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A seguir, construo os resultados a partir da análise de cada uma das quatro categorias (A, B e C), utilizando para a elaboração destes, os discursos que mostram a perspectiva dos/as entrevistados/as sobre o que é a Congada de Ilhabela. As categorias apresentadas a seguir buscam auxiliar a compreensão do fenômeno observado, a prática social Congada e processos educativos decorrentes, a partir do relatado pelos colaboradores/as da pesquisa em suas descrições. É importante frisar que a análise ora apresentada é perspectival e não visa estabelecer verdades sobre o tema.

Categoria A- Origens e manutenção da tradição

Esta categoria trata das origens da Congada em Ilhabela e seus desdobramentos. Fala também das histórias que são contadas no texto apresentado durante os bailes e de personalidades representativas da Congada e do município de Ilhabela e dos processos de transmissão e manutenção desta tradição realizados dentro deste grupo social.

São vários os entendimentos apresentados sobre a origem da Congada tanto no Brasil quanto em Ilhabela, ainda que, entre os/as colaboradores da pesquisa haja um consenso de que ela foi introduzida em Ilhabela por negros escravizados ou seus descendentes como uma maneira de manter viva a sua memória, cultura e tradição, como podemos observar nas asserções: “[...] os escravos que vieram aqui pro Brasil, e come, que começaram essa... dramaturgia toda, eles se referiam aaa, ao, aos acontecimentos que... que tinha lá. E foi... eu acredito que foi uma forma de pegá e manter viva uma cultura que eles tinham lá” (V-12); “[...] era uma forma de-do negro expressar a sua cultura... deixá enraizado, passa pros pros seus descendentes a, essa cultura e lembrar do do da de suas origens [...] é o que a gente tenta fazer. O povo caiçara tenta pegá, mantê isso aí pra lembrar das suas origens, né?” (V-15).

é mais uma representação... éé, artística mesmo, como fosse um teatro, falando porque, quando us, os escravos vieram pro Brasil, esse, muitos por escravo, muitos puur, pelos presídios que tinham lá, i, né, eles tiraram aqueles, aquelas, aqueles maus elementos que eles tinham na época lá e vieram para cáá. É na história tudinho da-da-da, da-da, como é que se diz, du, dos, dos navios negreiros, né? E eles... pelo fato... de ficarem aqui, inclusive na época, tinham mais de cinco mil escravos aqui, negros, eles falaram assim: “Não, vamos fazer uma representação daquilo qui a gente vivenciou lá” e foi nessa que foi continuando. Aí um, dois, três, quatro, quando vai vê duzentos anos, duzentos e poucos anos..., iii eu vejo assim como busca, como alguns ca, como algumas pessoas qui eu, que eu conversei também vê dessa forma, uma forma teatral (XXI-2).

Zeca ainda nos diz que este seu entendimento advém do que lhe foi passado por alguns livros e pelas palavras ditas no texto da Congada. Destaca também em sua fala que, de acordo com o texto da Congada, a redistribuição de alimentos e o bem ao outro praticado por São Benedito consegue acabar com uma guerra:

A gente fala que tem três bailes, são três encenações. Dessas três encenações, uma ooo, ele acaba porque o Rei reconhece que é filho dele [...] uma outra é quiiii em louvor a São Benedito, [...]. I que o mais interessante [...] é qui por causa do, de São Benedito eli, eles param a guerra! Falam: “Poxa tem, tem um, tem um santo, teve um santo reconhecido por todos, que veio à terra, feiz só o bem e tal (XXI-1).

Tereza diz que a Congada se iniciou na Ilha com Seo Paulino e que atualmente “[...] é assim, branco, mas antes era tudo, tudo era gente de cor, que eles dançavam a Congada. [...] meu avô foi escravo também, o velho vivia na Ponta das Canas” (XI-1), reforçando em sua fala a presença negra na constituição da Congada no município.

Marta nos conta como nasce a ideia dos negros de Ilhabela se organizarem na Congada, segundo a história contada e vivida por sua família:

o começo da Congada foi o meu pai. Aqui não existia a Congada, né, e [...] o meu avô, falava pro meu pai, ele cresci, cresceu i queria que seguisse o que ele era da Congada, ele ia ensiná o meu pai ... Aí o meu pai [...] falô pra minha mãe: “Eva, vamos trabalhar! Vamos fazer o que meu pai queria. Não aqui, aqui meu pai não feiz nada, mais me deixou eu encarregado nesse ponto”. Aí mamãe “Vamos!”. [...] A festa era na Vila. Semana toda, ele arrumava uma em uma casa e ficavam. [...] meu pai... tinha muitos amigos e começou a chamá os amigos pra isso... Os amigos mais velhos que iam acompanhá isso, explicava tudo. Depois o meu pai falou assim “Tá faltando oo Embaixador”, aí teve um deles que falou assim “Ah, ... parente”, porque eles si chamavam, “Eu, eu posso ser o Embaixador. Se você aceitar eu faço”. “Então você faiz?” Então, já marcou o carregamento pra ele, e ele morava lá na, na, na Siriuba e lá também ele já começou a arrumá o povo pra formar a Congada (XIV-2).

