Nota: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional. Fonte: RIBEIRO, 1880, p.15.
A proposta de atividade consiste em observar o mapa e responder as questões referentes à segunda lição, conforme descrito a seguir, proposta por Ribeiro (1880):
SEGUNDA LIÇÃO
Sistema orográfico da Província Que representa este mapa?
A orografia e hidrografia da província. Qual é o seu sistema orográfico?
É a cordilheira Oriental ou Serra do Mar, mais conhecida na província por
Serra
Geral ou Coxilha Grande.
Qual é a direção da Serra Geral?
Corre paralelamente à costa do mar e entra pelo norte da província entre as cabeceiras do rio Pelotas com as do Mampiluba até ao paralelo de 29° 30' mais ou menos, em que deixa sua primeira direção quase NE. e SO.; prolonga-se para O., inclina-se em certos pontos para NÓ. e vai abater-se nas proximidades do Uruguai, lançando suas águas setentrionais para este rio o Pelotas.
Do município da Cruz Alta dirige-se para o sul a grande serra denominada
Albardão ou Coxilha Grande, que em seu desenvolvimento pelo interior da
província toma diferentes denominações locais, indo abater-se na margem septentrional do Rio da Prata, depois de ter dividido as águas do Uruguai das do Rio Grande. (p. 16).
Como se vê, há uma intenção pedagógica de Ribeiro (1880) em utilizar as informações do mapa para responder as questões da lição. Um recurso que diferia de outros manuais, tendo em vista a sua preocupação em que os alunos não decorassem simplesmente a lição.
Além do cuidado com as definições preliminares da Geografia, dos termos geográficos e com os métodos de ensino, havia, por parte dos autores, um debate sobre a concepção do papel da Geografia que deveria ser ensinada. O que significava que eles buscavam os pré- requisitos necessários à matéria que deveria ser ensinada. Nesse sentido, José Saturnino da Costa Pereira, em 1836, argumentava sobre a necessidade dos conhecimentos da Astronomia e dos ramos da Matemática. Conhecimentos esses que permitiam aos alunos realizarem operações simples de cálculo de distâncias, marcação de pontos de latitude e longitude e escala cartográfica.
Na apresentação do seu livro, Lições de geographia particular do Brazil, Luiza Candida de Oliveira Lopes (1877) deixou evidente o interesse pelo o ensino de Geografia nas escolas primárias. Essa mesma inquietação fora compartilhada por Pereira(1876), que
escreveu para os alunos do ensino primário. A autora manifesta o desejo de escrever o compêndio que, segunda ela, fosse “apropriado” às crianças.
Quando me dispus a preparar a presente obrinha, não tive em vista granjear um nome na literatura de meu país.
Apenas o desejo de prestar um serviço à mocidade brasileira me levou a tal empresa.
Notei sempre como falta sensível nas escolas primarias o não haver um compendio de Geografia do Brasil apropriado á inteligência das crianças. Que nas escolas de instrução primaria não se obriguem os alunos a estudar a Geografia universal, é razoável, mesmo porque seria exigir muito de tão pouco; mas que os meninos não tenham ao menos um ligeiro conhecimento da Geografia particular do país é falta que devia de há muito ter sido remediada.
Se esta primeira edição não satisfizer completamente o meu intento, é possível que em segunda o meu livrinho melhor se acomode ao fim a que se propõe.
É o meu primeiro ensaio sobre obras didáticas; e, se o auxilio do governo não me faltar, como espero, essa animação será um poderoso estimulo para o progresso desta minha empresa.
Aos meus ilustrados colegas peço, desde já, desculpa pelas lacunas que encontrarem nesta obrinha; e conto ser d’elas absolvida, atenta a fraqueza de meu sexo e apoucados conhecimentos e inteligência de que disponho. Os defeitos que entrarem, rogo-lhes me comunique para ciência minha e utilidade da obra.
Os conselhos de Instrução da Província do Rio e da Côrte para cujas escolas, especialmente preparei este livrinho, dar-lhe-hão o valor que merecer. A autora. (s/p).
No entanto, existiam autores que escreviam somente para suprir uma falta do livro dedicado à educação primária, como declarou Eudoro Berlink (1868), que havia escrito o
Compêndio de Geographia da Provincia do Rio Grande do Sul, somente para suprir uma
lacuna.
Essas informações reforçam que o ensino dedicado às crianças era prioritariamente de Geografia elementar do Brasil e das províncias.
No prólogo da primeira edição de Geographia elementar especialmente do Brasil, em 1876, Jeronimo Sodré Pereira, sobre o objetivo que guiava seu trabalho, afirmou que daria uma cor nacional ao que chamou de “nosso paiz”. Destacando a importância do ensino de Geografia sobre o Brasil.
