A análise do período que vai do final do século XIX ao início do século XX, nos coloca diante de um momento de fundamental importância para a compreensão da transição entre as nossas matrizes intelectuais que surgem durante o Segundo Reinado e a nova tradição do pensamento econômico e social brasileiro que se constitui efetivamente a partir do final da Primeira República. Período em que o país passa por um profundo processo de transformações sobre o qual se destaca do ponto de vista econômico e político, o fim do regime escravista e um forte estímulo para a expansão do comércio internacional.
Do ponto de vista intelectual, no entanto, os novos ventos que sopram do continente europeu, nos trazem um forte componente de ideologia do progresso, na qual o evolucionismo proposto por Herbert Spencer e Charles Darwin se une ao positivismo de Augusto Comte e nos conduzem a um sentimento intelectual de inferioridade étnica e racial que nos é impulsionado a partir de uma atitude de busca incessante por explicações em relação aos motivos seculares de nosso “atraso civilizatório”. Como afirma Renato Ortiz (2005):
Aceitar as teorias evolucionárias implicava analisar-se a evolução brasileira sob as luzes das interpretações de uma história natural da humanidade; o estágio civilizatório do país se encontrava assim de imediato definido como “inferior” em relação à etapa alcançada pelos países europeus. Torna-se necessário, por isso, explicar o “atraso” brasileiro e apontar para o futuro próximo, ou remoto, a possibilidade de o Brasil se constituir enquanto povo, isto é, uma nação. O dilema dos intelectuais desta época é compreender a defasagem entre teoria e realidade, o que se consubstancia na construção de uma identidade nacional (ORTIZ, 2005, p. 15).
O que se pode perceber, neste sentido, é que a partir do final do século XIX e início do século XX, o cerne da preocupação da intelectualidade brasileira se volta para a explicação dos fundamentos de nosso “atraso”, assim como o anuncio dos passos que deveriam ser seguidos rumo a uma transformação mais profunda dessa realidade, e a um processo de evolução mais próxima possível do ideal do modelo europeu de civilização. Era preciso neste momento, portanto, a busca pela identificação da especificidade brasileira em um contexto de comparação com o padrão considerado ideal de civilização européia. Ou seja, era preciso encontrar uma razão comparativa para a nossa condição de país atrasado em seu estágio de desenvolvimento natural. Esse era, em linhas gerais, o projeto intelectual das elites brasileiras
que se fazia presente no período de transição do Brasil Império para a República. Neste sentido, a intelectualidade brasileira se ressente nesse período ainda de uma estratégia de complementação dos argumentos evolucionistas a partir do acréscimo de elementos que viessem a retratar de maneira mais clara a especificidade social brasileira. Uma realidade que irá encontrar finalmente explicação satisfatória a partir de duas noções particulares que surgem nesse período. Quais sejam: o papel do meio e o papel da raça na constituição de nossa identidade nacional (ORTIZ, 2005, p. 15).
É com base, portanto, na observação da especificidade do meio físico-natural, e da característica da mestiçagem enquanto condição específica e evolucionária de nosso povo, que o intelectual brasileiro “padrão” do final do século XIX irá se fundamentar “cientificamente” com o objetivo de justificar as raízes de nosso atraso. São esses, portanto, os parâmetros que irão fundamentar, segundo Ortiz (2005, p. 15), o solo epistemológico dos intelectuais brasileiros de fins do século XIX e início do século XX. Autores como Nina Rodrigues, Sílvio Romero e Euclides da Cunha – considerados como “os precursores das Ciências Sociais no Brasil” (ORTIZ, 2005, p. 14) –, serão os primeiros autores que irão constituir fundamentalmente a noção de raça e meio como verdadeiras categorias definidoras da realidade econômica e social brasileira.
Não é por acaso que Os Sertões abre com dois longos e cansativos capítulos sobre a Terra e o Homem. Sílvio Romero, já em seus primeiros estudos sobre o folclore, dividia a população brasileira em habitantes das matas, das praias e margens de rio, dos sertões, e das cidades. Nina Rodrigues, em suas análises do direito penal brasileiro, tece inúmeras considerações a respeito da vinculação entre as características psíquicas do homem e sua dependência do meio ambiente. Na realidade, meio e raça se constituíam em categorias do conhecimento que definiam o quadro interpretativo da realidade brasileira (ORTIZ, 2005, p. 16).
A evolução deste quadro interpretativo, no entanto, irá se modificar a partir principalmente do início da Primeira Guerra Mundial. A importância do elemento raça, enquanto elemento explicativo da condição de atraso da sociedade brasileira começa a ceder lugar, neste momento, a uma análise que prioriza os elementos culturais de imitação ou “falta de espírito de observação” – como observa Manuel Bonfim – que estariam supostamente por trás de nosso comportamento muitas vezes considerado passivo em relação à ação parasitária do Estado Português. A crítica ao caráter imitativo de nossa cultura “neolusitana” neste
período se alia a uma nova interpretação da identidade nacional que passa a valorizar os aspectos históricos (não racista), das causas de nossos males de origem. Agora as razões de nosso atraso passariam a ser vistas como estando em outro lugar, não mais nos elementos de
raça ou meio físico-natural. Uma condição, no entanto, que é vista, pela nova tradição que se inicia, como um projeto histórico em construção. Um projeto que tem suas bases intelectuais historicamente marcadas por matrizes teóricas que se consolidam ao longo da primeira metade do século XX, e que irão exercer grande influência sobre as primeiras fases de construção de um projeto político e intelectual que irá se configurar como o cerne da noção de identidade nacional. Uma formação discursiva que, na maturidade, se transformará em uma verdadeira ideologia do progresso de viés nacional-desenvolvimentista.
3.2 A TRADIÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO E SOCIAL BRASILEIRO E OS