5. Analyse
5.3 Læringsutbytte
5.3.4 Diskusjon
Como nosso objeto de estudo não é o gênero carta, sendo esta apenas nosso material de pesquisa, não vamos explorar exaustivamente a funcionalidade desse gênero. Todavia, faz-se necessário delinear alguns de seus aspectos principais, para que possamos ter uma melhor percepção do funcionamento desse gênero e, assim, explorarmos com mais precisão o nosso corpus. Dessa forma, para uma melhor compreensão da carta pessoal, vamos apresentar, de forma sucinta, algumas de suas características. Para conceituar o gênero, partiremos de Bakhtin
(2003, p. 262) para quem existem “tipos relativamente estáveis de enunciados”, os quais ele denomina de “gêneros do discurso”.
Para Bakhtin (op.cit.), o emprego da língua se efetiva por meio de enunciados concretos que refletem as condições específicas e as finalidades dos integrantes da atividade de comunicação em dadas esferas de atuação humana. Esses enunciados se caracterizam por apresentarem um conteúdo temático, pelo estilo da linguagem e por sua construção composicional, elementos indissociáveis em sua constituição. Todo nosso discurso é moldado em forma de gêneros, ou seja, falamos apenas por intermédio de determinados gêneros que organizam nosso discurso. Se não existissem os gêneros do discurso, a comunicação verbal seria quase impossível (cf. BAKHTIN, 2003), porque o discurso só pode existir na forma de enunciados concretos de determinados sujeitos em uma situação concreta de comunicação. É assim que todo nosso discurso é moldado por determinadas formas de gênero, ora mais padronizadas, ora mais flexíveis e criativas.
Na perspectiva bakhtiniana, os gêneros são tipos relativamente estáveis de enunciados presentes na comunicação interativa; caracterizam-se por apresentar uma forma de composição e se distinguem pelo conteúdo temático e estilo composicional. São escolhidos de acordo com a situação de comunicação, o conjunto dos participantes e a intenção do sujeito dos enunciados – unidades reais e concretas da comunicação verbal. Dessa forma, todo gênero combina, indissoluvelmente, conteúdo temático, propósito comunicativo, estilo e composição. Nesse sentido, Koch e Elias (2006), com base nos estudos bakhtinianos, definem os gêneros textuais como práticas sociocomunicativas constituídas de determinado modo, com uma certa função, em dadas esferas de atuação humana, o que nos possibilita reconhecê-los e produzi-los sempre que necessário.
Para Bakhtin (op. cit.), cuja abordagem repousa na sua concepção dialógica da linguagem, os gêneros decorrem das diferentes esferas de atividade humana. Assim, eles estão diretamente associados às atividades que desenvolvemos. Desse modo, quando surgem novas atividades humanas, surgem novos gêneros, ou seja, novas atividades geram novos gêneros. Um exemplo disso são os gêneros e-mail e blog surgidos com o advento da internet.
Bakhtin distingue os gêneros discursivos de acordo com a relação da atividade verbal com a realidade. Assim, ele os classifica em gêneros primários
(simples), que se formam nas condições de comunicação discursiva imediata e gêneros secundários (complexos), que surgem em um convívio cultural mais complexo, desenvolvido e organizado. Nesse sentido, os gêneros primários são aqueles diretamente ligados à vida cotidiana do homem, à sua realidade empírica. Já os secundários são aqueles mais distantes da realidade, da vida cotidiana, uma vez que apresentam construção mais elaborada e maior complexidade temática.
Silva (1997) classifica os gêneros por meio de critérios funcionais do âmbito do discurso, pois se referem ao uso das estruturas discursivas da língua em situações reais de comunicação. São unidades comunicativas bem delimitadas que ocorrem em contextos específicos – instâncias de uso dessas estruturas, as quais aparecem sob organizações típicas – e estão associadas às diversas atividades que desenvolvemos. A autora também considera a possibilidade de examinar as unidades discursivas numa perspectiva funcional-interativa que leve em conta a função, propósito comunicativo com que são empregadas e os eventos comunicativos a que se associam.
Postas essas considerações, passemos a tratar especificamente da carta pessoal, como uma espécie de gênero de discurso resultante do processo de interação a distância entre dois indivíduos em situação concreta de comunicação por escrito.
Entendemos que a carta é um gênero de discurso, uma vez que é um “tipo relativamente estável” em relação ao conteúdo, estilo e forma de composição. É o produto de uma atividade de comunicação, por escrito, de algo a alguém, em determinadas condições. Bakhtin (2003, p. 262), chamando a atenção para a heterogeneidade dos gêneros de discurso, inclui a carta como uma dessas formas.
