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Como apenas o clítico acusativo padrão e o pronome lhe podem realizar-se em diferentes posições em relação ao verbo, as seções a seguir apresentam o resultado estatístico dessas variantes, mesmo que o grupo não tenha sido selecionado pelo programa estatístico. As sentenças em (95), (96) e (97) apresentam exemplos de ênclise, próclise e mesóclise, respectivamente:

(95) – Desde que abandonou as funções governativas tem estado ausente da actividade política. Foi obrigado a fazê-lo pelas circunstâncias ou fê-lo por vontade própria? (31/01/2000)

(96) O relatório da Comissão devia ser apresentado até ao final de 99 e, até à data (29 de dezembro), ainda não o foi. (DNM – 01/01/2000)

(97) É óbvio que a manutenção de bancos autónomos dá trabalho e tem custos. Até agora tem-se mostrado benéfico. Quando se vier a manifestar conveniente o acerto dessa estratégia fá-lo-emos. Não somos dogmáticos. (DNM – 03/01/2000)

Conforme o esperado, observamos que a maior frequência tenha ocorrido em forma crescente da ênclise para a mesóclise, passando pela próclise, conforme ilustra a tabela 40.

Tabela 40: Influência do fator posição pronominal no uso do clítico em oposição ao pronome lhe

FATORES APLICAÇÃO/TOTAL PERCENTUAL

Próclise 82/335 24,5%

Ênclise 247/335 73,7%

Mesóclise 05/335 1,8%

Fonte: dados da pesquisa

Segundo já ilustrado no referencial teórico e retomado na análise dos dados do teste, o PE estabelece o uso da ênclise, inclusive em contextos de próclise, como é o caso da palavra negativa “não”, conforme exemplificado em (98):

(98) Pois, não esqueçamo-lo: o direito à informação compreende o direito a informar e o direito a ser informado. (DNM – 07/01/1993)

Ao relacionarmos a variante inovadora lhe na função de objeto direto com o princípio da marcação, consideramos que ela fazia parte do grupo de formas marcadas estruturalmente e cognitivamente, tanto por sua baixa frequência, quanto pela opacidade da codificação dentro de um paradigma variado. Porém, no que se refere à posição, o pronome realiza-se de acordo com a norma europeia, conforme ilustra a tabela 41.

Tabela 41: Influência do fator posição pronominal no uso do pronome lhe em relação ao clítico acusativo padrão

FATORES APLICAÇÃO/TOTAL PERCENTUAL

Próclise 2/7 28,57%

Ênclise 4/7 57,14%

Mesóclise 1/7 14,29%

Fonte: dados da pesquisa

De acordo com os nossos pressupostos teóricos, os resultados para o grupo posição do

pronome estão dentro do esperado. Em nossas hipóteses, afirmamos que a alta incidência da ênclise faz com que o sistema do PE – insular avalie positivamente o pronome lhe, capaz de realizar-se nessa posição sem demandar uma maior complexidade cognitiva, em oposição ao pronome ele. Essa relação entre as variantes, de prestígio ou não, bem como o caráter inovador do uso da anáfora zero dentro de um sistema pronominal em mudança será correlacionada, a seguir, aos resultados apresentados.

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Apresentadas as variantes e os fatores de controle, convém sistematizar o comportamento das formas dentro do domínio funcional do acusativo de terceira pessoa. No que compete ao princípio da marcação, nossos dados apontam para a formação de dois microdomínios, nos quais as formas são divididas não apenas por serem marcadas ou não marcadas, mas pelo comportamento linguístico de semelhança ou diferença de uso em contextos, linguísticos ou extralinguísticos.

Assim, de um lado, temos as formas variantes não marcadas, o clítico padrão e a anáfora zero inovadora. Ambas apresentam alta frequência, mas comportamentos opostos dentro de um mesmo grupo de fatores condicionantes. Enquanto a primeira é condicionada pela escrita, a segunda é pela fala. Falantes mais velhos com um maior nível de escolaridade usam com mais frequência a forma pronominal, enquanto indivíduos mais jovens e com menor escolaridade usam com mais frequência a anáfora. Nos textos do domínio jornalístico analisados, o clítico acusativo é favorecido por gêneros de sequências mais formais, como a notícia e o editorial; já o objeto nulo é favorecido pela a entrevista, texto formado em maior parte pela sequência dialogal. No que se refere ao período histórico, a forma padrão mostrou relevante nas décadas de 1970 e 2000 e a forma inovadora, nas décadas de 1980, 1990 e 2010. Enquanto o pronome o foi a estratégia de uso preferida quando diante de formas compostas e retomando um objeto direto [+ humano]; a anáfora foi selecionada para formas simples e objetos com o traço [- humano].

Por outro lado, temos as variantes marcadas, com baixa frequência em relação às do outro microdomínio e com comportamento análogo entre si, além do que, por vezes, o fator motivador coincide com o que motiva as formas não marcadas. Em nossa análise, uma das variantes, o pronome lhe, somente foi relacionado estatisticamente ao traço semântico do objeto direto, coincidindo tanto com a variante de prestígio, como o pronome ele. Quando ambas as variantes marcadas são relacionadas à fala, há maior frequência de uso delas por mulheres de baixo nível de escolarização, além de ocorreram diante da forma composta. No que se refere a suas especificidades na variação com a norma padrão, cada uma atua dentro de um sistema específico: o pronome ele é a variante estigmatizada usada como estratégia preferencial por falantes brasileiros e o lhe, por falantes madeirenses.

Diante do exposto, elaboramos a figura 07, que esquematiza um domínio funcional para marcação do caso acusativo de 3a. P, com formas em variação dentro de

FIGURA 07: Microdomínios funcionais com formas em variação

Fonte: dados da pesquisa

Relacionando os domínios funcionais à estrutura social, nossa tese de relacionar os pronomes ele e lhe a uma estrutura sintática comum a uma variedade do português pós-colonial continua a sustentar-se, observando a similaridade da relação de codificação e características linguísticas em espaços distintos da lusofonia, observando- se as peculiaridades de cada comunidade de fala.