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A revelação, jamais acabada, jamais integralmente alcançada do arquivo, forma o horizonte geral a que pertencem a descrição das formações discursivas, a análise das positividades, a demarcação do campo enunciativo.28

Michel Foucault

Na acepção de Foucault (2007a, p. 112) a análise enunciativa leva em conta os fenômenos da recorrência. Isto porque todo enunciado possui um campo de elementos antecedentes - denominado de passado enunciativo -, que é reorganizado e redistribuído conforme relações novas. E é justamente pela recorrência que o enunciado compõe esse campo de elementos antecedentes, se situando em relação a eles. Afinal de contas, não há enunciado que não suponha outros, que não possua em torno de si “um campo de coexistências, efeitos de série e de sucessão, uma distribuição de funções e de papéis”.

Foucault (idem, p. 141-142) expõe que a descrição de um conjunto de enunciados implica considerar a dispersão de uma exterioridade; reencontrar as marcas específicas de um acúmulo e estabelecer uma positividade. Além do mais, afirma que a análise de uma formação discursiva significa “tratar um conjunto de performances verbais, no nível dos enunciados e da forma de positividade que as caracteriza; ou mais sucintamente, é definir o tipo de positividade de um discurso”.

É a positividade que caracteriza o discurso como uma unidade através do tempo, permitindo que vá muito além da massa de textos que pertencem a uma mesma formação discursiva. Daí se tem vários discursos provenientes de autores que entrecruzam seus dizeres sem o dominarem, culminando em uma massa de textos. Esses indivíduos não comunicam apenas pela concatenação de suas propostas, nem tampouco pela recorrência dos temas e caráter da significação, mas sim pela forma de positividade de seus discursos. Dessa forma, “a positividade desempenha o papel do que se poderia chamar um a priori histórico”. E esse a priori, que trata de regras que caracterizam uma prática discursiva,

28 Cfe. FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro:

não escapa à historicidade, ou seja, deve dar conta do fato de que o discurso não possui apenas um sentido e uma verdade, mas sim uma história (FOUCAULT, ibid, p. 144).

Portanto, esse a priori histórico corresponde a um conjunto de regras que caracterizam uma prática discursiva em um determinado espaço e tempo.

Na acepção foucaultiana, existem sistemas nas práticas discursivas que estabelecem os enunciados como acontecimentos (dispondo suas condições e seu domínio de aparecimento) e coisas (abrangendo sua possibilidade e seu campo de utilização). Nessa ótica, Foucault (2007a, p. 146-148) resolve chamar de arquivo a todos esses sistemas de enunciados. E, vai mais além, expondo a complexidade do termo arquivo:

faz com que tantas coisas ditas por tantos homens, há tantos milênios, [...] tenham aparecido graças a todo um jogo de relações que caracterizam particularmente o nível discursivo; [...] O arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares. [...] faz aparecerem as regras de uma prática que permite aos enunciados subsistirem e, ao mesmo tempo, se modificarem regularmente. É o sistema geral da formação e da transformação dos enunciados.

O arquivo é inenarrável em sua completude, sendo incontornável em sua atualidade. Ele se constitui no espaço mais amplo de conceituação da arqueologia foucaultiana, de onde se pode unir os demais conceitos: a priori histórica, positividade, práticas discursivas, formações discursivas, discursos, enunciados.

Imagina-se o arquivo como o conjunto dos discursos, oriundos de sujeitos que entrecruzaram seus dizeres e geram sentidos, pronunciados em uma determinada época e que persistem no decurso da história. Daí concebê-lo como um espaço de memória provido de organização, que reúne múltiplos sentidos advindos de enunciados que se estabelecem como acontecimentos por conta de práticas discursivas, através das quais é constituído o saber de uma época.