Cabe salientar em especial a extrema heterogeneidade dos gêneros de discursos (orais e escritos) nos quais devemos incluir as breves réplicas do diálogo do cotidiano (saliente-se que a diversidade das modalidades de diálogo cotidiano é extraordinariamente grande em função do seu tema, da situação e da composição dos participantes), o relato do dia-a-dia, a carta (em todas as suas diversas formas) [...] (grifo nosso).
A carta pessoal, de que estamos tratando aqui, é, portanto, uma das diversas formas do gênero carta. É uma unidade linguística bem delimitada, com organização típica, ocorre em contextos específicos, em situações reais de comunicação e está associada a uma determinada atividade humana (cf. SILVA, 1997). A carta é, segundo Silva, uma unidade comunicativa pertencente ao nível da concretização das estruturas de informação sob uma organização típica, para uso em contextos específicos. Ou seja, é uma unidade funcional da língua empregada quando da ausência de contato imediato entre emissor e destinatário. A autora considera o gênero complexo, uma vez que no corpo da carta é possível qualquer tipo de comunicação: “[...] desde as vantagens de um determinado cartão de crédito até informações sobre o condomínio, passando pelas esperadas novidades do amigo que mora no exterior.” (SILVA, 1997, p.121). Isso remete ao fato de que a carta, em função do seu papel na interação social, pode estar relacionada a diferentes campos de atividades, como a propaganda, os negócios, a correspondência pessoal. Essas categorias, segundo a autora, definem em que atividades os participantes estão engajados e podem, portanto, ser tratadas como subgêneros do gênero carta. Nesse sentido, classificações como carta de amor, carta comercial, carta empresarial remetem aos diversos campos de atividades em que a correspondência assume papel importante (cf. SILVA, 1997).
São essas várias funções a que está associada que fazem da carta um gênero flexível. Bazerman (2005) observa que a carta é um meio flexível no qual muitas das funções, relações e práticas institucionais podem se desenvolver, permitindo que a forma de comunicação caminhe em novas direções. Essa flexibilidade pode estabelecer e elaborar situações comunicativas. Segundo o autor, por meio da carta laços sociais entre os indivíduos podem ser reforçados ou até criados mediante relações indiretas com outras pessoas, como no caso das cartas de recomendação.
Por se tratar de um gênero maleável, a carta constitui um espaço aberto que pode abrigar diferentes transações e se associar a diferentes relações sociais. Essas transações e relações se mostram para o leitor e o escritor por meio das saudações, das assinaturas e dos conteúdos da carta. As cartas também podem, como observa Bazerman (2005), revelar de forma explícita a relação entre os indivíduos e a natureza da transação que está ocorrendo. Segundo o autor, quanto
mais temas e transações se inserirem na carta, mais o gênero em si se expande e se especializa.
Numa perspectiva funcional-interativa (cf. SILVA, 1997), a carta pode ser classificada pelo seu propósito comunicativo e pela intenção do emissor ao escrevê-
la. Dessa forma, na esfera das cartas pessoais, podem-se estabelecer categorias que se relacionam a esse propósito ou função comunicativa, como pedido, convite, agradecimento, informação entre outras. Entretanto, estabelecer qual é o propósito ou função comunicativa de uma carta pessoal, segundo Silva (Op. cit.), não é tarefa simples (cf. SILVA, 1997).
Em harmonia com o estudo de Silva, com o qual vimos nos orientando, Leite (2009, p. 118) propõe um modelo de análise para a carta pessoal baseado nos seguintes pontos: a carta pessoal é a) a realização concreta (um enunciado) que obedece às injunções do gênero discursivo carta; b) organizada a partir dos modos
do discurso narrativo, descritivo e dissertativo/ argumentativo; c) híbrida quanto à modalidade de língua, já que, apesar de escrita, apresenta marcas de oralidade; d) híbrida quanto ao registro ou nível de linguagem, pois tanto apresenta marcas de informalidade quanto de formalidade, e se realiza por meio de uma linguagem comum; e) indefinida quanto à norma linguística, pois é um gênero que aceita qualquer norma, a depender das possibilidades do usuário.
Leite (op.cit., p. 119) traça as características da carta pessoal com base nos elementos da constituição dos gêneros apontados por Bakhtin (2003). Dessa forma, em conformidade com Silva (1997), ela destaca os seguintes traços da carta pessoal: a) quanto à motivação: necessidade de transmitir, por escrito, uma mensagem a um sujeito, com quem se mantém, em geral, relações de informalidade; b) quanto ao conteúdo: temas pessoais, privados; c) quanto ao estilo: apresenta, dentre outros traços, menor rigor na organização sintática das frases, seleção lexical variada, com gírias e expressões populares, realizada em norma culta ou popular; d) quanto à composição: menor obediência aos princípios da linguagem escrita, texto com marcas de oralidade, apresentando estrutura padrão, como data, vocativo, núcleo, despedida e assinatura. Partindo dessas características, a autora chega à seguinte definição da carta pessoal:
[...] é uma unidade comunicativa que existe para que sujeitos conhecidos entre si possam trocar mensagens de caráter privado/pessoal, por meio da modalidade escrita da língua, que pode estar carregada de marcas de oralidade, em norma culta ou popular, e, predominantemente, em registro comum, coloquial. (LEITE, 2009, p.120).
