A produção intermediária do grupo B apresentou diversos elementos distintos em relação à produção inicial. Primeiramente, a definição do momento de produção, já que houve
a inserção da data de publicação da notícia, “le 19 juillet 2012”, e a decorrente definição do
tipo de discurso apresentado, como sendo a do relato interativo, principalmente por apresentar diversos marcadores temporais que fizeram referência à data inserida. A presença da data de publicação e a presença desses marcadores são indícios de que os alunos tiveram provável entendimento, a partir das atividades apresentadas, de elementos constituintes do contexto de produção do gênero.
Em relação ao tipo de sequência, houve o estabelecimento de uma tensão desde o primeiro parágrafo do texto, pois não se sabe quem sofre o ato insólito, estabelecido não no
título “Une nouvelle therapie pour les maris ivrogne”, mas no lide “une petite fille (...) a vu sa
thérapeute en jettant un homme par la fênetre”. Somente no decorrer do texto, com os fatos sendo apresentados, soube-se de que se tratava não de um cliente ou de um marido qualquer, mas do marido da própria psicóloga, o que faz o título do texto ganhar um tom irônico, por conta da seriedade do anúncio de uma nova terapia em seu título, mas que na realidade, não se trataria disso; o autor do texto chamou de nova terapia o que a psicóloga fez com seu marido, o que poderia dar margem a outras mulheres em fazerem o mesmo, talvez com uma nova
técnica de “corrigir” uma traição. Houve a inserção do lide, como na produção inicial, mas
não houve o desfecho social, presente naquela.
Quanto à coerência temática, houve maior uso de organizadores temporais, o que talvez possa ser um indício de influência das atividades da SD, sobretudo nessas atividades desenvolvidas até aquele momento, que tiveram o intuito de fazer refletir sobre os elementos relacionados às coerências temática (coesão nominal) e pragmática (modalizações) presentes nos textos. Não havia nesta 2ª.parte da SD exercícios que abordassem o uso de marcadores temporais, mas a partir da observação do emprego deles nos textos, é possível que os alunos fossem influenciados pela atividade de leitura. Vejamos, como a conexão se estabeleceu nos dois textos:
- produção inicial: Entre parágrafos, marcadores : “En mai, 8 de 2012” ,“Alors, le jours avant
réalisait une manifestation(...)” e “Finalment, debruit la manifestation(...)”. Quanto à conexão entre frases no interior dos parágrafos, há uso de marcador temporal: “Pendant la marche, les gendarmes etaient intervenu(...)” e conectores de adição: “Maxime Tartar mérite trois de
prison ferme a Paris et retirer imediatement la publication sur le Facebook”. Há ainda uso de
relativo: “La justice a entendu que cette action Maxime Tartar mérite trois de prison ferme”.
- produção intermediária: Marcadores temporais : Le jeudi dernier, une petite fille formée(...)”, “Mais ce jour –là s’est passé un petit different”, “pendant la nuit antérieure”,
“cependant le matin suivant quand tout a pareçu bien...”, “jusqu’au moment que”, “quand la psicologue lui a ouvri la porte”. Conectivos de oposição, como: “Mais ce jour –là s’est passé un petit different” e “cependant le matin suivant quand tout a pareçu bien...” ;
conectivo de consequência : « il a perdu ses clés donc il est entré par la fenêtre ». No interior das frases, relativo : « jusqu’au moment que sa première cliente du jour, la jeune professeure
de portugué viens d’arriver”.
Em relação à coesão nominal, houve um maior número de referentes para designar os personagens. Na produção inicial, para designar os principais personagens do fato, havia duas maneiras de fazer referência ao rapaz preso, além de seu nome: un jeune étudiant e le garçon, quanto aos policiais também foram usados apenas dois referentes: les gendarmes e les policiers.
