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O diabetes, com sua crescente prevalência, tem se caracterizado, nos cenários internacional e nacional, como uma grande preocupação por parte das organizações de saúde, em consequência dos transtornos advindos com suas complicações, incluindo-se os gastos públicos. Tal realidade tem impulsionado governos e sistemas de saúde a modificarem seus modelos assistenciais, buscando novas estratégias capazes de atender, de forma mais eficaz e resolutiva, às necessidades das pessoas com diabetes. Entre essas estratégias, a reorganização do cuidado em forma de Rede de Atenção à Saúde tem sido apontada como a mais adequada para garantir a integralidade do cuidado e dos serviços e ações de saúde. Para isso, deve estar estruturada em um modelo de atenção à saúde coerente com tais propósitos.

No âmbito das doenças crônicas, o modelo que tem sido adotado como o mais apropriado denomina-se Modelo de Atenção Crônica (MAC), centrado, prioritariamente, em interações produtivas que permitem desenvolver pessoas informadas e empoderadas e equipe de saúde preparada e proativa para a obtenção de melhores resultados sanitários e funcionais para a população.

Como participante dessa equipe de saúde, o enfermeiro assume papel fundamental por estar na linha de frente da prática. Isso requer conhecimentos, habilidades e atitudes direcionadas para a organização e planejamento de práticas voltadas para o cuidado “empoderador”.

Considerando-se tais aspectos, o processo de estruturação desse subconjunto, no sentido de fazê-lo representar um referencial de cuidado na ótica da integralidade para a pessoa com diabetes na Atenção Especializada, demandou uma atividade complexa, em que, em alguns momentos, enfrentou apreensões, dificuldades e algumas limitações.

Num primeiro momento, a apreensão foi vivenciada ao perceber que o processo de trabalho da Enfermagem do Ambulatório de Endocrinologia do HULW/UFPB, cenário de prática selecionado para a utilização desse subconjunto, estava subsidiada numa prática desarticulada, não sistematizada, que se contrapunha ao enfoque do subconjunto, o qual foi estruturado nas bases empíricas da Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Horta e no Modelo de Atenção Crônica, ambos voltados para uma prática de enfermagem sustentada na Sistematização da Assistência de Enfermagem.

Convém enfatizar que, logo em seguida, essa apreensão foi substituída por esperança, tendo em vista que, no novo modelo de gestão do referido hospital, a retomada da SAE, em todos os ambientes clínicos, está sendo uma das ações prioritárias da atual Divisão de

Enfermagem. Esse processo já foi iniciado com reuniões e discussões sobre a uniformização da modelagem dos instrumentos para apoiar as etapas do processo de enfermagem e a adoção da CIPE® como terminologia de enfermagem de referência para o cuidado e a documentação da prática.

Num segundo momento, a etapa de identificação de termos e conceitos relevantes para a pessoa com diabetes foi um processo de difícil operacionalização por parte do Setor de Arquivo Médico e Estatístico do hospital, devido a normas internas de apenas disponibilizar cinco prontuários por dia, o que ocasiona uma demanda de dias para efetivar quantitativamente a amostra de 134 prontuários. Outros problemas vivenciados foi a ausência dos prontuários selecionados no referido setor, no momento da coleta, como também a ausência de registros de enfermagem em alguns deles, ocasionando a necessidade de retomar novos números de prontuários das listas de atendimento do Ambulatório de Endocrinologia no setor de faturamento, além do tempo despendido para digitar todos os registros de enfermagem no processo de transcrições desses prontuários, pelo fato de esses registros serem feitos de forma manual. Em consequência, o tempo para concretizar essa primeira etapa extrapolou o previsto, o que resultou na inviabilização da etapa de definição dos termos previamente proposta.

Em contrapartida, a identificação desses termos e conceitos relevantes para a pessoa com diabetes possibilitou a construção do Banco de Termos da Linguagem Especial de Enfermagem para a pessoa com diabetes, instrumento terminológico de grande relevância para que os exercentes da Enfermagem que assistem essa clientela reconheçam sua própria linguagem da prática profissional, além de ter outros benefícios, como uniformizar essa linguagem e permitir a composição de enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem além dos incluídos nesse subconjunto.

Outro aspecto observado foi que, dos 343 termos que compuseram o Banco de Termos da Linguagem Especial de Enfermagem para a pessoa com diabetes, foi constatado que 213 constavam na CIPE® Versão 2011, evidenciando a utilização de termos de sistemas de classificação na prática de enfermagem. Verificou-se também que os 130 termos não constantes poderão subsidiar novas pesquisas de validação para sua posterior inserção nessa Classificação.