Marta também diz que depois de organizado o grupo houve a necessidade de se conversar com os frades da Igreja do bairro do São Francisco, localizada em São Sebastião, em busca de autorização para a realização da Congada. Como maneira de convencimento e explicação, foi apresentado por Seo Paulino aos frades a história que seria encenada.

porque ele feiz um, como é qui chama, uma história..., então apresentou pro padre. O padre falou assim “Ei, isso aí não, isso aí não..., no meio tem

guerra, não queremos guerra, não queremos guerra”, foi a hora, né, di meu pai explicá tudo direitinho ... “Frei! O senhor precisa vê, ouvi, direitinho por senhor vê si é guerra ou não (sorri divertida), mas não é guerra..." (XIV-3).

Apesar de tudo ter sido acordado para a sua realização, as relações entre a Congada e igreja costumam oscilar entre a aceitação e a cordialidade e tentativas de limitação, para a realização da Congada, por parte da Igreja; assim como houve resistência por parte dos congueiros ante essas ações.

teve um padre qui é do tempo da Alemanha, o padre que não gos, não, não queria saber disso. Falá em guerra pra eles era o fim mundo. Papai: “Não, padre.” Aí ele falava assim “Olha, Paulino, tá muito bom, muito bonito, mais vamos acabar com espadas, essas espadas... eu tô aqui fugindo. Primeira coisa eu tô fugido da minha terra por causa da, dessas espadas, né”, ... aí meu, meu, meu pai falou “Tudo bem, mas não vamos acabar com a festa. Por isso, si o senhor não quiser a festa de São Benedito, o senhor pode ficá a semana toda, no dia da festa si o senhor não quisé fica presente, mais a festa vai tê. Não vai tê missa porque não tem padre, mas vai tê a festa tudo direitinho” (XIV-6).

A data inicialmente proposta para a realização da Congada levou em consideração a data de realização da Festa de Nossa Senhora da Ajuda (padroeira do município) como referência para a escolha do dia da Congada se apresentar e não no dia atribuído ao santo Benedito pela igreja católica. Isto decidido iniciaram-se os ensaios, que foram estruturados pensando a localização de moradia dos grupos participantes, de modo a facilitar a presença dos interessados em participar e assistir.

Tem a festa da Nossa Senhora da Ajuda, da Ajuda, dois de janeiro... Dois de fevereiro! E meu pai então “Vamos fazê a festa depois da festa do dia da Nossa Senhora” ... Eee aí então acertaram tudo pra fazê a festa. Então faziam, um domingo eles iam ensaiá lá na, na Armação, lá no Siriúba, outro dia na Armação, terceiro dia aqui no Perequê... né. Ensaiavam os trechos i tudo isso. [...] Então, tinha duas parte: do Rei ... i du, era vassalo, né, do Rei, nesse tempo do, do Reis. Então, ele tinha a parte dele, ele comandava a turma dele e meu pai..., i ele, mais a turma dele era mais do lado qui ele morava porque era mais fácil pra eles irem ensaiá (XIV-4).

Negro apresenta uma outra versão sobre o início da Congada na Ilha, atribuindo sua implantação a outra pessoa, ainda que se mantenha, de certa forma, no mesmo núcleo familiar (família de Eva Esperança, e não a de seu marido Paulino). De acordo com sua fala a Congada veio da África em 1785, trazida por um, negro, “[...]) que chegou aqui na Ilha num num porão

de navio, diretamente na praia de Castelhanos, aonde todos os negros eram vendidos nessa, na época da colonização aqui na Ilha.” (III-4d), ou seja, em sua perspectiva foi “[...] Roldão Antônio de Jesus que difundiu toda essa crença, toda essa devoção que ele tinha pá São Benedito, né? Quando ele chegou aqui na Ilha e difundiu entre os outros negros, entre os outros escravos e perdura até hoje” (III-45d). Negro afirma que Roldão era “[...] irmão do marido da Benedita Esperança” (III-7d).