3.3 O uso dos manuais
Há indícios de que a demanda dos manuais de Geografia destinados fundamentalmente ao ensino de Geografia esteve além dos interesses do público escolar.
No caso das notas de rodapé, que formam uma parte importante nas duas obras de Pompeo (1864) e de Lacerda (1880), os autores esclarecem que têm como objetivo aclarar algumas dificuldades do texto. Nelas, contêm notícias preciosas que não podem ser excluídas, pois, sem elas, não seria possível aos alunos aprenderem. Lacerda, particularmente, inclui também uma explicação sobre o uso dos tipos que ele utiliza. O tipo maior para as coisas necessárias, indispensáveis, e que o estudante de Geografia deveria saber. O uso do menor para as coisas que considera menos importantes aos escolares, mas que são dirigidas aos estudiosos que desejam adquirir um conhecimento mais perfeito da Geografia e das ciências auxiliares. Essa opção é também pedagógica na medida em que o tipo definia ou qualificava o seu uso. O que importa, entretanto, é reconhecer que havia uma intencionalidade em atingir um público para além da escola. Não é possível afirmar que existiam estudiosos que desejassem se aprofundar nos conhecimentos geográficos, porém existe a possibilidade de que alguns manuais escolares fossem acessados por indivíduos letrados interessados em Geografia, seja universal ou do império.
A organização e a seleção dos conteúdos foi outro componente considerado na análise. Os conteúdos dos manuais didáticos como definidos e definidores da Geografia escolar. Foram possíveis de identificar nas atividades escolares dos alunos, no uso dos manuais didáticos. No trecho a seguir, tem-se a demonstração de uma aluna que compara entre dois autores a definição das bacias hidrográficas na Província de Minas Gerais.
Os Rios da Província de Minas
Segundo Pompêo acha-se o sistema hidrográfico de Minas dividido em três bacias a do norte que lança suas águas para o rio de São Francisco, a do Sul para o rio Grande ou Paraná e a leste para os rios Doce, Mucuri, São Mateus, Jequitinhonha e Paraíba. Segundo Gerber está o sistema dividido em 9 bacias, sendo as nove referidas e mais o rio Pardo e o de Itabapoana.
Chistina A. de Queiroga
Ouro Preto 6 de dezembro de 1876.(APM, 1876).
As referências da aluna a “Pompêo”112
e Gerber113 indicam não somente a utilização
112
Thomaz Pompêo De Sousa Brasil. 113
GERBER, Henrique. Noções geográficas e administrativas da Província de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Typographia de Georges Leuzinger, 1863. Este livro foi classificado como escolar pelo seu e não o por
do manual didático na escola como também esses autores revelaram uma metodologia de aprendizagem, nesse caso, a comparação. Essa preocupação em identificar entre uma concepção e outra indicou que a Geografia no século XIX não pode ser interpretada como uma mera descrição e reprodução dos conteúdos sugeridos pelos livros e pelos programas oficiais. O tema “Rios da Província de Minas” demonstra, também, que a Geografia não se dedicava exclusivamente ao estudo por meio dos manuais de Geografia geral dos manuais estrangeiros ou os traduzidos em língua portuguesa.
Nos manuais, encontram-se presentes as finalidades da Geografia escolar na segunda metade do século XIX. Essas propostas foram realizadas por aqueles que, além de escritores foram professores, legisladores e editores. As obras, por conseguinte, são impregnadas de ideais de civilidade e modernidade. Podem ser consideradas como uma primeira iniciativa de produção nacional de manuais de Geografia, não só pelo anúncio feito pelos autores na introdução de cada uma delas, mas também por serem as únicas referências encontradas sobre o estudo de Geografia escolar. Assim, contrariando a antiga tese de que os manuais didáticos eram traduções do Baccalaureat114. Isso também pode ser comprovado em análise das provas e exames dos alunos e licenciamento dos professores durante o Império. Esses exames indicam quase, em sua totalidade, os conhecimentos específicos sobre o território brasileiro e vale ressaltar que nem todas as informações constavam nos clássicos manuais de Geografia universal.
Esses conteúdos serão tratados no capítulo seguinte, a partir das fontes documentais produzidas pelas instituições de ensino da Província de Minas Gerais do Século XIX. Uma análise para compreensão da Geografia escolar nas escolas mineiras e o seu papel na construção da Geografia brasileira.
concepção.
114
O Baccalaureat foi criado na França em 1807, é uma qualificação que a aluno recebe no fim dos estudos do ensino secundário e um critério de acesso ao Ensino Superior. Ele é composto por um programa de estudo das disciplinas que se constitui em roteiro para que os estudantes realizem os exames anuais.