A Sociologia da Leitura é a área do saber que estuda as práticas culturais e usos da leitura realizáveis a partir da mediação da Escola ou do Estado. Até porque:
a leitura é uma prática de linguagem e, enquanto tal, é um lugar de reflexão e de confronto do sujeito consigo mesmo, com os outros e com o mundo. É na e pela linguagem que o sujeito se representa a si mesmo e os outros e essa representação é balizada por um conjunto de concepções, referências e aspirações de ordem social, ética, estética, etc. Experiência sempre renovada, o acto de ler é uma constante interrogação dessas balizas; o leitor é confrontado com universos de ficção onde se representam valores, padrões sociais, modos diversos de pensar e agir, que podem aproximar-se ou distanciar-se dos seus. […] a leitura tem um papel fundamental na construção da personalidade; pelo conhecimento que possibilita, através do imaginário, de outros modos de ser e de estar […a leitura aparece como uma importante via de socialização. (Herdeiro:1980:42)
Coelho (1980:29) defende que, do ponto de vista sociológico, existem vários modos de ler; no entanto, citando Tzetan Todorov, refere que os leitores realizam operações idênticas para construírem o universo imaginário que o texto lhes propõe. Nesse sentido, dois relatos de leitura nunca são idênticos por conterem o espírito do leitor e não apenas o que é proposto pelo texto. O autor (idem:29) afirma que “as frases de natureza referencial permitem a construção”, diversamente das falas ou asserções dos personagens. Para o autor os testemunhos de um personagem merecem reservas. Caberá “[…] ao leitor distinguir entre o acontecimento e a visão que lhe é dada em cada
momento”. Coelho (idem:30) defende ainda que, nos textos, a significação é
compreendida enquanto a simbolização é interpretada, de onde, na sua ótica, emergem diferentes significados.
Com base em pesquisas de diferentes autores, Sousa (2007:49-50) afirma que ao ensinar a ler, algumas das seguintes estratégias deverão ser consideradas: a síntese do que se leu, a ativação do conhecimento prévio sobre o assunto lido, seleção de informação para se trabalhar, orientação para a compreensão do texto, estabelecimento de ligações
80 significativas entre textos. Para esta autora (idem:54), ler significa uma reconstrução de sentidos a partir da perspectiva do leitor, que deve ter um papel ativo na interpretação de um texto, porque a significação só ganha significados a partir da reconstrução do leitor em função das suas vivências ou quadros de referências.
A autora (idem:55) refere que, ao ler, os alunos: “aprendem […] através das vivências das personagens, a apreciar outras formas de ver e sentir, outras culturas, outras sociedades, despertam para as conceções da vida, da morte, do bem, do mal, da justiça […]”.
De entre vários tipos de fichas de leitura, a autora sugere a seguinte:
Tabela 4 – Exemplo de Ficha de Leitura
Nome:______________________________________ Livro: ______________________________ ________________________________________________________________________________ Páginas a ler: de _____________ a _____________ Data: / /
A tua tarefa é procurar alguma informação acerca do livro. Podes investigar o autor (vida, obra), o lugar (país ou região), sobre a época onde se situa a acção, ou podes investigar sobre a música do mesmo período, ou sobre objectos, etc. Este não é um projecto de investigação. Trata-se de encontrar informação que ajude a entender melhor o livro.
O que investiguei 1. ________________________ 2. ________________________ 3. ________________________ O que descobri 1. ________________________ 2. ________________________ 3. ________________________ Fonte: Sousa, Otília. (2007:61).
Na nossa ótica, será com base no que o aluno descobre após o acto de leitura que, com ajuda do professor, poderá interpretar a obra literária, integrando, entre os diferentes sentidos, o histórico e o antropológico.
Horellou-Lafarge e Segré (2010:89) lembram que a leitura de obras literárias é legitimada pelo sistema escolar. Na ótica das autoras, este sistema, durante o séc.XX, foi estabelecendo um modo de leitura culto para os alunos do último ano do Ensino Secundário. Essa leitura baseia-se na linguística e na semiótica – centrando-se na forma do texto e na interpretação. Para as autoras, as actividades de leitura também dependem do meio em que a Escola e os professores se encontram inseridos, bem como o meio social e a origem dos alunos.
81 Num estudo sobre Educação Cultural e Literatura Infantil, realizado por Morgado e Pires (2010:92), os textos escolhidos para leitura em contexto escolar têm em vista deixar algum legado político ou cultural a fim de regularem o comportamento ou o conhecimento. As autoras afirmam que “ao ler sobre realidades ficcionais interiorizam-se práticas sociais ´naturalizadas´ como óbvias ao nível dos papéis” dos personagens. Distinguem níveis de aprendizagem da leitura literária e do saber da cultura real, mas afirmam que a leitura literária contribui para o enriquecimento da compreensão de si e do outro a partir das representações constantes dos textos.
Nesse trabalho, as autoras referem-se ainda à importância em se desenvolver uma pedagogia centrada na literatura multicultural, devendo escolher, para o ensino, um conjunto de obras que permitam ensinar-se tanto a cultura da maioria, como a das minorias. Defendem também a necessidade de se instituir práticas pedagógicas que contenham os modos de ler esse conjunto de textos, uma vez que não é apenas por conterem diferentes representações culturais que poderão promover a interculturalidade; é importante que a escolha de textos seja aliada a práticas pedagógicas. Além disso, indicam modelos para a leitura crítica e práticas de leitura direcionadas.
Inspiradas nos modelos de Leite e Rodrigues (2009) e Botelho e Rudman (2009) Morgado e Pires (2010:107), apresentam a seguinte proposta:
Figura 1– Práticas de leitura para promover a Educação Intercultural
Fonte: Morgado, Margarida e Pires, Maria da Natividade (2010:107).
Em síntese, a leitura, orientada ou não, pressupõe uma construção de sentidos com base no objeto lido. Este, por sua vez, tem um impacto sobre o leitor, dependendo de vários fatores: o seu conhecimento ou leituras anteriores, o seu grau de escolarização, a
82 sua condição social, as tradições ou modelos de interpretação do que lê, entre outros. O objeto literário em si, depois de lido, tem efeitos sobre o leitor. É daí que aceitamos a possibilidade de se poder formar uma consciência cultural nos leitores a partir de um cânone literário multicultural, porque a Sociologia da Leitura, nomeadamente, fornece estratégias para o fazer.