Por outro lado, o discurso é construído a partir de um espaço de memória onde se alojam outros discursos, implicando na existência de diferentes sujeitos que constroem suas falas a partir do interdiscurso. Assim, essa memória é composta dos dizeres já proferidos, esquecidos e que retornam, se repetem e constituem todo o dizer (memória), sendo disponibilizado pelo interdiscurso. Disso resulta que os sujeitos vão construir os seus dizeres justamente a partir do já-dito, do repetível (no interdiscurso).

Orlandi (2007, p. 31-32) define interdiscurso como algo que fala antes, em outro lugar e independentemente. O interdiscurso se situa no campo da memória discursiva,

definida como “o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”. Também, essa autora acrescenta que o interdiscurso vai disponibilizar dizeres que afetam o modo como os sujeitos significam em uma determinada situação discursiva.

A introdução da noção de memória discursiva veio desempenhar um importante papel nas reconfigurações da análise de discurso. Inclusive, esta noção resultou de uma extrapolação feita a partir do campo associado, apresentado pela arqueologia foucaultiana na obra A Arqueologia do Saber. Sugerido no Colóquio Materialidades Discursivas29, o

tema da memória encontra-se “co-ligada no eixo vertical, à repetição, mas também ao esquecimento, ao apagamento e à denegação” (MALDIDIER, 2003, p. 76).

Para que o dizer signifique, é necessário que haja uma ligação da História com a língua, ou seja, a conjunção do já-dito - aqueles dizeres já emitidos no decorrer da História e situados na memória discursiva (interdiscurso) - com aquilo que está sendo dito naquele momento e em condições específicas (intradiscurso). E é através dessa convergência de dizeres que se dá a movimentação de sujeitos e a concretização dos efeitos de sentidos.

Nessa perspectiva, Leite (2001, p. 110) expõe que o sentido não se encontra no texto, “mas na relação que este mantém com quem o produz, com quem o lê, com outros textos (intertextualidade) e com outros discursos possíveis (interdiscursividade)”. E, é devido a esse fato, que o analista do discurso ao se debruçar sobre um arquivo textual está exercendo a interpretação.

Cabe lembrar que a noção de memória discursiva está associada à concepção pecheuxtiana de memória social30. Isso porque o espaço de memória, por estar condicionado ao funcionamento discursivo, constitui um corpo sociohistórico e cultural. Além do que, os discursos manifestam uma memória coletiva onde os sujeitos se

29 Na acepção de Denise Maldidier o colóquio Materialidades Discursivas marca um novo momento para a

“teoria do discurso” na AD francesa. Dentre os benefícios trazidos pelo colóquio destacam-se: a contribuição de Jean-Marie Marandin de trabalhar a noção de intradiscurso, o conceito teórico de “fio de discurso”, na sua relação com o interdiscurso. Isso permitiu no sistema conceptual da “teoria do discurso” surgir à questão da seqüencialidade, que iria logo chamar-se a “discursividade”; o procedimento de Jacqueline Authier colocando em evidência as rupturas enunciativas no “fio do discurso”, propiciando, a partir de dois níveis de heterogeneidade (mostrada e constitutiva), o surgimento de um discurso outro no próprio discurso. Portanto, ela trouxe os elementos que foram decisivos à questão problemática da heterogeneidade do discurso. Maiores informações sobre esse colóquio estão expressas em MALDIDIER, Denise. A inquietação do discurso: (re)ler Michel Pêcheux hoje. Trad. Eni P. Orlandi. Campinas: Pontes, 2003.

30 Fernandes baseou-se na assertiva pecheuxtiana: “a estruturação do discurso vai constituir a materialidade de

uma certa memória social”, constante em PÊCHEUX, Michel Pêcheux. Papel da Memória. In.: ACHARD, Pierre et al. Papel da Memória. Campinas: Pontes, 1999. p. 11.

inscrevem. Daí se trata de uma memória coletiva, até porque implica na existência de diferentes grupos sociais oriundos de diferentes tipos de discurso. Um discurso reúne a coletividade dos sujeitos que “compartilham aspectos socioculturais e ideológicos, e mantém-se em contraposição a outros discursos (FERNANDES, 2007, p. 59-60).