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A amostra LC-86 foi coletada em afloramento (UTM: 206333/7816547) situado a oeste de Ipanema, na margem direita do Rio Manhuaçu. O afloramento é do Complexo Pocrane, mas se situa na zona de contato com uma intrusão tonalítica da Supersuíte G1 (Figuras 3.1 e 3.2). A rocha datada é um ortognaisse cinza, rico em hornblenda, cujo aspecto, mais maciço do que o normal para este litotipo do Complexo Pocrane, sugere recristalização por metamorfismo térmico (Figura 3.39).

62 Figura 3.39: Ortognaisse do Complexo Pocrane no afloramento LC-86.

Para a amostra LC-86 foram datados treze grãos de zircão pelo método U-Pb em aparelho SHRIMP (Figura 3.40, Tabela 6 do Anexo 2). Imagens de catodoluminescência mostram duas diferentes famílias de grãos de zircão (Figura 3.41). Uma delas é formada por prismas equidimensionais multifacetados, com bordas curvilíneas bem definidas, do tipo soccer ball, sugerindo recristalização em condições de metamorfismo de alto grau. A segunda família é definida por cristais prismáticos com proporção aproximada de 2:1, de cor rosa. Em ambos os casos, os conteúdos e razões de U e Th são compatíveis com rochas metamórficas.

A amostra apresenta três cristais de zircão mais antigos e um bem jovem, os quais não foram considerados para o cálculo da idade (Figura 3.40). Estes grãos sofreram desestabilização isotópica, apresentando acentuada discordância e/ou elevado erro das medidas individuais.

Foram selecionados oito spots com medidas de boa consistência analítica para cálculo de idade e construção do diagrama concórdia Wetherill (Figura 3.41), que forneceram idade de metamorfismo de intercepto superior em 642 ± 69 Ma (MSWD = 0,52). Considerada a margem de erro, este resultado corresponde, grosseiramente, às idades mais antigas de rochas da Supersuíte G1 que marcam o início da edificação do Arco Rio Doce (Pedrosa-Soares et al. 2011).

63 Figura 3.40: Diagrama concórdia Wetherill de todos os grãos de zircão analisados para a amostra LC-86.

64 Figura 3.41: Idade indicadora de metamorfismo para a amostra LC-86 em diagrama concórdia Wetherill, e imagens de catodoluminescência de grãos analisados.

3.2.4. Química Mineral e Geotermobarometria

Este tópico objetiva a obtenção de dados geotermobarométricos para o Complexo Pocrane, a partir de análises de química mineral da amostra de ortognaisse LC-86. A metodologia utilizada está descrita no capítulo 1, item 1.3.4 - Trabalhos de Laboratório - Química Mineral, e os dados obtidos encontram-se no Anexo 2, Tabela 7.

Os cristais de anfibólio têm composição de hornblenda magnesiana a ferruginosa, ocorrendo raros componentes de actinolita hornblenda e ferro tschermakita hornblenda (Figura 3.42). Os cristais não apresentam nenhum tipo de zoneamento químico e caracterizam uma única geração. O

trend negativo verificado para o conjunto (Figura 3.42) foi considerado como decorrente da solução

sólida Fe2+↔ Mg2+ na posição Y (sendo a fórmula geral dada por: A0-1X2Y5Z8O22(OH)2), ou ainda

pela substituição Mg ↔ Al3+ também na posição Y.

Os valores de temperatura e pressão obtidos utilizando a metodologia de Zenk (2001) para o par hornblenda e plagioclásio com base em 23 O são 539°C e 5,9kbar. Estes valores de PT devem representar o re-equilíbrio metamórfico relacionado à deformação D2, responsável pela formação da foliação regional Sn, durante o estágio sincolisional, uma vez que esta foliação é materializada pelos cristais de anfibólio e biotita.

65 4. EVENTOS MAGMÁTICOS MESOPROTEROZÓICOS

Com base em estudos de campo e laboratório efetuou-se a caracterização de rochas metaígneas máficas que se encontram intercaladas no Ortognaisse Pocrane, mas que têm idades muito diferentes das que se obteve para este complexo. Além disso, não se trata das bandas relativamente mais ricas em biotita e/ou hornblenda que compõem o ortognaisse (ver Capítulo 3), mas de lentes de ortoanfibolito stricto sensu (Figura 4.1).

Paes (1999) apresenta estudos sobre as rochas máficas e ultramáficas da “Seqüência Metavulcano-sedimentar de Cuieté Velho” (aqui considerada uma parte do Complexo Pocrane, Figura 3.2), reunindo-as nos grupos A, B e C. O grupo A consiste de rochas metabásicas a clinopiroxênio e anfibolitos, cuja litoquímica alcalina sugere protolitos máficos de ambiente intraplaca continental. Análises Sm-Nd em rocha resultaram na idade isocrônica de 1035 ± 160 Ma, sugerindo algum evento extensional do limiar Mesoproterozóico-Neoproterozóico. O grupo B é constituído por anfibolitos e hornblenda xistos de assinatura toleiítica, cuja idade isocrônica Sm-Nd em rocha total resultou em 3099 ± 142 Ma, levando o autor a relacioná-los ao magmatismo máfico de um greenstone belt. O grupo C é formado por tremolita-actinolita xistos que, por similaridade química, foram interpretados como produtos da mesma fonte mantélica dos anfibolitos do Grupo B. Contudo, a dissertação apresentada por Paes (1999), além de se restringir à “Seqüência de Cuieté Velho”, não contém as análises completas que permitiriam realizar comparações com os dados obtidos para a presente tese.

Silva et al. (2002) reportam as idades de 1506 ± 14 Ma e 602 ± 14 Ma (U-Pb SHRIMP em zircão) para uma intercalação de anfibolito associada ao Complexo Pocrane, interpretando-as como idades de cristalização magmática no Calimiano e do metamorfismo brasiliano, respectivamente.

4.1. Ortoanfibolitos

Estas rochas ocorrem em lentes de espessura centimétrica a métrica (Figuras 4.1 e 4.2) e pequena continuidade lateral (que não ultrapassa seis metros). Apresentam granulação fina e aspecto maciço, mas a foliação é bem visível em lupa e lâmina delgada ou em afloramento parcialmente intemperizado. Consistem de hornblenda, plagioclásio, biotita, quartzo, clorita, apatita, titanita, zircão e minerais opacos (Figuras 4.3 e 4.4). Biotita e clorita se formam por alteração da hornblenda. A biotita pode chegar a ser mais abundante que a hornblenda.

66 Figura 4.1: Lente de anfibolito de espessura centimétrica, concordante com a foliação do anfibólio-biotita gnaisse do Complexo Pocrane.

Figura 4.2: As fotos superiores mostram uma intercalação de anfibolito de espessura métrica, no Gnaisse Pocrane. As fotos inferiores ilustram o contato entre uma lente de anfibolito e o mesmo ortognaisse.

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