Tomando a EEPFS como um projeto alternativo, surgem dúvidas e incertezas sobre o
futuro da escola: (SILVA, 2015).
Mais à frente, o mesmo entrevistado complementa dizendo:
Se pudermos identificar e promover, pesquisar, debater, será que esses movimentos, essas práticas, vão ser um espírito para desenvolver a economia que, diferente da economia promovida pelos capitais, ou economias estatais? (SILVA, 2015).
Nesse sentido, Miro (2015) afirma:
Para o futuro pretende-se que escola fulidaidai possa construir com pensamento de uma outra economia, não sendo pública e nem privada, mas outra. Outra esperança é que escola fulidaidai saia como instituição de economia, instituição educativa que orienta as pessoas, prepara as pessoas para haver militância eficiente no nível dos sucus. A escola fulidaidai busca, ainda, ser referência para o território de Timor, para poder completar a independência com a educação advinda do povo, com informações advindas do povo e fazer com que o povo tenha acesso aos serviços públicos que ele não goza por não haver.192Então, eu entendo que é preciso trazer educação para
perto do povo, trazer informações para perto do povo193, para o povo poder
sentir-se independente. (MIRO, 2015)
191Através dos trabalhos de base. 192Não há esses serviços básicos.
Então para que o pensamento dessa economia possa ser desenvolvido, é necessário também o desenvolvimento da educação. É nesse sentido que almejam os envolvidos, uma ligação junto à UNTL, sendo a escola de Ermera integrante da universidade. Desta forma,
Se pudermos promover cooperações internacionais entre essas formas de economia isso vai promover o progresso da Fulidaidai, porque ganha uma espaço no pensamento intelectual, dos Dexters194 das Universidades, dos
Dexters das Escolas. Então, científicamente há espaço e pode devagar ganhar também área na política. (SILVA, 2015)
Contudo, faz-se importante destacar que apenas o acesso, ou ligação da escola ao contexto científico, não trará um desenvolvimento das economias Fulidaidai e Slulu, pois não estaria a ciência submetida ao modo de produção capitalista? Nas palavras de Oliveira (2008,
submeter a ciência ao controle do mercado, sendo mais uma manifestação da tendência capitalista a transformar tudo em mercadoria, que se acentua no neol
pensando numa ciência baseada em conceitos e saberes locais, fundamentados nas economias Fulidaidai e Slulu, acredita-se ser possível uma ciência que caminha na contramão do neoliberalismo.
É nesse sentido que Silva (2015), acrescenta:
produzirmos mais pessoas como Uka, outras pessoas podem trabalhar todos juntos ali para
4.6.1. As parcerias para o futuro
Durante a convivência com os camponeses e docentes envolvidos com a EEPFS, foi possível observar que dentre a realização de parcerias, grande parte deles buscam tomar algumas precauções, principalmente no que se refere aos grupos que possuem muitos apoios externos ligados a ONGs.
Nas pesquisas de campo, foi possível constatar a existência de outro movimento social denominado Movimento dos Agricultores de Timor-Leste (MOKATIL). Porém, segundo conversas com os entrevistados, os mesmos afirmam que este é um movimento formado de cima para baixo, isto é, foi formado por ONGs e não pelos camponeses. Nesse sentido, Amaro (2015) afirma que
(AMARO, 2015). Essa situação apresentada por Amaro, pode ser traduzida pelas palavras de Freire (1985, p. 26):
O primeiro atua, os segundos têm a ilusão de que atuam na atuação do primeiro; este diz a palavra, os segundos, proibidos de dizer a sua, escutam a palavra do primeiro. O invasor pensa, na melhor das hipóteses, sôbre os segundos, jamais
são pacientes da prescrição. (FREIRE, 1985, p. 27)
Ressalta-se que a formação da UNAER esteve envolvida, também, por uma Organização não-governamental (KSI), porém a demanda da luta pela terra e para a necessidade de formação de um movimento, veio dos próprios agricultores. O papel do KSI surgiu mais especificamente no sentido de desenvolver a Educação Popular ligada àquele movimento.
