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mercado.

Apesar de relevantes, as delimitações de Becattini (1991) não abordam uma lenta transformação que vem ocorrendo em alguns distritos industriais: a emergência de empresas de grande porte líderes nestas regiões – muitas vezes originárias dos próprios distritos ou da entrada de multinacionais e de maciço capital estrangeiro (WHITFORD, 2001) – provocando profundas transformações na estrutura econômica e social das regiões em que estão localizadas (CARBONARA, 2002).

Estas grandes firmas são caracterizadas por uma configuração que deixa de lado a coordenação espontânea e informal dos distritos industriais marshallianos para assumir formas mais estruturadas, via formalização e estruturação das redes de relações sociais entre as firmas. Além disso, estas firmas, a fim de aumentar o controle sobre todo o processo de produção e as competências relacionadas, ou

mesmo aumentar a escala do processo, inserem-se em um processo de integração vertical, normalmente caracterizado pela aquisição de firmas dentro dos distritos industriais (CARBONARA, 2002).

O impacto causado por estas grandes firmas na estrutura dos distritos industriais traz também conseqüências claras para a estrutura social e cultural desses distritos. Dado o amplo controle que estas empresas possuem sobre as pequenas firmas, a cultura local passa a ser fortemente influenciada por elas (CARBONARA, 2002). As características culturais destas firmas, portanto, passam a ser também dos distritos. Fica evidente, então, que a definição de distritos industriais como “uma concentração territorial de pequenas firmas [...] que se mantêm juntas pela cultura social comum de trabalhadores, empreendedores e políticos cercados por uma atmosfera industrial” (BIANCHI7, 1994 apud WHITFORD, 2001, p. 41, tradução nossa) não mais se aplica. Boa parte desse ambiente cultural deixa de ser algo homogêneo, esculpido pelas muitas pequenas firmas que compõem o distrito industrial, para ser fortemente influenciado pelas grandes empresas familiares que se formam nos distritos e pelas multinacionais que ali se instalam.

Sob a perspectiva social, estas grandes firmas passam a ter um forte controle sobre o destino das firmas que constituem o distrito. As organizações líderes passam a gerenciar a network (constituída tanto de firmas autônomas quanto controladas) de forma hierárquica. “De fato, a empresa líder pode reestruturar a network entre firmas e influenciar a sobrevivência de seus subcontratados por meio, por exemplo, da definição de regras para a qualificação de fornecedores.” (CARBONARA, 2002, p. 235, tradução nossa).

As firmas líderes, a fim de consolidar sua posição competitiva nos mercados internacionais, modificam o seu “enraizamento” com o distrito industrial, abandonando as regras organizacionais e inter-organizacionais e assumindo outras normas ditadas pelo ambiente externo ao distrito (CARBONARA, 2002).

7 BIANCHI, G.. Tre e piu Itale: sistemi terriotriali di piccola impresa e transizione post-industriale, 1994

in BORTOLOTTI, F. Il Mosaico e Il Progetto: Lavoro, Imprese, Regolazione nei Distretti Industriali della Toscana, Milan: FrancoAngeli,1994.

Os distritos industriais, além de estarem passando por uma profunda modificação na sua rede de relações sociais, estão também perdendo uma das características mais exclusivas dos distritos desde os tempos de Marshall: a relação simétrica de poderes. A máxima de que a “coordenação por meio de relações de autoridade é difusa devido ao grande número de firmas, mas, ao mesmo tempo, é limitada, uma vez que as firmas são apenas de tamanho moderado.” (DEI OTTATI, 1994, p. 2, tradução nossa) não possui mais validade.

Apesar de soar como algo prejudicial no cotidiano, esta concentração de poderes nas mãos de poucas e grandes firmas tem trazido alguns benefícios aos distritos industriais. Focadas em um processo de inovação conjunta, as relações entre grandes e pequenas empresas tendem a ser caracterizadas por acordos de cooperação mais estáveis – condição necessária para produzir itens de maior qualidade (WHITFORD, 2001) – assim como por maior integração tecnológica, cooperação no desenvolvimento de novos produtos, investimentos conjuntos em P&D e um intercâmbio contínuo de informações entre produtos e processos (CARBONARA, 2002).

Em contraposição às redes de cooperação informais, esta “network estruturada”, formalizada por meio de contratos de exclusividade de médio a longo prazos entre as pequenas e as grandes empresas, além de proporcionar maior estabilidade, permite que os distritos industriais transitem de um processo de inovação essencialmente incremental para um processo marcado também pela inovação de ruptura (WHITFORD, 2001).

Desta forma, a inserção de grandes empresas no ambiente dos distritos industriais tradicionais, em vez prejudicá-los, os dinamiza, mitigando algumas de suas desvantagens, tais como a lentidão para adotar novas tecnologias, pouco know-how necessário para a pesquisa básica, incapacidade de produzir inovações de relevância e falta de conexões com redes internacionais de conhecimento codificado (WHITFORD, 2001).

Também na visão de Rabellotti e Schmitz (1999), a existência de firmas de maior porte parece ser necessária a alguns distritos industriais. Estes autores observam

que as firmas de menor porte, pelo menos nas concentrações por eles analisadas, são as que menos contribuem para o desenvolvimento dos distritos e tendem a ser

free riders, ou seja, usufruem das economias externas existentes sem haver uma

contrapartida, via envolvimento em ações conjuntas ou em outras formas de cooperação.