a Congada de São Benedito começou a ser dançada, primeiro nos quintais, né, nos terreiros das senzalas... Depois da libertação dos negros, a Congada... começou a sê ensaiada... na, em frente a igreja de São João no Perequê e as apresentações principais eram nas ruas da Vila... É a família de Eva Esperança Silva. Oo, o Roldão Antônio de Jesus, que era o nome do negro que trouxe a a Congada pra cá e começou a difundir a história da Congada entre todos os negros da fazenda dele, aonde ele tava, né, aonde ele era escravo,... e é a família de Eva Esperança Silva, que eles tão até hoje na Congada, né? (III-5d)

Passada esta etapa da organização, se fazia necessário pensar em como alimentar a todas as pessoas participantes durante o período da Congada, já que todos eram pobres. Em conversas entre membros do grupo participante sobre tal questão, surge a proposta de realizar a Folia de São Benedito, nos moldes nos quais acontecia a Folia de Reis.

A comida! Como é qui vai sê a comida?” Naquele tempo, tudo era pobre. Aí tinha um senhor..., é lá do Sul, ele falou assim, “Nós fizemos também..., Paulino” [...], “ooo a festa do Reis e tem o, a-o canto do do Reis, né.”[...] “Então, fazê assim, vamos fazer isso: eu vou com a minha turma ... você, você põe mais um trecho, vamos dividir !... Turma do Sul, turma daqui e turma da-da Armação. Cada um vai ficá com uma bandeira do São Benedito..., i vamo saí... em volta à ilha.” Já tem até marcado os pontos lá na ilha onde eles paravam. Então eles cantavam o Reis, a foli, é, a Folia de Reis eles cantavam e naquele canto eles faziam um pedido... sabe? Faziam um pedido. Todos eles. I já tinha o dia marcado di trazê (XIV-4).

E assim pensado e organizado se torna presente a característica mais marcante da Congada e que ainda hoje, em certa medida, se mantém: ela é realizada pelo povo, cooperativamente e de maneira compartilhada, cada um ajudando como pode. Neste momento da sua estruturação era levado para a festa pelos participantes o que era produzido usualmente no dia-a-dia e parte desta produção cotidiana de alimentos era destinada antecipadamente à São Benedito, tomando-se alguns cuidados no momento da separação dos alimentos a serem levados para a festa.

minha tia com mamãe..., vovó pegava aqueles patos, né, i já trazia tudo prontinho, pelava tudo, limpava, trazia tudo inteiro assim..., aquelas galinha toda, trazia.... matavam aqueles boi lá. [...]. Vovó fazia melado, pegava... banana, aquelas banana da terra grandona que agora... Agora qui tem pão, antis num tinha pão, né. Banana, batata, cará, eita, embarcando tudo, aquelas coisa toda lá, aquelas folhas de couve, grandona assim [...], trazia da roça..., pra i pá festa. [...] O pessoal qui vinha do Bonete também trazia... Era muito ... muito legal! O pessoal lá de fora tudo trazia. Quem morava no Jabaquara... traziam tamém (XI-35).

A minha mãe chegava em casa e dizia assim “Didita ...ali tá uma galinha choca já,... vamô..., vamô”. Ela chegava assim pegava... 14, 12 ovos, assim, a galinha era bem grandona: “Aqui São Benedito, esses frangos é pra..., fazei nascê tudo frango!”. Aí a falecida minha tia punha tudo os ovos com a mão esquerda pra sair tudo frango... Aí ela dizia assim: “olha São Benedito, tomai conta da, dessa ninhada que é pra vossa festa..., num deixai o gavião pegá um...”. I criava, sabe! Quando chegava no outro ano já tava, pato, sabe, aqueles pato. Traziam, num era um pato dois pato, não! Já traziam de-de 10 assim daqueles pato, porque cada um... trazia, traziam pra festa (XI-6).

Havia uma organização prévia para receber as pessoas que vinham das regiões mais afastadas da Ilha para a Congada e cada um contribuía da maneira como podia, fosse com seu saber ou com o que produziam em suas roças e casas como podemos observar nestas asserções: “[...] Ah mais... Não, eu vô trazê... qualquer coisa. Ia, comprava qualquer coisa i trazia [...], tinha uma senhora que ela gostava fazê pão, ela fazia pão na casa dela [...]. Pra treis dia de festa tinha pão fresquinho” (XIV-8).

Os porco [...] matavam aqui i a mâ, a mamãe já tinha era gamela sabe, gamela grande, punha ali no tempero tudo, já ia assando... pra dia da festa, mais tinha que começá antes, não tinha geladeira naquela época. [...].. Então, a festa começou assim, com a ajuda do povo (XIV-7).

