A análise da remuneração dos profissionais de recursos humanos permite-nos, entre outros aspectos, caracterizar um dos indicadores de reconhecimento social do grupo bem como as eventuais clivagens intra-grupo. Genericamente, consta-se que o salário médio líquido mensal dos inquiridos corresponde a 1819 euros, variando entre um valor mínimo de 575 euros e um valor máximo que se situa nos 9000 euros mensais. A amplitude do leque salarial aqui expressa e o valor do salário médio deixam antever uma elevada dispersão salarial, confirmada pelo valor do desvio-padrão (1369,6). Não é pois de estranhar que, enquanto os 25% de inquiridos que se encontram na base da pirâmide salarial auferem, em média, até 1077 euros, os 25% que ocupam o topo da escala de rendimento recebem um salário médio líquido mensal superior a 2500 euros.
Sem surpresa, constata-se que o salário médio liquido mensal varia em função do sexo dos inquiridos131. Embora, apresentando uma maior dispersão salarial do que as mulheres132, os homens ganham, em média, 2519 euros e as mulheres 1643 euros. As diferenças salariais entre homens e mulheres, ainda que mais atenuadas, estão presentes logo no início da carreira pelo que não resultam exclusivamente do efeito da valorização da experiência profissional, atributo que, em Portugal, tende a assumir alguma relevância na estruturação dos salários (Almeida, 2007). Estas diferenças salariais são, isso sim, o resultado de uma estrutural discriminação salarial das mulheres. No grupo dos profissionais com idade igual ou inferior a 37 anos, o salário médio é de 1248 euros, para as mulheres, e de 1681 euros para os homens133. Tal como se verifica para a totalidade da amostra também, neste caso, a dispersão salarial entre os homens é superior à das mulheres, revelando-se uma menor diferenciação salarial intra-grupo, no caso destas últimas134.
Outra variável, com significado estatístico135, que influencia a remuneração é a categoria profissional, variável que exprime a hierarquização profissional do grupo. Neste caso, o salário médio mensal dos directores e gestores corresponde a 2879 euros, enquanto que o salário das chefias intermédias se situa nos 1755 euros e o dos técnicos é igual a 1404 euros. Contudo, ao contrário da nossa expectativa, não encontramos diferenças estatisticamente significativas no que respeita ao salário médio por sector de actividade, por dimensão da empresa nem por origem do capital.
Inquiridos sobre a justiça relativa do salário auferido quando comparado com outros colegas, com qualificação idêntica, mas que trabalham noutras áreas funcionais da empresa, a maioria considera ser remunerada de uma forma igual (Quadro 53). No entanto, apesar desta opinião maioritária, 34% considera-se pior remunerado e apenas 5,8% admite receber um salário superior ao dos seus colegas com as mesmas qualificações. Este resultado, que é mediado pelas expectativas individuais, deixa em aberto a possibilidade de um menor reconhecimento salarial destes profissionais em
131 O teste t para amostras independentes tem significado estatístico (t (equal variances assumed) = 5,775; p=0,000).
132 O desvio-padrão, no caso dos homens é de 1806,265 e o das mulheres é de 820,387.
133 O teste t para amostras independentes tem significado estatístico (t (equal variances assumed) = 3,073; p=0,003).
134 O desvio padrão, no caso dos homens é de 13024,015 e o das mulheres é de 439,772. 135 O teste oneway Anova tem significado estatístico (F=44,117; p=0,000).
função do menor reconhecimento social da função recursos humanos no interior da empresa dado o elevado peso dos que se consideram pior remunerados
.
Situação bastante diferente é a que se verifica quando os inquiridos são solicitados a comparar o seu salário com o que auferem os seus colegas de profissão, com a mesma qualificação, mas trabalham noutras empresas. Neste caso, a percentagem dos que se consideram remunerados de uma forma idêntica desce para 36,9% e a dos que admitem ser pior e melhor remunerados aumenta para 47,7% e 15,4%, respectivamente. Este resultado permite-nos concluir que a percepção das diferenças salariais tende a ser maior inter-empresa do que intra-empresa.
