da mitologia. Escreve Campbell:
“Os medos e fascínios noturnos são dissipados pela luz, que sempre foi sentida como vinda de cima, provendo direção e orientação. As trevas, por sua vez, o peso, a força da gravidade e o interior escuro da terra, da selva ou do mar profundo, assim como certos medos e prazeres extremamente intensos, durante milênios, devem ter constituído uma vigorosa síndrome da experiência humana, em contraste com o vôo luminoso da esfera solar que desperta o mundo para e através de imensuráveis alturas”. (CAMPBELL, 1992, p. 59).
A divinização solar, por conseguinte, encontrava-se entre as culturas antigas, sendo seu culto quase onipresente, ressaltando-se apenas diferenças geográficas, históricas e sociais, que cada povo entendia ser o astro nos contos mitológicos; não raro, muitas dos contos dos heróis salvadores, estavam relacionados à luz ou aos deuses solares, direta ou indiretamente, não como a luz de um sol físico, mas a das revelações, da interiorização e de caráter fundamental, para a elevação da condição humana, com consequências para a vida futura, em seu percurso terrestre – as heróicas ações fariam parte de um contraste; elevação ou condenação das atitudes dos personagens míticos, servindo de alimento para o imaginário das culturas e modelo de conduta.
Dentro da composição do Universo, e presente em suas relações com outros mitos, ou elementos cosmogônicos, há os aspectos opostos e importantes envolvidos com as divindades solares gregas: se recorda o momento da escuridão e do frio, encontrados no inverno, onde a natureza se „recolhe‟, e as noites acabam se tornando mais longas – tais condições, normalmente eram associados aos cultos dos deuses lunares e subterrâneos. Estes cultos, relacionados às divindades femininas (Selene, Ártêmis, Diana, Perséfone), eram em
contextos patriarcais, normalmente carregados de medo e tensão, apesar de que, como é constante no mito, os contos e as crenças experimentarem uma multiplicidade de versões.
De igual modo, talvez, não seja possível deixar à margem nesta análise, a recordação que durante boa parte do desenrolar das culturas humanas, que se desenvolveram pelos milhares de anos, inclusive as mais remotas e pré-históricas, o mundo sofreu um fenômeno que o homem contemporâneo desconhece a experiência: as glaciações. Talvez, as estas não possam ser associadas especificamente, ao período da comemoração do Solstício de
Inverno, mas pode-se imaginar, que seria um forte elemento constitutivo de culto, para que de
fato, o sol, tenha sido adorado, como uma espécie de registro psicológico grupal e elemento de salvação coletiva, evidenciando sua importância como elemento de calor e luz, num mundo cercado de gelo e temperaturas em grande parte mortais.
As glaciações, que provocaram a extinção de espécies inteiras de animais, situaram-se nas regiões do hemisfério norte, onde exatamente os cultos solares citados, tiveram uma grande força e relevância; o mundo glacial era completamente diferente, e como afirmam os pesquisadores, quase tudo era envolto em solidão, frio e gelo, forçando homens e animais a migrarem para regiões mais quentes, a fim de conseguirem sobreviver.
Desta forma, pode-se imaginar, que com a presença constante de um ambiente inóspito, provocado pela chegada de um período de frio que possivelmente, parecia interminável, todos os elementos ligados ao calor e a luz, conseguiriam representar, além da óbvia condição que possuíam, uma presença a ser comemorada. Brissaud compõe mais ainda, o quadro de um mundo inóspito:
“a medida que se opera a glaciação, os invernos são cada vez mais rudes, o frio se intensifica, a floresta recua (...) no Worm II, o frio volta mais rigoroso do que nunca. As florestas dão lugar às estepes percorridas por manadas de mamutes com longos pelos e de rinocerontes lanudos, por bandos de cavalos e de renas, vindos das regiões boreais, agora cobertas por espessas camadas de gelo. Os homens de Neanderthal, para vencer este clima rude, frio e seco, metem-se em cavernas. Ali, se aquecem, agrupados em redor do fogo, enquanto os elementos se desencadeiam no lado de fora. São obrigados a disputar sua morada com as grandes feras carnívoras que são o urso das cavernas, o leão das cavernas e a hiena das cavernas”. (BRISSAUD, 1978, p. 62).
Mediante a importância que os cultos solares demonstram, se pode imaginar que a comemoração a presença do Sol, um pouco mais no horizonte em pleno inverno, sustente-se mais além que tradicionalmente é imaginado. No entanto, a festa do Solstício de Inverno, de fato, reside naquele momento anual específico de uma retirada mais tardia do astro, em seu
declínio no céu, até porque o inverno não se situa em poucos dias, como acontece neste período, que se inclui o culto milenar do Sol.