O tema da loucura e sua ligação com o dinheiro em Dostoiévski surge ao lado de outro tema também importante em sua obra, cujo centro é a denúncia da reificação e que escapou à análise freudiana. Ainda analisando o conto O senhor
Prokhartchin, Schnaiderman aponta que:
Os inquilinos da pensão vivem num mundo alienado e não têm consciência do processo que ocorre com eles. O fato que dá veemência ao relato é a loucura de Prokhartchin, uma loucura de vítima, de alguém esmagado pelo processo, e não de um dos que tentam vencer na competição pelo dinheiro, como é o caso de Hermann em A Dama de Espadas de Púchkin.278
O início da loucura que toma conta de Prokhartchin coincide com o recebimento de seu ordenado, e em sua alucinação ouve com nitidez o tilintar das moedas no bolso dos que o acompanham na corrida do sonho. Há também o seu tão cuidado baú, que o personagem se agarra com tanto afinco, mas que ao final se revela ao leitor como uma grande surpresa, dando provas mais uma vez do
métier do escritor: “ao mesmo tempo, a preocupação social de Dostoiévski alia-
se a certa esperteza na construção do enredo, a um jogo de esconde-esconde com o leitor: fixa-se a atenção deste no baú, como se devesse estar nele o dinheiro, e depois frustra-se esta expectativa.”279 O dinheiro do personagem estaria guardado em seu surrado colchão, em pacotinhos separados de moedas de variados tipos.
Diz Schnaiderman que a loucura de Prokhartchin representa o grau máximo da dor de um processo de reificação. Enquanto para todos os inquilinos 277 Ibidem, p.59.
da pensão a fixação no dinheiro e a venda da força de trabalho são coisas normais e cotidianas, a consciência de tudo isso em Prokhartchin o leva à loucura, ao paroxismo da reificação.
Outro elemento constituinte do métier de Dostoiévski que o auxilia na denúncia da reificação é a influência da forma poética na sua linguagem, o que é detidamente analisado por Schnaiderman. Segundo este, a linguagem de Dostoiévski estaria situada entre a prosa e a poesia. Para tal afirmação Schnaiderman se apoia em vários estudos já iniciados sobre essa questão, principalmente os de Grossman, e indica também determinados fragmentos de Dostoiévski para sustentar sua argumentação. O autor deixa claro que muitos estudiosos de literatura são contra esse tipo de colocação.
Esse aspecto da técnica importa nesta pesquisa apenas para apontar que Dostoiévski elaborava conscientemente uma forma de expressão que fosse adequada para tratar seu objeto: as profundezas da alma humana. A prosa poesia (é assim que Schnaiderman designa a escrita de Dostoiévski) é o recurso técnico para captar a essência com mestria. Essa escrita se mostra até mesmo na composição dos nomes próprios. No caso de Prokhartchin, Schnaiderman mostra que esse nome “tem evidente ligação com khartchi, isto é, ‘alimentos’, e com o derivado prokhartchítsia, que significa despender todo o dinheiro com a comida.”280 Além disso, segundo o autor, o nome pode ainda ser ligado a outro significado: “cobrir de escarros o grau hierárquico”. Ambos significados são bastante pertinentes ao contexto do conto.
Natália Nunes, editora das Obras Completas de Dostoiévski em português, também aponta o mesmo recurso em relação ao “herege” de Crime e Castigo, Raskolnikov:
279 Ibidem. 280 Ibidem, p.116.
Nome forjado de raskol, cisão. É evidente o propósito simbolista do autor. Criando este nome, quer mostrar, através da significação do étimo, o homem cindido, atormentado pela contradição, entre as exigências que ele faz à vida, à humanidade e a si mesmo, e a capacidade para realizá-las. Em Crime e Castigo este simbolismo não tem sentido religioso, embora os termos raskol e raskólhnik fossem na época habitualmente aplicados à seita religiosa dos Velhos Crentes, e aos seus adeptos, cindidos da Igreja Ortodoxa e combatidos pelo Poder Central.281
É interessante, aponta Schnaiderman, que tal procedimento não rotula desde o início o personagem. No caso de Crime e Castigo, somente no final e com alguma reflexão é possível entender a simbologia presente no nome. Mesmo em O senhor Prokhartchin, seu significado vai ganhando valor ao longo do conto.
Dessa forma, nota-se que Dostoiévski utiliza uma linguagem conscientemente desenvolvida para auxiliar na denúncia da reificação, aspecto que marca uma grandeza em sua obra e que é ofuscado pela redução da análise de Freud. No caso de O senhor Prokhartchin, Schnaiderman aponta até mesmo uma insistência na repetição de palavras, insistência obsessiva e alucinatória que contribui para o clima do conto.
Quanto à alusão de Freud a um sadismo de Dostoiévski para com o leitor, parece que faltava ao psicanalista o conhecimento de aspectos da literatura russa que dão à escrita de Dostoiévski um tom irônico, como mostra Schnaiderman:
Aqui um termo arcaico, ali uma construção que lembra o velho estilo russo. E isto se sente particularmente em “O senhor Prokhartchin”, sobretudo no discurso do narrador. Sua linguagem tem algo de coloquial, mas de uma camada da população em que expressões do dia se mesclam com outras evidentemente arcaicas. Isto contribui para o tom irônico, marcado muitas vezes pela grandiloqüência de expressões pouco usadas, e faz com que, em muitas passagens, o narrador fique num plano diferente dos inquilinos da pensão. Ele vê as coisas de dentro, mas também de fora para dentro, com certo distanciamento. E ao mesmo tempo se permite caçoadas com o “estilo nobre”, embora o empregue de vez em quando. Aliás, suas contradições constituem verdadeiro jogo: ele parece brincar com o leitor, faz promessas e não cumpre (por exemplo, quando promete maiores esclarecimentos sobre o
comportamento de Prokhartchin e depois não os dá), etc.282
Pode-se buscar em outro importante teórico do romance – que aliás, muito influenciou a teoria crítica – elementos para melhor evidenciar a grandeza de Dostoiévski. Georg Lukács diz que Dostoiévski é o primeiro grande escritor da metrópole capitalista capaz de expor a dinâmica das mudanças sociais, morais e psicológicas que se evidenciavam no final do século XIX.283 Seus personagens nascem da miséria das grandes cidades, e é a partir disso que Dostoiévski examina sua estrutura psíquica e a deformação de seus ideais morais: “a humilhação e a ofensa saídas da miséria nas grandes cidades são as bases daquele individualismo mórbido, daquele desejo macabro de conquistar o poder no ambiente em que vive.”284 A partir dessa perspectiva que releva o contexto da produção artística de Dostoiévski, torna-se claro que não basta dizer, como Freud, que o romancista tinha um “caráter amável” ou que fornecia demonstrações de “extrema bondade” para, a partir disso, analisar sua obra.
Quanto à inclinação ao jogo, que Freud observa como uma tendência negativa ligada à compulsão à masturbação, Lukács diz que a vida de jogador é um “fato simbólico para Dostoiévski e para o seu mundo”, sendo uma preparação para uma vida que viria no futuro, juntamente com as mudanças que estavam começando a ocorrer, como o surgimento das grandes cidades: “os personagens não vivem no presente, mas numa espera ansiosa da grande mudança decisiva.”285
282 Boris Schnaiderman, Dostoiévski – prosa poesia, p.138.
283 Georg Lukács, Dostoiévski, in Ensaios sobre literatura, 1965 [1943]. 284 Ibidem, p.155.