Quadro 53
Distribuição dos inquiridos por opinião relativamente aos salários auferidos segundo a categoria profissional
Categoria Profissional
Opinião Total Directores
Gestores
Chefias
Intermédias Técnicos Colegas de outras áreas funcionais da mesma empresa com qualificação idêntica
Melhor remunerado 5,8 5,3 3,4 7,1
Pior remunerado 34,0 26,3 55,2 31,4
Remunerado de forma idêntica 60,3 68,4 41,4 61,4
Total (N=334) 100 100 100 100
Colegas de profissão de outras empresas com qualificação idêntica
Melhor remunerado 15,4 13,0 10,7 19,4
Pior remunerado 47,7 44,4 67,9 41,8
Remunerado de forma idêntica 36,9 42,6 21,4 38,8
Total (N=310) 100 100 100 100
Fonte: Inquérito por questionário
Contudo, o resultado não é o mesmo quando temos em conta a categoria profissional já que quer quando se comparam com os colegas da mesma empresa quer quando o fazem com colegas de profissão a trabalhar noutras empresas, as opiniões assumem outros
contornos136. Em ambas as situações, é entre o grupo dos técnicos que encontramos a percentagem mais elevada dos que se consideram melhor remunerados do que os seus colegas de outras áreas funcionais da empresa (7,1%) assim como dos que trabalham noutras empresas (19,4%). Em contrapartida, são as chefias intermédias quem se considera pior remunerada quer quando se comparam com os colegas da empresa (55,2%) quer quando o fazem com os colegas de profissão de outras empresas (67,9%).
Uma outra variável que influencia as opiniões sobre a equidade salarial é o nível de rendimento137 (Quadro 54). Quer quando se comparam com os colegas da empresa quer quando o fazem com os que trabalham em outras empresas, são os inquiridos que auferem os salários inferiores ao salário médio da amostra que se consideram pior remunerados: 38,7%, no primeiro caso, e 50,0%, no segundo.
Quadro 54
Distribuição dos inquiridos por opinião relativamente aos salários auferidos noutras áreas funcionais da empresa e noutras empresas segundo o nível salarial
Nível salarial
Opinião Até 1819 € ≥1820 €
Colegas da mesma empresa com qualificação idêntica
Melhor remunerado 5,5 6,3
Pior remunerado 38,7 26,8
Remunerado de forma idêntica 55,7 69,8
Total (N=320) 100 100
Colegas de outras empresas com qualificação idêntica
Melhor remunerado 10,0 25,0
Pior remunerado 50,0 41,7
Remunerado de forma idêntica 40,0 33,3
Total (N=310) 100 100
Fonte: Inquérito por questionário
136
Quando comparam o seu salário com o dos colegas com a mesma qualificação que trabalham noutras áreas funcionais da empresas X2 = 15,680; p=0,003. Quando comparam o seu salário com o dos colegas com a mesma qualificação que trabalham noutras empresas X2 = 13,311; p=0,010.
137 Quando comparam o seu salário com o dos colegas com a mesma qualificação que trabalham noutras áreas funcionais da empresas X2 = 7,944; p=0,019. Quando comparam o seu salário com o dos colegas com a mesma qualificação que trabalham noutras empresas X2 = 12,800; p=0,002.
Se os resultados obtidos ao nível da equidade salarial confirmam a tese da discriminação salarial das mulheres o mesmo não acontece, pelo menos de forma inequívoca, no que respeita à percepção da existência de diferenças salariais relativamente aos colegas das outras áreas funcionais da empresa. A literatura disponível aponta no sentido da existência de diferenças salariais entre as áreas funcionais da empresa, em resultado dos diferentes níveis de poder relativo no seu interior (Kochan, 2004). Ora, os nossos resultados não nos permitem corroborar essa ideia. Em contrapartida, constata-se que o facto do grupo profissional estar cada vez mais feminizado não o torna mais capaz de resolver os problemas da desigualdade salarial entre sexos, dado que as mulheres, pelo menos no contexto profissional da gestão de recursos humanos, não rompem com os valores masculinos dominantes (Carvalho, 2004) no exercício profissional.