Conforme já explicitado, o eixo dessa pesquisa basicamente é a escala do território, por se dedicar a desvelar especificamente os desdobramentos da prática do turismo no Distrito de Gardênia. Porém, cabe ressaltar que haverá uma constante interlocução com outras escalas, considerando que o território, na atualidade, recebe influência e é reflexo de dinâmicas externas a sua circunscrição.
Segundo Massey (2000), para pensar o lugar hoje deve-se considerar o conjunto de relações que se realizam e se incorporam num lócus externo a ele, mas que dessa gama de intersecções mantém sua especificidade. Assim, para a autora (2000, p. 184),
em vez de pensar os lugares como áreas com fronteiras ao redor, pode-se imaginá-los como momentos articulados em redes de relações e entendimentos sociais, de movimentos e comunicações na mente, então, cada lugar pode ser visto como um ponto particular, único dessa intersecção.
Portanto, em consonância com Massey, é coerente supor os lugares como lócus de interações sociais, que transpõem fronteiras, ao invés de delimitá-los apenas, o que,
“por sua vez, permite um sentido do lugar que é extrovertido, que inclui uma
consciência de suas ligações com o mundo mais amplo, que integra de forma positiva o
global e o local” (MASSEY, 2000, p. 184). Diante do exposto, destacamos que a escala
do lugar foi delimitada para fins de estudo apenas, pois ratificamos que haverá um constante diálogo entre as múltiplas interconexões que influenciam as dimensões socioespaciais locais.
Nesse âmbito, Santos (1996) atesta que, sob a influência da globalização, o lugar deve ser apreendido como interconectado com outras escalas, que, por seu dinamismo, cria e recria relações sociais instáveis. Entretanto, o autor ressalta que
as próprias necessidades do novo regime de acumulação levam a uma maior dissociação dos
respectivos processos e subprocessos, essa multiplicidade de ações fazendo do espaço um campo de forças multicomplexo, graças a individualização e especialização minuciosa dos elementos do espaço: homens, empresas, instituições, meio ambiente construído, ao mesmo tempo em que se aprofunda as relações de cada qual com o sistema do mundo. (SANTOS, 1996, p. 252).
Nessa dinâmica em que os espaços são requalificados constantemente, Moesch elucida que
a noção humanística de sujeito é, simultaneamente, subjetiva e biológica. Humanista, pois é qualidade própria do ser vivo buscar sua auto-organização, como pertencente a uma espécie situada no tempo e no espaço, membro de uma sociedade ou grupo. (MOESCH, 2002, p. 40).
Assim, para compreendermos a espacialidade dos sujeitos é essencial considerar o contexto hodierno do objeto. Esses sujeitos sociais (alunos, professores e moradores locais) não se encontram limitados em seu território, pois, como verificado por Souza (2012), sobretudo no que se refere ao objeto, desde meados da década de 1990 tem-se experimentado novas relações6.
Igualmente, estão sujeitos são influenciados por relações e elementos externos ao Distrito, como os visitantes/turistas que frequentam e/ou que estabelecem suas residências temporárias nesse espaço requalificado, as instituições e seus representantes (igreja, prefeitura), assim como os agentes imobiliários.
As transformações ocorridas a partir da década de 1950, influenciadas por fatores socioeconômicos como o processo de modernização da agricultura, as mudanças trabalhistas, a crescente urbanização/industrialização, foram cruciais para alterar as relações entre campo e cidade (HESPANHOL, A.; HESPANHOL, R. 2006). Esse contexto possibilitou o reconhecimento do caráter multifuncional do meio rural, que passou a desenvolver outras atividades não-agrícolas, como moradia, lazer, etc. (SILVA, 1999).
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De acordo com Souza (2012) em meados da década de 1990 foram estabelecidas as primeiras diretrizes orçamentárias referentes à formulação de projetos turísticos para a exploração das potencialidades paisagísticas e culturais doDistrito de Gardênia, iniciando-se assim a implantação dos primeiros pesqueiros, ranchos e condomínios de segundas residências. Desse modo, ratifica a autora (2012) que se configurou em novos usos e a apropriação do espaço.
Desse modo, Souza (2012) constatou que, assim como em outras escalas geográficas, essas novas dinâmicas também abrangeram o Distrito de Gardênia, que, conjuntamente com a mescla de elementos urbanos no meio rural, requalificaram o espaço. Esse fato vem corroborar que não apenas as novas interações sociais em iminência influenciam os sujeitos locais, como também que os novos elementos que são fixados constantemente, ou até mesmo os que recebem um novo uso, contribuem para que suas espacialidades cotidianas sejam alteradas.
