Os modos de apresentação das Esferas Identitárias trazem à tona posições assumidas pelos Sujeitos, que não se apresentam como único, tudo está ligado à autogestão relacional, os sujeitos sociais são moldados pelas práticas discursivas, mas, também, são capazes de remodelar e reestruturar essas práticas (FAIRCLOUGH, 2001). Nesse sentido, o indivíduo busca meios para trabalhar suas tensões existenciais: ora acomodando-se, ora distanciando-se.
(52) Eu tô sempre buscando tenho que me adaptar, por exemplo, aos
projetos do Estado...tem que ser daquela forma com o plano todo pronto e aí a gente tem que tá preparado/ então assim //graças a Deus eu me adequei // mas assim //é um se adequar que você tem que acelerar tudo...(4PSIM).
(53) A gente tá sendo cobrado por aquilo que não aprendemos, acho que
é isso é uma dor que todos nós estamos sentindo, não só os professores que são avaliados, mas todos que estão no contexto (13PSAc).
O indivíduo sente-se capaz de se adaptar: “tô sempre buscando tenho que
me adaptar [...] aí a gente tem que tá preparado então assim graças a Deus eu me adequei” (52). Nesse processo de adaptação, o Sujeito se vale da acomodação, um recurso de justificativa não só para os outros como também para si.
A configuração do contexto é uma consciência do docente “[...] não só os professores que são avaliados, mas todos que estão no contexto” (53). O Sujeito sabe da necessidade de mudança nas práticas pedagógicas nesse novo contexto de educação globalizada.
São esses aspectos modulares da globalização que também contribuem para o processo organizacional do sistema educacional de um país, uma vez que a conjuntura globalizada é fortemente marcada pela economia baseada no conhecimento, em que os índices de desenvolvimento são mensurados pela educação de um povo.
No entanto, o Sujeito questiona a sua formação e a relação existente entre
teoria e prática: “A gente tá sendo cobrado por aquilo que não aprendemos” (53). O
processo comportamental “aprendemos” é negativado e entra em choque com a relação estabelecida pela conjuntura de exigências para uma gestão de resultados “gente tá sendo cobrado” (53). A apresentação sobre o distanciamento entre a formação e as ações exigidas pelo modelo globalista, é, de certa forma, uma tomada de consciência gradativa, uma espécie de autonomia entre o indivíduo e o que lhe é instituído socialmente.
(54) A gente busca as nossas ferramentas//enquanto eu quero outras não
querem... tem pessoas que nos rodeiam que não acreditam na mudança a gente tem que tá se vigiando pra não cair no conformismo// mas também tem que tomar cuidado pra gente não se cobrar muito a gente acaba adoecendo. (4PSIM)
(55) Eu precisei ler mais, buscar mais ...essa proposta me levou a
entender mais o que era importante, você entender o que é habilidade, o que é competência, que eu não entendia muito eu não diferenciava... eu precisei me preparar e ler muito...todo material que eu vejo de Prova Brasil, das ideias das competências e das sugestões eu vou lendo , lendo, lendo... e assim eu me tornei uma pessoa que comecei elaborar questões... a Prova Brasil me ensinou enquanto profissional... (1PSIAc)
(56) Como professora eu vejo pontos positivos, me leva a estudar mais a
averiguar essas questões, eu enquanto professora me ajuda demais, eu vejo como um desafio. (1PSIAc)
Nessas circunstâncias, o indivíduo busca gerenciar a conciliação de dois extremos: seus projetos e o que ele acha que os outros esperam dele, Bajoit (2006) chama de Sujeito Estrategista. Este é, por natureza, proativo. No trabalho da busca
da conciliação, ele monta estratégias de adequação entre o que ele desejaria e o
que os outros esperam dele. Em (55), as ações de busca, independente de “ler”,
“buscar conhecimento” são dinâmicas de condutas entre o que se deseja ser como docente preparado e o que ele acha que os outros esperam dele, a fim de entender as dinâmicas e concepções inovadoras para o ensino.
Podemos abrir aqui um espaço para articular essas necessidades de novas leituras, ao domínio sobre as questões oriundas das competências e habilidades requeridas pelos descritores na Prova Brasil, uma vez que como orientadores de condutas avaliativas dentro do processo ensino aprendizagem de Língua Portuguesa na Educação Básica, os descritores representam um discurso que carrega não só a voz da política de Educação do país, mas, também, o norteamento científico veiculado na academia acerca do ensino de Língua Materna.
Embora do desafio do novo seja aparente, o Sujeito Estrategista vê o desafio como fator de pulsão dos seus desejos, o que recai no “averiguar”, ação estratégica da conciliação (56).