Outro fenômeno que vem ocorrendo nos distritos industriais é o desenvolvimento de instituições que têm saído do papel de simples provedoras de serviços de consultoria, treinamento profissional, certificação de qualidade, dentre outras funções de assessoria, para um papel de meta-gestão (meta-management). Por meio de organizações público-privadas, centros de pesquisa e serviços e associações de negócios, essas instituições passam a coordenar tanto as atividades comerciais quanto produtivas dos distritos industriais, ativando e gerenciando os processos de cooperação entre as firmas que se encontram dentro e fora dessas concentrações industriais (CARBONARA, 2002). Pilotti (2000) vai mais longe e afirma que não somente as instituições vêm desempenhando este papel de “meta- organizadores” nos distritos industriais, mas também muitas das firmas inovadoras neles presentes.

Além disso, vários distritos industriais não são mais caracterizados pela produção de bens considerados maduros. Verifica-se a emergência de regiões formadas por empresas de alta tecnologia, que se basearam na exportação de produtos e serviços de alta qualidade, como as de multimídia e semi-condutores na Califórnia e as automobilísticas, ópticas e de eletrônica em Baden-Württemberg (sudeste da Alemanha), definidas por Raco (1999) como “Novos Distritos Industriais”.

Enfim, grandes empresas ocupando um ambiente tradicionalmente marcado pelas pequenas empresas, assimetria de poderes, a ascensão da meta-gestão e o advento de distritos industriais de alta tecnologia demonstram que o conceito do típico distrito industrial marshalliano está longe de se adequar à realidade contemporânea. Conforme Whitford (2001, p. 48-49, tradução nossa):

Caracterizações de um modelo de distrito industrial relativamente homogêneo não mais se aplicam. O grau de hierarquia nas relações entre

o fornecedor e as firmas finais varia de distrito para distrito, nem todas as áreas são igualmente especializadas em um único produto e as distribuições do tamanho das firmas variam. Esta confusão levou (...) a sugerir que o “distrito industrial” em si é uma categoria a se repensar, significando que há muita variação dentro da categoria para assinalar atributos funcionais aos distritos industriais no tocante à sua classificação, de forma que eles deveriam ser tratados apenas como uma unidade útil de investigação. (WHITFORD, 2001).

De forma semelhante, Winder (1999) expõe que não há um consenso real do que realmente constitui um distrito industrial. Este argumenta que, por exemplo, enquanto alguns autores definem a confiança como uma característica-chave dos distritos industriais, outros atribuem pequena importância a este fator.

Alguns estudos afirmam que houve inúmeros tipos de distritos industriais e que muitos destes não estavam necessariamente associados à especialização flexível, que caracterizou o período conhecido como Pós-Fordismo. Portanto, o distrito industrial de hoje está longe de possuir uma definição própria ou até mesmo configurar um tipo ideal. Nesta busca por uma identidade, pode-se afirmar que mesmo que os autores tentem estabelecer uma fronteira para este conceito, é extremamente complicado determinar se uma concentração é ou não um distrito industrial, dada a enormidade na variação de atributos que este conceito possui entre os estudiosos (WHITFORD, 2001).

Vários estudos relacionados à evolução dos distritos industriais discutem o futuro do modelo e o que deveria ser considerado hoje um distrito (WHITFORD, 2001). As fronteiras deste conceito estão tão pouco definidas que, por exemplo, ao mesmo tempo em que o Vale do Silício é tradicionalmente classificado como um cluster, não há restrições para que Raco (1999) o classifique também como um distrito industrial. Já Van Dijk e Sverisson (2003) tratam o distrito industrial como um dos estágios de desenvolvimento de um cluster caracterizado por um nível mais avançado de integração entre suas firmas componentes.

Esta profunda modificação na configuração dos distritos industriais não foi fruto do acaso. Conforme apontam Balloni e Iacobucci8 (1998 apud WHITFORD, 2001), o

8 BALLONI, V; IACOBUCCI, D. Le politiche locale nel modelo NEC. In: GLI INCONTRI PRATESI

antigo modelo de distrito era limitado em produzir pessoas capazes de interpretar o novo cenário competitivo e gerenciar as mais novas e complexas configurações organizacionais.

A transformação deste modelo de concentração industrial foi, antes de tudo, uma resposta ao novo ambiente de competição com o qual as firmas se depararam, marcado pela crescente internacionalização do comércio e a libertação das atividades econômicas e sociais das áreas locais (RACO, 1999), assim como pela ameaça representada pelos distritos de produtos maduros em países de baixa renda, a descoberta da produção enxuta e em cadeia e a reestruturação das relações de trabalho nas grandes firmas (WHITFORD, 2001). Acompanhando a questão da internacionalização do comércio, a formação das networks globais e as economias de networks baseadas na tecnologia de informação também foram determinantes nesta mudança (BENEDETTI, 1999).

Os fatores supracitados, assim como diversos outros, sacaram das pequenas firmas localizadas nestas concentrações muitas das vantagens que possuíam, e impulsionaram a transformação daquilo que anteriormente era conhecido como distrito industrial em algo que hoje não possui uma definição consensualmente estabelecida.