Souza (2010) concorda que a mudança do espaço social consequentemente modifica o fulcro das relações sociais, sendo, pois, coerente apreendê-las como mudanças socioespaciais. Concepção esta adotada por Souza (2012) que observou os rebatimentos do uso e a apropriação do espaço pela prática do turismo no Distrito de Gardênia, tanto na dimensão social, que teve suas práticas espaciais cotidianas modificadas, como na dimensão espacial, que recebe novos substratos materiais
(Figura 2).
Figura 2: Distrito de Gardênia, área de pesqueiro no meio rural.
Fonte: Souza (2014).
Nesse sentido, Santos (1996) discute a questão da relevância do cotidiano para a compreensão do conteúdo geográfico que simultaneamente é condicionante de ações que o ressignificam, mas que mantém sua própria identidade. Nesse âmbito, o espaço,
objeto das inter-relações, produto das interações, estando, pois, continuamente se modificando, não se dá por acabado (MASSEY, 2004).
Por conseguinte, Massey (2000) explica que, diante do intenso movimento na produção do espaço, é recorrente a imprecisão sobre a definição de lugar, bem como a forma de se relacionar com o mesmo. Então, para compreender a relação espaço-tempo, deve-se levar em consideração o que determina os níveis de mobilidade e, assim, conjuntamente, o que interfere na percepção que se tem sobre o lugar. Desse modo, há o entendimento recorrente de que essa condição de mobilidade ou fixidez depende
profundamente da atuação do capital “que, segundo essa interpretação, é o tempo-
espaço e o dinheiro que fazem o mundo girar e nós giramos ou não em torno do mundo. Sustenta-se que é o capital e seu desenvolvimento que determina nossa compreensão e
nossa experiência do espaço”. (MASSEY, 2000, p. 178). Porém, a autora ressalva que
há muitos outros elementos que dificultam as interações, como raça e gênero, necessitando-se assim serem avaliados.
Desse modo, Souza (2012) verificou que a mobilidade no Distrito, no sentido prático, físico, de permitir o livre deslocamento para lugares que os moradores locais desejarem, é limitada, já que, com meios de consumo coletivos ínfimos (transporte coletivo), oferecem poucas oportunidades de interações espaciais, restringindo-se à sede do município e a outros dois Municípios vizinhos (Iepê e Paraguaçu Paulista) apenas. Essa condição, reitera a autora (2012) baseando-se em Massey (2000), reflete uma espacialidade diferenciada, em que a condição financeira irá determinar o nível de abrangência dessas interconexões, acentuando ainda mais as desigualdades, pois há uma parte dos moradores que buscam o serviço terceirizado (táxi) para se deslocarem para outros lugares fora da rota dos transportes coletivos.
Essa condição, em consonância com Massey (2000), vem corroborar que a maneira como os sujeitos são colocados dentro da compressão espaço-tempo são complexas e bastante diversas, e requer, por sinal, uma atitude política, ou melhor, uma política da espacialidade.
Diante desse prenúncio, é preciso analisar quem são os indivíduos e o papel que desempenham em relação a esses processos, como, por exemplo, se são coadjuvantes, meros espectadores, movimentam-se apenas, ou até que ponto eles são responsáveis ou receptores apenas (MASSEY, 2000).
Massey (2002) acrescenta que, nessa dinâmica, há uma grande parte de indivíduos que tem um elevado movimento físico, como os migrantes que,
constantemente, deslocam-se em busca de melhores condições de vida, mas que não têm responsabilidade nesse processo.
Assim, cabe-nos analisar como os sujeitos locais se manifestam frente a esses novos processos perante seu próprio cotidiano, cultura, e, conjuntamente, se há indícios de alguma resistência na busca por preservar a identidade de seu lugar. É nesse sentido que reforçamos a necessidade de uma reflexão sobre a questão do lugar num recorte espacial pouco debatido e que outrora tinha um sentido de comunidade diferente, mais homogêneo, e que vivencia, como explicitado, novas dinâmicas.
Para isso, vale frisar que na busca da compreensão e construção do objeto haverá um contínuo processo de reflexão e análise subsidiado pela interlocução com a bibliografia, da interação com os sujeitos, de seu próprio histórico de formação, bem como com a condição que ocupa na modernidade.