Em (54), a ação de “buscar ferramentas” aparece no polo da expectativa do outro e os desejos conciliados do Sujeito estrategista são evidenciados da vigilância e da cobrança menos radical, afinal, bem-estar também é desejo. Percebemos que as estratégias são materializadas pelos processos materiais e comportamentais, que, respectivamente, “constituem ações de mudanças externas, físicas e constroem comportamentos humanos, são em parte ação, em parte sentir” (CUNHA e SOUZA, 2011, p. 71-75). Trata-se do fazendo, agindo, comportando-se: buscar (54), ler, elaborar (55), averiguar, estudar (56) são processos da ação, materiais, apontando o agir do Sujeito Estrategista, motivados pelos sentidos, materializados pelos processos mentais “construção de seus comportamentos “se vigiando” (56), “quero” (54), “entendia” (55), “vejo” (56). Os Sujeitos passam por processos de escolhas entre as práticas sociais que mais coadunam com as suas vivências, o que acarreta uma gestão relacional que o Sujeito faz dele mesmo (BAJOIT, 2006).
Sujeitos Estrategistas apresentam-se como Sujeitos que sofrem menos as tensões existenciais na constituição de identidades, embora apareçam, também, fragmentados, soltos, fluidos, como em (54): “a gente tem tá se vigiando para não cair no conformismo...// mas também tem que tomar cuidado”. São resultantes de questionamentos e movimento de reflexividade, contexto também comum à modernidade tardia, como pontua Giddens (2002, p. 74), “a reflexividade do eu é
contínua, e tudo penetra. A cada momento, ou, pelo menos, a intervalos regulares, o
indivíduo é instado a auto interrogar-se em termos do que está acontecendo”.
Muitos dos Sujeitos Estrategistas agem como adaptadores, dentro de uma gestão na Esfera Identitária Atribuída. Na tentativa de conciliar rebeldia e conformismo, segundo Bajoit (2006), o Sujeito Adaptador reinterpreta as injunções institucionais para compatibilizá-las com as suas:
(57) Eu me preocupo com a questão da Leitura e Escrita a gente busca
fazer o possível... (5PSIM)
(58) O que é que a gente faz: pesquisa, procura entender a filosofia desse
processo pra poder entender e ver se o nosso aluno sofre menos porque
essa mudança chega sem que ele saiba também... (9PSFM)
(59) Montei o meu planejamento esse ano baseada nas competências e
habilidades que essas avaliações traziam e tive muita dificuldade quando fui aplicar a sondagem na sala de aula porque percebi que as competências e habilidades dos alunos deveriam ter nos 5 e 6 e 7 anos e tive que replanejar tudo... (10PSFM)
(60) A gente se adapta ao que eles querem...eu sigo a linha deles e
acrescento a minha, eu vejo também o que acho que é bom pra eles, eu foco mas eu não fico ali eu faço também do meu jeito... (5PSIM)
Os docentes procuram nas suas práticas sociais um ponto de equilíbrio entre se conformar com as novas metodologias que, às vezes, não lhes são aplicáveis e se rebelarem contra elas. O Sujeito adaptador é, também, uma forma de gerenciamento estratégico “A gente se adapta ao que eles querem... eu sigo a linha
deles e acrescento a minha” (60). Para eles, a rebeldia cede lugar a uma tentativa
de conciliação com as conformidades. Os Sujeitos Adaptadores aqui apresentados são os que se adéquam às conformidades, mas, ao mesmo, tem a consciência dos entraves e dos sucessos da inovação para o ensino nos moldes da gestão de resultados.
A busca para adaptação: “a gente busca fazer o possível” (57); a tentativa da mudança: “a gente se adapta ao que eles querem” (60); a procura do entendimento “pesquisa, procura entender a filosofia desse processo” (58); o replanejamento: “tive
que replanejar tudo” (59), são agências sociais que traduzem essa adaptação pelo
elo entre o que se espera dele e o que ele acredita ser benéfico. São formas de adaptação, não há uma negação ao novo, mas uma cautela para a mudança social.
O contexto de conciliação nos discursos desses docentes foi materializado, linguisticamente, pelos processos materiais - adaptar, buscar, montar, planejar, replanejar, fazer. Evidenciadas pelo processo mental - entender - (58), são apresentadas as fronteiras entre o ser, o perceber e o fazer.
Nota-se que os processos materiais escolhidos pelos docentes representam a criatividade e alteração, não uma intervenção direta do agindo para característica de Sujeitos mais inovadores e da proatividade estrategista, essa é a justificativa para separação tênue entre Sujeitos Estrategistas e Sujeitos Inovadores. Como inovadores, segundo Bajoit (2006), os Sujeitos são mais adaptáveis e procuram a consonância existencial.