só de comercio... cada dia a gene sentava em um lugar e falava..” (JP). A rotina das aulas era
empírica-ensaística; se defi nia em grupo temas para saídas fotográfi cas conjuntas para realizar percursos territoriais pelo Morro do Papagaio.
“Esperamos eles pegarem a câmera para ver o que que dá” (JQ) Jorge demonstrava os
fundamentos das técnicas fotográfi cas como operação da máquina, regras de composição e mostrava imagens de fotógrafos como referência para os jovens. Após os ensaios realizados, abriam-se rodas de conversa para ver as imagens produzidas e em grupo conversar sobre seus elementos, sobre as difi culdades encontradas na prática e conhecimentos ligados a fotografi a.
“Além de tudo tinha o processo, a gente dividia as câmeras para todo mundo, tinha aquela coisa do grupo... se organizem ai... metade das fotos (de ! lme) para um, metade para outro... e ainda tinha espera da revelação das fotos, a re" exão, da produção de imagem... ele tinha de esperar, ele tinha de anotar também o que estava sendo feito para depois revelar as fotos e discutir, o que estava legal, o que estava errado...” (JQ) O procedimento de anotar o que se
fotografava gradualmente se converteu em uma metodologia que estimulou a produção de fotografi as autoconscientes, que em geral resultam em fotos mais esteticamente organizadas, o que contribui com as constantes exibições coletivas da produção do grupo e a discussão sobre os resultados.
“Os professores falavam e a gente tinha de anotar um monte de coisa lá, mas foi bom, a gente melhorou.” (JP)
Retornos
Para os envolvidos, alguns retornos podem ser pensados.
“O Jorge ajuda bastante.” (JC) O primeiro deles, percebido nas entrevistas, é
o apadrinhamento fotógrafos por Jorge. As relações extrapolam os limites das aulas de fotografi a ganhando contornos de relações afetivas concretas entre os envolvidos. Jorge, aos poucos, se torna uma fi gura semelhante a um irmão mais velho dos alunos, ajudando-os em coisas pessoais também.
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em consequência da capacidade de se expressar a partir das imagens fotográfi cas. Dentro da comunidade do Morro do Papagaio existe uma sensação de pertencimento por parte dos jovens, que através de suas fotos se relacionam com as pessoas e delas tem reconhecimento. “Mudou o jeito das pessoas comigo... já me conhecem (devido às entrevistas na TV)... e o meu jeito moral de ser... eu sou muito tímido... a fotogra• a me da uma ajuda... pois passo fotografando...” (JC)
Para mim foi uma oportunidade... se não fosse fotogra• a, não saia nestes lugares... ajuda uma pro• ssão, futura... já foi fotógrafo quando era pequeno...” (JC) A visibilidade midiática das ações do projeto geram um efeito nas expectativas dos jovens: a noção de um futuro foto-messiânico. É dizer, ao se constituírem como fotógrafos de sucesso, premiados em jornais e participantes de exposições, é criada uma forte expectativa que a fotografi a se torne uma profi ssão e que desta forma possam ter sua sobrevivência garantida. “Eu posso vender elas... tirar fotos de animais para revistas de biólogos...” (JP)
A própria autoimagem dos moradores do morro, de maneira geral, é tratada de maneira renovada devido às exposições nos espaços da comunidade. Lugares que eram despercebidos pelos seus moradores ganham visibilidade e o morro (re)conhece o morro. Se por um lado os próprios moradores do Morro do Papagaio se surpreendem com as imagens esteticamente competentes, por outro aqueles que não pertencem a comunidade se vêm surpresos com o que veem. A visibilidade do asfalto' para com o morro é qualifi cada.
Outra perspectiva de retorno é o grupo se tornar defi nitivamente autônomo, independente da fi gura de Jorge Quintão. Essa perspectiva, desenhada pelo idealizador, busca completar o ciclo do empoderamento do sujeito através da total autonomia do grupo quanto como se organizar para continuar fotografando. “Tenho vontade em transformar o grupo em um coletivo que se auto administra-se... como fazer isto acontecer? Dai vem outra questão que insisto que é o letramento visual, pegar o menino com 6/7 anos pegar na mão e levar, bastante na coisa da arte “ (JQ)
Esse desejo, no entanto, também parte da iniciativa dele e ainda não é espontâneo no grupo.
