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uma mãe, Mariza da Silva, que perdeu um dente no dia do casamento da filha, um domingo, antes da cerimônia.

No domingo do casamento, ao escovar os dentes pela manhã, Mariza ouve um barulho na pia, mas não sabe o que causou o ruído. Quando ela se olha no espelho, percebe que o pivô do seu dente da frente tinha caído pelo ralo. Depois desta seqüência, entra a entrevista de um dentista que afirma: “O pivô teria que ser substituído. Mas como esta história foi a vinte anos atrás o procedimento era mais demorado. Hoje em dia, de um dia para o outro, ela teria o dente”. Temos o dentista, interlocutor-entrevistado, que usa o tempo presente da narração para fazer sua consideração do acontecido no passado.

Com a revelação do início, feita pelo delegado do enunciador, o nar- rador, é evidenciado que se tratava de um acontecimento que poderia ter ocorrido até 30 anos anteriores àquele ano. Com a fala do dentista, se pontua o tempo do acontecido, 20 anos atrás. Com estas informações apresentadas ao enunciatário, entra a encenação com o ator-Mariza, vivido por Denise, que, com base na fala do dentista, diz: “Ah, eu não posso esperar 20 anos pelo avanço da odontologia, o casamento é hoje”. Temos aqui o uso do tempo presente na narração tanto do dentista quanto da personagem que cria a “simultaneidade”, mas o humor surge da fala do ator-Mariza que não saberia, na época do acontecido, os avanços que a odontologia faria e poderia solucionar seu problema rapidamente.

Este tempo presente utilizado durante a encenação da história reitera um outro efeito de sentido, o de verossimilhança. Com o desenrolar da história acontecida, por exemplo, nos anos 70 ou 80, de acordo com os exemplos que aca- bamos de citar, simulando a coincidência do “agora” da enunciação com o “agora” da recepção, simulando o nosso tempo em que vivemos; temos nos cenários e no vestuário, por exemplo, uma recriação de possíveis ambientes dos períodos citados. Tanto num episódio quanto no outro, há o uso de objetos e móveis nos cômodos da casa da personagem principal, daquele período, baseando-se na classe social da mesma. Com a figurativização do período que se passa o acontecido, reitera-se o efeito de sentido de verossimilhança como algo possível, provável ou plausível de ter acontecido.

No episódio “Entre o brasão e o passaporte”, além do cenário e ves- tuário que nos remeter ao período em que se passa a história – durante os anos de 1970, o efeito de verossimilhança é criado também quando são mostradas fotos da protagonista e ela própria, Célia Flores (interlocutor-entrevistada), se refere a moda da época, afirmando que a tanga brasileira fazia sucesso na Europa, onde tinha passado a morar. Para reiterar a verossimilhança, além da própria verdade discursiva, há uma inserção de um entrevistado, o ex-marido de Célia39, que con-

firma o que ela dizia.

Os diálogos entre estes atores-personagens também são referencial- izados por este tempo presente. Citemos uma outra fala, do episódio “Marias Cecí- lias”, do ator-Shenca, com a figura de Denise Fraga, quando conversa ao telefone com a sobrinha: “Assim que acabar o exame, eu vou com a mamãe para a tua casa...”. Um outro exemplo que podemos trazer é o do episódio “Debaixo dos car- acóis dos seus cabelos”. O ator-Geraldo, figurativizado por Antônio Calloni, diz a esposa, a personagem principal Zuca, vivida por Denise Fraga, para arrumar as malas e os móveis para se mudarem para um sítio, o seu novo trabalho. Ele diz: “... bota as nossas coisas nas caixas que amanhã cedo a gente vai embora...”. Podemos dizer que tanto o ator-Shenca como o ator-Geraldo estão no tempo presente da narrativa, referindo-se a um futuro em relação a narrativa. Este tempo presente é o “agora” enunciativo, a projeção do tempo da enunciação no enunciado.

Por outro lado, temos nas falas dos interlocutores-entrevistados, o tempo pertencente a um “não-agora” que se refere a algo que já aconteceu, a um passado, um “então”. Por exemplo, na fala da sobrinha Maria Cecília (interlocutor- entrevistada), ainda no episódio “Marias Cecílias”, ela diz: “O porteiro indicou a rua e ela veio, só que ela achou uma casa, acho, duas quadras acima da minha...”. Citemos ainda a continuação do exemplo dando do episódio “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, na fala de Zuca (interlocutor-entrevistada). Ela conta: “Aí fomos

39 Neste episódio “Entre o barão e o passaporte”, usa-se apenas o áudio da entrevista com o ex-marido de Célia Flores, a protagonista. A imagem fica por conta do mapa da Alemanha, onde ele mora e sua foto. Faz-se uso de um recurso comum no telejornalismo em que há o áudio e apenas a foto do correspondente da emissora que relata fatos ocorridos no exterior ou em cidades muito pequenas e afastadas dos grandes centros onde não é possível gravar imagens. Este uso é comum para noticiar localidades que estejam em guerra.

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pro sítio. Era uma casinha de 3 cômodos...”. Entendemos que estes interlocutores- entrevistados se referem ao passado, tendo como referência temporal o presente da narração que coincide com o “agora” enunciativo, porém é uma anterioridade a este “agora”.

Consideramos que este jogo com o tempo no discurso, tendo o “ago- ra” da enunciação como referência temporal, reitera o efeito de sentido do que está sendo contado é real e verdadeiro, pois tudo o que é dito pelos interlocutores-entre- vistados se refere a uma história ocorrida no passado, antes do tempo apresentado na narração. Além disso, todas as falas que constroem a “ficção” – a encenação da história pelos personagens – cria o efeito de simultaneidade com o tempo de quem está assistindo ao quadro, bem como reitera o efeito de verossimilhança, que é pos- sível ou provável ser “verdade”, plausível, o que se passa na tela da tevê.

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