2 Del 1 – Egen screening
2.5 Diskusjon
Nos serviços de atendimento de urgência, tanto no seu componente fixo como no móvel, impera o modelo da clínica reducionista no qual a objetividade, o controle do tempo e a prática de ações protocoladas são os fundamentos da assistência prestada. Nesse sentido, o atendimento as urgências psiquiátricas compreende tudo aquilo que a emergência clínica procura se eximir, conforme já destacamos. Esse tipo de assistência remete a outra ordem de complexidade que precisa do pensamento criativo e questiona a posição dominante do médico (JARDIM, 2008).
Os conflitos gerados pela percepção dessas peculiaridades e, consequentemente, as diferenças no caráter do atendimento fazem com que os profissionais compreendam que as urgências psiquiátricas não deveriam ser responsabilidade do SAMU.
Na verdade eu sempre fui contra o SAMU atender esse tipo de chamado. Eu acho que deveria existir um setor no hospital psiquiátrico aqbui de Natal responsável por isso (Entrevistado 2).
Na realidade, ao meu ver, eu acho que deveria haver um serviço só voltado pra esse tipo de ocorrência... Eu acho que é muito específico isso aí, eu acho que tinha que ter um serviço só montado pra esse tipo de ocorrência (Entrevistado 8).
Tem dois casos: primeiro eu acho que o SAMU não deveria fazer esse serviço, segundo eu acho que deveria ser a polícia militar (Entrevistado 13).
Na defesa pela desresponsabilização do SAMU com a atenção às crises psíquicas, os profissionais apontaram o hospital psiquiátrico e a polícia militar como os responsáveis por atender esse tipo de demanda. Ambas as instituições apontadas não podem assumir a
referência para realizar esse tipo de atendimento, pois a Reforma Psiquiátrica brasileira restringiu, significativamente, os poderes das instituições psiquiátricas hospitalares e aponta em suas discussões, que a doença mental não deve ser criminalizada e, consequentemente, tratada como caso policial. Portanto, essas sugestões são uma afronta às políticas de saúde mental no Brasil.
Na verdade, trata-se de uma tentativa de negar algo que em sua complexidade não se encaixa nos rígidos protocolos de atendimento do SAMU e que, portanto, torna-se um empecilho por trazer grandes dificuldades para os profissionais de saúde formados e capacitados para a um tipo de intervenção reducionista e pautada em procedimentos centrados na lógica linear de causa e efeito. Esse contexto faz com que alguns profissionais resistam a prestar atendimento às urgências psiquiátricas.
Às vezes a gente tem solicitado o apoio dessas motolantes [MIKES] no sentido de apoiar na urgência psiquiátrica, e as vezes o... condutor dessa moto, ele quase se recusa, “eu vou me agarrar com ninguém!” (Entrevistado 1).
Compreendemos as dificuldades desses profissionais, que pelo modo como esse contexto é construído, tornam-se mais vítimas do que vilões dessa realidade. Eles foram formados e treinados para trabalhar em uma perspectiva e, uma situação em particular coloca em xeque todo suporte teórico que norteia sua prática, sem que recebam o devido apoio.
Também esse profissional precisa ser bem assistido também porque o desgaste é grande. Tem que ter interesse por esses profissionais, ninguém nem liga. Não valoriza, chama de doido também! Usando essa palavra totalmente inadequada (Entrevistado 21).
Reiteramos a necessidade de efetivação da educação permanente em saúde e do apoio matricial em saúde mental para que esses profissionais possam compreender a complexidade da situação de crise psíquica e suas possibilidades de intervenção. Para tanto, é preciso que as ações estejam voltadas desde o princípio para o rompimento com o paradigma da clínica de emergência.
Caso não haja intervenções nesse sentido o atendimento às urgências psiquiátricas vai continuar a ser visto como um aborrecimento para o serviço do SAMU. Essa configuração pode contribuir para que a assistência de pessoas em crise psíquica seja negligenciada no SAMU-Natal, fato este, que identificamos abaixo.
Então nós temos, por exemplo, regulado uma urgência em código amarelo de uma urgência psiquiátrica, mas tem um atropelamento, também com código amarelo. O operador de rádio, que não está habilitado pra fazer essa escolha, escolhe mandar quem? O atropelado. Mas muitas vezes esse doente psiquiátrico corre muito mais risco. A nossa rotina é deixar em segundo plano a urgência psiquiátrica, infelizmente a gente não tem atendido de pronto com a mesma presteza às urgências psiquiátricas (Entrevistado 1).
Porque a gente, infelizmente, não tem como priorizar esse tipo de atendimento. Então, as vezes fica fichas aguardando aí uma hora, uma hora e meia, as vezes até mais do que isso (Entrevistado 2).
A gente vê que a maioria dos pacientes tem urgência psiquiátrica, quando você demora muito a chegar lá e acaba não tendo grande problema e nenhuma repercussão. Mas isso já aconteceu, de a gente demorar demais e ter sido problemática essa demora (Entrevistado 19).
Apesar da falta de “repercussão” citada na fala acima, a demora no atendimento para os casos de urgência psiquiátrica pode implicar em riscos sérios para o paciente e sua família. Durante o período de observação realizado na sala de regulação médica ouvimos relatos de um caso que pode exemplificar esse risco: a mãe de um paciente em crise psíquica ligou para o serviço 192 afirmando que o filho queria incendiar a casa; a ambulância foi autorizada pelo médico regulador, porém foi classificada como código verde, ou seja, com última prioridade de atendimento; quando a ambulância chegou ao local o paciente tinha realmente ateado fogo na sala da residência, porém seu ato não feriu ninguém fisicamente, pois o incêndio foi controlado pelos próprios moradores da rua; ao se deparar com essa notícia pelo rádio o médico regulador disse que era difícil prever quando isso ia acontecer realmente e que não podia ter feito nada.
Apesar dos avanços teóricos promovidos pelas discussões da Reforma Psiquiátrica brasileira, incorporados nas políticas de saúde mental vigentes no Brasil, não observamos no SAMU-Natal um avanço em suas práticas, no que se refere à assistência em crise psíquica. Na prática os profissionais não conseguem deixar o controle dos sintomas, dos corpos e das vontades das pessoas diagnosticadas com transtorno mental.
A transformação dessa realidade passa também pelo interesse dos gestores municipais, estaduais e federais do SUS que precisam se aproximar das realidades locais, inteirarem-se sobre seus problemas, agirem de forma resolutiva e integrada no sentido de buscar soluções juntamente com os serviços. Não nos referimos, portanto, a ações ou programas pontuais e verticalizados, mas a um trabalho continuado de suporte e instrumentalização dos profissionais e serviços para o enfrentamento das divergências encontradas na complexidade do atendimento às urgências psiquiátricas.
Como nos aponta Foucault (1972, p. 12) “aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se castelo de nossa consciência”. E é sobre esse “castelo da consciência” que precisamos direcionar nossas forças no sentido de transformar o modo como o transtorno psiquiátrico tem sido assistido não só no SAMU-Natal, mas em toda a rede pública de saúde.