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Relações
O discurso dos participantes coincide em um ponto sobre o tipo de imagem que é valorizada no projeto: imagens com alto grau de refi namento estético que relacionem de forma crítica com a realidade. Problematizar as imagens segundo sua capacidade de suscitar ilusões quanto à realidade é parte muito importante das relações que são estabelecidas no projeto. “De outros fotógrafos também... por exemplo, as fotos que outro fotógrafo fez de uma prisão... não lembro quem fez... acho que foi o Mario Cravo Neto, as fotos são lindíssimas, muito coloridas, mas de uma prisão... e os meninos • caram impressionados... como uma coisa tão horrível desta pode ser tão bonita... então estas dualidades ai, a gente colocava para re• exão... para re• etir... e ai? Será que era possível, esta coisa do horror, da estética da composição, este poder da imagem, questões assim... ao passo também que o projeto não tem esta coisa de trabalhar de mais esta coisa da superação, da discussão social... isto não está explicito na discussão destas coisas... diferentes de outros projetos...” (JQ)
Existe nos argumentos sobre a imagem o desejo de se conhecer os elementos articulatórios que estabeleceriam discursos através das imagens.
Projeto (poético), político, pedagógico
Câmera na mão, uma ideia para se colocar na cabeça. Parafraseando o cineasta Glauber Rocha, no projeto se vê um constante estímulo à produção fotográfi ca ensaística que deva tratar, necessariamente, de temas ligados as questões sociais vivenciadas pelos jovens fotógrafos e suas comunidades.
Apesar dessa orientação, o ímpeto lúdico criativo das descobertas da expressão fotográfi ca era estimulado na prática das aulas. Muitas falas sobre as experiências fotográfi cas entram na seara no fazer expressivo inventivo a partir dos controles do equipamento e da experiência de olhar.
O estímulo da liberdade de expressão através das imagens implica em uma proposta pedagógica na qual o jovem tem seu posicionamento enquanto sujeito garantido.
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Vizinhanças
As intersecções com a visão de educação do outro, a partir do que se estabelece pela lógica de operação do PEI, impacta a forma que as ofi cinas de fotografi a se organizaram. “Eu vejo o seguinte... a escola integrada norteou. Ela tem regras. Ela estrutura. E dentro da comunidade dá uma credibilidade. Para conseguir o que você quer. A coisa funciona assim... “ah, eu quero fazer fotos de 2 metros de altura, ... ah, escreve ai, orça quanto custa que vamos analisar” então quer dizer, a partir desta maneira de devolver sempre, a escola integrada ali tem esta coisa de devolver o que é produzido para a comunidade , isto é muito claro dentro da lógica das aulas...” (JQ)
Ao amparar o projeto do Olhar Coletivo, o PEI, na fi gura da professora comunitária, também impactou a organização da proposta, talvez sendo um dos motivadores principais da necessidade de visibilidade do projeto. “Ele e Aline ! zeram este caminhar... eu sei o seguinte, quero ver o resultado no ! nal, tudo que vocês precisarem irão ter... eu sou pedagoga...” (AP) O próprio programa em suas instâncias de coordenação infl uenciaram a maneira dos jovens se perceberem na ofi cina. “algumas pessoas de fora que incentiva a gente... tem gravação... pessoal do escola integrada... tipo patrocinadora do escola integrada... não vem muito, mas quando vem, incentiva a gente...” (JC)
A escola, no entanto, não se confi gura somente enquanto PEI. A convivência com a Escola Municipal Ulysses Guimarães, em seu turno regular, teve difi culdades de entender o sentido de se ter uma ofi cina de fotografi a no percurso de aprendizado dos alunos. A própria percepção dos sujeitos nas ofi cinas, por parte da escola, era diferente da concepção de Aline Guerra e Jorge Quintão. Quando Jorge foi convidado a dar uma palestra sobre as ofi cinas de fotografi a para os alunos e professores do turno da escola, essas diferenças vieram à tona. Eu considero um marco muito importante para o projeto foi uma exposição no inicio do 2011 uma exposição que ! zemos dentro da escola... a diretoria não permitia nada... e isto me incomodava muito, eu pensava... uai, isto não pode, a escola é pública... dai um dia fui convidado para uma palestra... para os pequinininhos, sobre o projeto de fotogra! a... dai eu até brinco que no meu porta-mala ando com um kit exposição que eu monto em qualquer lugar... sério... dai as fotos estavam no porta mala... dai me convidaram, e estavam uma bagunça, tinham uns gringos lá para conhecer o projeto, dai eu pensei é hoje, 5 minutos peguei dois meninos lá, ah, me ajuda aqui de repente tinha uma exposição... dai a diretora chegou e falou como assim, você acha