Essa concepção remete à flexibilidade da carta postulada por Bazerman (op. cit.). Essa flexibilidade permite que novos usos se tornem inteligíveis, permitindo, assim, a emergência de novos gêneros. É isso que o autor postula ao tratar dos efeitos do advento da impressão para a escrita:
A carta em várias instâncias parece ter servido como uma forma transitória para permitir a emergência de gêneros com uma função comunicativa definida e com amarras sociais. Pelo menos três principais tipos de escrita que floresceram na cultura impressa parecem ter alguma conexão com a carta: o jornal, a revista científica e o romance. (2005, p. 93).
Segundo Bazerman (op. cit.), as cartas, inicialmente de usos formais e oficiais, evoluíram para incluir expressões pessoais e posteriormente mensagens particulares. A manutenção e ampliação dos laços sociais conduziram as relações estabelecidas através das cartas para além do formal e do oficial, convergindo em direção ao nível pessoal.
As cartas, a despeito de serem tão abertamente ligadas às relações sociais e a escritores e leitores particulares (cf. BAZERMAN, 2005), constituem um gênero complexo, pois não corporificam, conforme observa Silva (op. cit.), um tipo específico de estrutura, podendo apresentar sequências narrativas, descritivas, argumentativas e dialógicas numa mesma unidade discursiva. Ademais, não há uma predominância de alguma estrutura discursiva, a carta pode apresentar todos os tipos básicos de estruturas. Isso leva Silva a postular que o propósito a que se destina pode ser, talvez, o critério mais razoável para categorizar o gênero, como carta de pedido, de cumprimentos, de conselho, de envolvimento etc. (cf. SILVA, 1997).
Em harmonia com Séneca (2006), podemos incluir a carta no domínio discursivo do gênero epistolar. O autor se reporta aos diferentes tipos de epístolas
encontradas na literatura latina, como carta privada, carta pública, carta oficial, carta aberta, carta doutrinária ou científica, carta proêmio ou de dedicatória, carta poética. As cartas privadas têm determinadas características, como “[...] destinatários determinados e assuntos compreensíveis somente para aqueles a quem se dirigem. Surgem a partir de uma situação concreta e são breves [...]” (SÉNECA, 2006, p. 12). Já as cartas públicas, segundo o autor, eram destinadas a um público mais amplo; deviam ter forma mais cuidada e conteúdo mais geral. Nelas não há segredos nem intimidades, o aspecto pessoal é deixado de lado e o nome do destinatário é dispensável.
Quanto ao nosso corpus, convém definir em que tipo de carta se classifica, se pública ou privada. As cartas, de que nos ocupamos, apresentam destinatários específicos: Câmara Cascudo escreve a Mário de Andrade e vice- versa. Portanto, são cartas da esfera privada. Essa também é a posição de Galvão e Silva (2012) que investigam o envolvimento interacional nessas cartas. Assim, entendemos que, embora tenham se tornado públicas, são cartas privadas, já que o seu objetivo primeiro não foi a publicidade, pelo menos ao que nos parece. Todavia, não podemos deixar passar algumas indagações que podem ser feitas por aqueles de espíritos mais céticos: Será que Mário de Andrade nem de longe desconfiava que escrevendo ao “Cascudinho” não teria como interlocutor a posteridade?
Outra pergunta que pode surgir em relação aos textos por nós analisados diz respeito ao conteúdo: seriam cartas literárias, já que foram escritas por dois grandes nomes da literatura brasileira? Sobre esse aspecto, vamos buscar respaldo em Séneca (2006, p.14), para quem a carta, dependendo da situação, pode ser considerada literatura, porque “[...] medeia uma situação e também faz uma encenação através de um discurso que não é aquele do ensaio, do romance nem da poesia.”. Voltando à correspondência entre Mario de Andrade e Câmara Cascudo, convém ressaltar que não é nosso propósito neste trabalho fazer uma análise do gênero em si, como já deixamos claro. Interessa dizer que são textos bastante heterogêneos em relação à linguagem e a outros aspectos, apresentam traços de oralidade, linguagem ora formal, ora informal, torneios literários, e alguns trazem em seu interior a descrição de poemas inteiros, caracterizando o fenômeno da intergenericidade. Os textos ora analisados são marcados também pela heterogeneidade tipológica, apresentando sequências diferenciadas – sequências
narrativas, descritivas, injuntivas – o que os caracteriza como estruturas sequenciais heterogêneas.