Enfatizando-se agora a etapa de construção dos enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem, ela se destaca como uma das atividades mais complexas e desafiantes para a Enfermagem, pelo fato de ser um processo de pensamento e de tomada de decisões clínicas em uma perspectiva integral para a prática clínica, em que se exigem do

profissional habilidades e competências para identificar situações que demandam atendimento de enfermagem na seleção de ações necessárias para esse atendimento, para o alcance de resultados de saúde pelos quais a enfermeira é responsável. Esse processo, por sua vez, é concluído com a denominação da inferência do profissional sobre a situação identificada, que pode ser rotulada pelas terminologias de enfermagem.

Nesta pesquisa, esse processo foi desencadeado por uma sucessão de etapas, algumas marcadas por elementos limitadores, a começar pela construção dos enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem que devem refletir as necessidades das pessoas com diabetes no cenário da atenção especializada. Como essa construção, nesta pesquisa, teve como bases empíricas o banco de termos da linguagem especial de enfermagem para a pessoa com diabetes, a CIPE® Versão 2011, a ISO 18.104 e o Modelo de Atenção Crônica, ressalta-se que determinadas situações clínicas pertinentes a essa clientela podem não ter sido contempladas nesse subconjunto. Convém destacar que os enunciados de diagnósticos de enfermagem contemplados não esgotam o domínio dessa prioridade de saúde. Um aspecto a ser destacado como reflexos dessa construção refere-se ao mapeamento cruzado dos enunciados de diagnósticos de enfermagem construídos e os conceitos existentes na CIPE® Versão 2011, os quais evidenciaram que, dos 115 enunciados de diagnósticos construídos, 59 (51%) correspondem a conceitos existentes na CIPE® Versão 2011, portanto, o uso dessa terminologia é adequado para apoiar o processo de tomada de decisão na assistência dessa clientela, como também na possibilidade de contribuir para o seu fortalecimento, através de futuras pesquisas que envolvam estudos de validação dos conceitos novos identificados.

Outro aspecto importante a ser ressaltado nessa etapa, em consonância com a literatura de Enfermagem, foi a dificuldade de realizar os processos de validação do conjunto de enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem constituintes do subconjunto, visto que os modelos metodológicos de validação prevalentes na prática clínica de enfermagem têm exigido uma gama de critérios de seleção dos enfermeiros especialistas. Nesta pesquisa, essa dificuldade foi refletida desde o momento de seleção desse grupo, que implica depender de profissionais com perfil cada vez mais restrito, muitas vezes engajados em inúmeras atividades relacionadas ao domínio da clientela selecionada, razão por que não dispõe de tempo para participar desses processos de validação e, em que, muitas vezes, essa participação não acontece de forma engajada nem reproduz a resposta correspondente ao seu perfil profissional, o que, de certa forma, implica o prejuízo da acurácia pretendida, aliado ao tempo que é dispendido para concretizar esses processos.

Diante do exposto, apesar dos fatores limitadores expostos, de certa forma já esperados por ser um trabalho metodológico de alta complexidade, considera-se que os objetivos propostos foram atendidos, por ter se conseguido estruturar uma proposta de Subconjunto Terminológico da CIPE® para a pessoa com diabetes na atenção especializada, desempenhando sua função de denominação e desenvolvimento do foco de atenção da prática de enfermagem nessa prioridade de saúde.

Esse Subconjunto Terminológico da CIPE® para a pessoa com diabetes na atenção especializada está inserido no Centro CIPE®-PPGENF-UFPB, vinculado ao projeto de pesquisa “Subconjuntos Terminológicos da CIPE® para áreas de especialidades clínicas e da

atenção básica em saúde”. Em consonância com o ciclo de vida da terminologia CIPE®, esses

trabalhos são classificados como atividade desenvolvida no componente “Pesquisa e desenvolvimento”.

Entre os Catálogos/Subconjuntos da CIPE® já desenvolvidos e em desenvolvimento pelo Conselho Internacional de Enfermeiros, não há menção sobre essa prioridade de saúde, o que implica a possibilidade de seus desdobramentos na área assistencial, pela utilização do Banco de Termos da Linguagem Especial de Enfermagem para a pessoa com diabetes e desse subconjunto na operacionalização da SAE nos setores de atendimento a essa clientela; na pesquisa, por meio de estudos de elaboração de definição teórica para os termos não constantes, estudos de validação dos termos não constantes no banco de termos referido anteriormente, estudos de validação clínica dos enunciados de diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem e estruturação de software para informatização da SAE no Ambulatório de Endocrinologia, no ensino, por meio da aplicabilidade teórico-prática dos alunos da Graduação, durante os estágios práticos, nas atividades da SAE nos setores do hospital que atendam a essa clientela.

Então, concretizar essa proposta de subconjunto representa uma satisfação alcançada como pesquisadora e enfermeira assistencial, no sentido de ter contribuído com a prática de enfermagem para essa clientela, favorecendo a evidência dos elementos da prática (diagnósticos, resultados e intervenções) e, consequentemente, a visibilidade das competências e das atividades da prática do enfermeiro na atenção às doenças crônicas.

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