Apesar disso, há uma busca de apoios, pois há limitações (SILVA, 2015). Nesse sentido, o principal apoio almejado pelos envolvidos na formação da escola, seria a parceria com o governo da RDTL, com o intuito de institucionalizar a escola. Essa ligação com o governo se daria através da UNTL, sendo então a EEPFS uma vertente da universidade, porém como escola do campo.
Assim, realiza-se trabalho conjunto com UNTL, Centro de Estudos para a Paz (Peace Center), para depois poder dar igual legalização do Instituto Fulidaidai como escola institucionalizada como parte da UNTL. Em processo, se têm o Maun Antero para compreender a questão da legislação e se têm o intuito de legalização do instituto, levando em conta o trabalho conjunto, cooperativo com UNTL para depois o processo poder caminhar muito bem. Mas, tudo isso, ainda está em processo, Maun Antero está a fazer grande trabalho para ter ligação com UNTL para futuro poder arranjar-se como tal, em trabalho conjunto, sendo uma parceria forte para o futuro. (LEO, 2015)
Assim, o mesmo entrevistado acrescenta que esse é um desafio
legalização perante o governo, com o próprio Estado. (...) Não significa que será parte da
(LEO, 2015). Também, destaca a importância de que a escola tenha uma sustentabilidade de
apoios, de forma consistente e que seja condizente com os ideais da EEPFS:
Agora, para futuro, pensamos na sustentabilidade com apoio de parte de instituições do governo e também outras agências de apoio para poder existir,
considerando os limites e desafios que se têm, para depois a escola poder se (LEO, 2015)
Outro plano para o futuro é uma ligação mais substancial da UNAER com outros camponeses de outras localidades do país, isto é,
distritos e depois juntar. Agora temos 3 integrantes junto a UNAER: Ermera, Liquiçá e Díli
(ALBERTO, 2015). Assim,
Alberto, ele já foi para Baucau, depois Ainaro, depois Aileu, com o intuito de desenvolver as bases para futuramente haver um movimento nacional. Não precisa ter 10 distritos. Se já tivermos 5 ou 6 distritos, já dá pra começarmos. Vai ser uma organização nacional e, não distrital. (AMARO, 2015)
Além disso, busca-se também apoios externos à Timor-Leste, como uma maior parceria com movimentos de luta pela reforma agrária no Brasil (MST), Vietnã e Indonésia, pois
tem apoio e solidariedade de companheiros da indonésia, Brasil, Vietnã, cooperação do Brasil
(MIRO, 2015). Em outras palavras, Silva (2015) afirma que, os
(...) camponeses serão bem mais fortes se eles tiverem solidariedade fora da sua região com outros camponeses como fonte de cooperação e solidariedade. Os camponeses com isto, precisam ser abertos, claro que, com as pessoas e organizações que tem semelhante espiritualidade.195(SILVA, 2015)
Nesse sentido Silva, relembra que,
(...) em 2003, eu recomendei que um camponês chamado Tomás, do distrito de Ermera, da mesma zona que eu falei anteriormente, em Lequici. (...) Ele foi lá com o MST, Movimento dos Sem-Terra (...). Foi cooperação entre um Instituto chamado Lao Hamutuk196 e Movimento dos Sem-Terra, e o Tomás foi o
representante do Kdadalak Sulimutuk Instituto e do camponeses, em 2003 ou 2004. (SILVA, 2015).
Portanto, os desafios presentes na construção da Escola de Educação Popular Fulidaidai- Slulu, perpassam pela escassez de apoios, resultando muitas vezes na insustentabilidade da escola em relação ao corpo docente e a questão financeira, uma vez que não há fundos capazes de garantir a gestão da escola. Contudo, destaca-se que essa grande necessidade de apoios deve ser suprida com sujeitos caminhem no mesmo sentido da economia solidária realizada em Timor.
195ONGs e outros grupos que possuem a mesma mentalidade com o intuito da Reforma Agrária. 196ONG Lao Hamutuk, ligado a HASATIL.