Já na produção intermediária, houve três maneiras de designar a moça e cinco, de designar a médica. Vejamos:
- une petite fille – la jeune professeure – la jeune fille
- sa psychologue, sa thérapeute, Mme., la mère de famille, la psychologue
Quanto à coerência pragmática, os mecanismos enunciativos são os que mais se distinguem em relação à produção inicial. Na produção intermediária, houve um aumento significativo de modalizações, pois na primeira experiência o texto se aproximava da modalização zero; apenas constatamos o uso de uma modalização, a apreciativa, em
“Finalment, debruit la manifestation Maxime Tartar a ouvrert un événement sur le Facebook (...)”; já no segundo, como os alunos deviam referir-se a determinados colegas do curso,
houve uma tendência maior à descrição e à retomada de termos que designassem os personagens de modo a não repeti-los e que permitissem sua identificação pelos outros colegas. Isso resultou em uma escolha lexical diversa: « Une personne paisible, contente, très compréhensive, amoureuse et qui detéste tous les types de violence » e « La mère de famille ». Há modalização na escolha do termo “mère de famille”, que denota que uma pessoa que é mãe de família e, supostamente, filhos, não cometa atos imprudentes. E ainda o uso de expressão adverbial em: “Ce jour-là c’est passé un petit different”, reforça o quadro de modalizações apreciativas. Esse aumento nas recorrências de modalizações deve-se
provavelmente à proposição feita na produção intermediária e às atividades realizadas em aula com os textos 1 e 2 (a e b), constantes da 2ª.parte de nossa SD.
Nesta produção intermediária, que possibilitou uma produção textual mais livre, em relação ao título do texto, ao tema, e ainda, com o elemento desafiador de inserir nomes de colegas de sala no texto, permitiu que o grupo fizesse uso de formas mais livres de expressão, o que pode explicar até o recurso de linguagem utilizado no título do texto (“Une nouvelle
therapie pour les maris ivrogne”) e ao humor em seu desfecho (“La jeune fille s’a trouvé plus
étonné quand la psicologue lui a ouvri le porte et dit” ‘Le proxime cliente s.v.p!’”
Não podemos considerar que o texto do grupo B não seja considerado um fait divers por conta da inserção desses elementos, sendo que outros constantes dele e, em maioria, se fizeram presentes e caracterizam o gênero. Os gêneros estão em constante transformação e, citando Machado (2005, p. 251),
Dado que as situações de ação de linguagem, pelo menos em parte, são sempre diferentes, o produtor vai sempre adaptar o gênero aos valores particulares da situação em que se encontra. Esse processo de adaptação poderá trazer consequências sobre os diferentes níveis do texto [...]. Ao final do processo, o texto produzido acabará por ser dotado de um estilo particular.
Isso demonstra a dinamicidade e mudança a que estão sujeitos os gêneros, e não podemos, por conta desses fatores, e em vista da situação de ação de linguagem particular, que o grupo produzisse um texto como reprodução de um modelo disponível; pois o caráter dinâmico e reformulador dos gêneros deve ser levado em conta. Consideramos que a produção intermediária desse grupo seja dotada desse estilo particular a que se refere Machado, na citação acima. Vejamos como a ficha-controle do grupo se apresenta:
Figura 26 - Ficha-controle da produção intermediária do grupo B
Os dados assinalados pelo grupo de alunos que corrigiu esse texto confirma o que nossa análise também evidenciou. Ele não tem desfecho e, para o grupo “corretor”, não é evidente que um jornalista seja o autor da situação proposta, provavelmente porque esses elementos mais descritivos e seu final tenham descaracterizado uma “prática de linguagem jornalística” para o grupo. Faltou, no momento de elaboração da ficha, uma parte destinada à justificativa dos tópicos assinalados negativamente, para que se pudesse melhor traçar o entendimento dos alunos em relação aos tópicos analisados. Houve um pedido, pela professora, para que fosse feita uma justificativa, de forma a guiar o grupo que produziu o texto a melhor entender a correção feita, mas alguns grupos não a realizaram, como nesse caso, da ficha que mostra a correção do texto do grupo B feita por outro grupo.