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Notamos, na introdução à primeira parte de A Simbólica do Mal, uma advertência de Ricoeur sobre o desafio que pretende enfrentar em compreender a transição entre a possibilidade do mal humano e a sua realidade, isto é entre

a falibilidade e a falta.

Ricoeur escolhe um ato privilegiado em que ocorre essa passagem da possibilidade do mal à falta: a confissão, entendida como ato de admissão e/ou consentimento. Para Ivone Gebara, em sua tese O problema do mal na

hermenêutica de Ricoeur, a confissão é:

(...) em primeiro lugar uma palavra que o homem pronuncia sobre si mesmo. É uma palavra através da qual ele exprime uma situação que vive ou que está vivendo. É porque a confissão é uma palavra que revela algo sobre o homem que ela tem um lugar no discurso filosófico, que uma hermenêutica pode ser aplicada a ela e que a delimitação de um sentido na confissão é possível. Através da palavra uma experiência é explicitada e um sentido é liberado (GEBARA, 1974, p.124).

Percebemos que, para Ricoeur, a expressão [simbólica] da consciência da culpa interpelará significativamente a atividade filosófica. A confissão do mal, sendo uma palavra humana dita pelo homem sobre si mesmo, presta-se ao interesse da filosofia.

Ricoeur pretende ir ao encontro da palavra mais elementar e afastar-se das especulações que a tradição fez da noção de pecado, como bem expressa: “É pelas expressões menos elaboradas, mais balbuciantes dessa confissão que a razão filosófica se deve deixar interpelar” (RICOEUR, 2013, p. 21).

Pretende, portanto, retroceder das expressões especulativas a expressões espontâneas. Não quer se deixar seduzir por uma tradição mais consolidada do problema do mal e do pecado original, mas quer ir ao encontro do mito, que, para ele, é anterior às especulações filosóficas.

Ricoeur define o mito como uma narrativa tradicional que possui uma temporalidade que remete à origem do tempo. Para ele, o mito institui a ação e o pensamento, elementos relevantes para pensarmos o símbolo em sua teoria. Eis sua definição de mito:

(...) narrativa tradicional sobre acontecimentos que tiveram lugar na origem dos tempos, destinada a fundar a ação ritual dos homens dos dias de hoje e, de maneira geral, instituir todas as formas de ação e pensamento através dos quais o homem se compreende a si mesmo e

ao mundo (RICOEUR, 2013, p. 21).

O trabalho de Ricoeur não é aquele de desenvolver uma teoria geral do mito, mas, sim, aquele de encontrar na função simbólica do mito a exploração ontológica e a compreensão do estar no mundo.

Ao definir como campo de investigação os mitos do princípio e do fim, Ricoeur especifica a função do mal como crítica (no sentido de crise) do elo entre o homem e o sagrado bem expresso pela noção de totalidade (temporal e geográfica) presente no mito. Trata-se da tensão, que desenvolveremos com maior precisão posteriormente, entre uma origem inocente do homem e sua condição de falta.

Ao expressar o mal através da linguagem simbólica no interior do mito, o elemento crítico comporta o elemento não crítico, isto é: a confissão da falta expõe, em contrapartida à relação de dependência do homem da totalidade de todas as coisas, o sagrado. A tensão que citamos acima é intrínseca ao mito justamente por revelar, na palavra da confissão, uma condição anterior (não no sentido de um tempo cronológico) de inocência.

Eis que no mito temos a linguagem. Apresenta-se, portanto, a dimensão de um nível semântico que poderemos interpelar para acessar a linguagem da confissão, ainda que esta esteja “encoberta” por diferentes níveis semânticos, como o da linguagem mitológica e da linguagem especulativa.

Para Ricoeur, é preciso chegar à repetição da experiência que o mito explicita. Se não fizermos esse encontro com o mais arcaico, tem-se o risco de não reconquistarmos a dimensão do símbolo.

O mito e a especulação são níveis sobrepostos de linguagem que contém a linguagem da confissão e é a ela que Ricoeur pretende chegar em seu trabalho na Simbólica do Mal.

Na maneira como Ricoeur concebe a linguagem da confissão enquanto cegueira, equivocidade e escândalo, podemos entrever o sentido que o símbolo deverá ocupar em seu pensamento hermenêutico inicial. De fato, a emoção, o medo e a angústia são as condições de cegueira que encontram a experiência da falta antes de ser expressa em um discurso. O discurso, por sua vez, empurra

esta experiência para o exterior. A experiência do absurdo torna-se palavra e, portanto, humaniza-se. Assim descreve Ricoeur em uma rica passagem:

Esta linguagem da confissão é a contrapartida do caráter triplo da experiência que traz à luz: cegueira, equivocidade, escândalo. A experiência que é confessada pelo penitente é uma experiência cega: permanece presa no invólucro da emoção, do medo, da angústia; é esta nota emocional que suscita a objetivação num discurso: a confissão exprime, empurra para o exterior a emoção que, sem ela, se fecharia sobre si mesma, como uma impressão da alma; a linguagem é a luz da emoção; através da confissão a consciência da culpa é trazida à luz da palavra; através da confissão o homem continua a ser palavra mesmo na experiência do seu absurdo, do seu sofrimento, da sua angústia (RICOEUR, 2013, p. 23-24).

À linguagem mais elementar da confissão, Ricoeur associa a noção de mancha; à linguagem mais elaborada do mito, Ricoeur associa a noção de pecado, pois o mito é uma “explicação” da condição absurda da culpa e associa a condição do gênero humano em sua ruptura com o sagrado; à linguagem da especulação, associa-se a noção de culpabilidade.

A experiência mais “viva” [elementar] da falta é uma linguagem simbólica (a mancha se diz através da simbólica da nódoa).

Se, independentemente do nível de complexidade semântico em que se encontre a confissão da falta, o homem expressa, por meio de uma linguagem simbólica, a experiência de, ao mesmo tempo, ser si mesmo e estar alienado de si, Ricoeur pode chegar a uma constatação que considera surpreendente: “(...) a consciência de si parece constituir-se em profundidade por meio do simbolismo e só elaborar uma língua abstrata em segunda instância, através de uma hermenêutica espontânea dos símbolos primários” (RICOEUR, 2013, p. 25).

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