Marta conta que sua mãe chegava na Vila uma semana antes do início da festa para receber os alimentos arrecadados e também para preparar a casa para hospedar a quem necessitasse.

Tudo o que eles podiam naquele, aquela equipe arrumá i depois tinha outra equipe também tudo qui arrumava, então nunca faltou comida ... sabe? Iiii no Sul também, traziam tudo de canoa... Então, né, i tinha uma canoa que trazia só lenha ... tudo os pedacinhos de lenha... pra festa. Então elis... era,

era uma festa mesmo! Eles faziam isso. iii depois mamãe... e a casa que eles arrumavam era grande, com quarto grande. I naquele tempo não tinha nada de colchão. Não existia o colchão. O colchão eles mesmo faziam (ri baixinho). Mamãe fazi, mandava fazê esteira. Quem soubesse, fazia estera, estera, estera, estera, estera, ficava aquele montão di este (XIV-4).

Fica claro na fala de colaboradoras a ausência de produtos industrializados e comodidades tecnológicas a que atualmente temos acesso, assim como a constante atribuição de propriedade desses alimentos à São Benedito, que se dava de forma dialogada com o santo.

na festa de São Binidito, [...]. Torravam o café em casa... Vinha com um moonte; colhia o café, torrava, aaí dizia “Ai meu são Binidito, fazei tempo bom pá secá esse café. Esse café... é pra fazê o café da vossa festa...” Aí torrava aqueles panelão assim, socava no pilão, traziam aquelas lata, as latas grandona assim, cheeia de pó de café, i traziam sabe? Aí, vovó traziam a cana, fazia o melado... aí fechava a tampa assim (bate com uma das mãos na palma da outra mão: “Esse aqui é o melado pra festa de são Binidito!” Naquela época não ti, naquela época não tinha açúcar,.[...], levavam aquelas latas de melado que era pra fazê café. Era banana cozida, mandioca, batata, cará..., fazia aqueles cuscuiz caiçara ... pra tomá café com ele. Fazia cuscuiz nos cuscuzeiro de barro assim e virava assim i batia assim bum [...], parecia até um pandeiro assim (XI-40).

Com o falecimento de Seo Paulino, a Congada parou, porque “[...] o cabeça faleceu, ele era o Rei... E o Seo Pedro de Amparo também ficô parado porque ele tamém era Embaixadô” (XI-3). Dona Eva desistiu e se retirou da Congada, mas após uma mensagem de seu marido morto, recebida por ela através de um sonho, a Congada foi reiniciada.

Aí depois ela, ela teve um sonho com meu pai... di chegá prá ela e falá assim “Eva, vai tê a festa i você vai na casa do Pedro... i fala pra Pedro qui ele é o responsável pra tocá a festa pra frente”. Então, ela disse que conversava com ele i assim “Ah, mais Paulino...”. “Vai, vai, vai amanhã já!” Ela, de manhã, [...] pegou os filhos, dois ou treis filho mais velho ... foi lá, lá na Viana. Aí chegou lá e falou com Pedro, ca família do Pedro tudo. I ele assim “Eva.., eu fico! Eu vô ... vô ensiná um, eu fico no meu lugar, mais ensino outro pra sê, pra sê o manda-chuva, por assim dizê i tem oo, i da sua parte a senhora já sabe... i o Rei também”, Assim, i aí ela falou assim, ela falou assim “i o meu, i o rei vai sê o filho mais velho, o Manoel”... i o Pedro também ficou responsável por, por Manoel. Aí eles fizeram a festa (XIV-9).

Essa atitude de retomada da festa foi muito comemorada pelas pessoas participantes, conforme relata Marta: “[...] De manhã cedo a turma batia na porta ‘Ai, brigado, brigada,

nóis tava triste, não sabia, não podia passá a festa de São Benedito em vão...’ i aí continuou... a festa. Aí ia morrendo um, já outro já pegava o lugar” (XIV-10).

Com a continuidade da festa o cumprimento de tarefas começou a se organizar entre o grupo

tio Benedito, ele qui mexia com os foguetes... da festa e era aquelas salvas, sabe, botava assim (indica com as mãos a posição), tudo esticado num bambu assim, ligava assim i aquilo ia só estorando assim. Ele que era responsável das salva, os foguetes... meu tio José, falecida minha tia, Diola, ela falava “deixa comigo que o negócio de limpá, limpá e barrê é comigo mesmo”. A minha tia trazia pato, trazia tudo (XI-5).

Segundo Tereza e Marta a festa anteriormente durava três dias, já para quem “[...] ia pra Ucharia era quatro dia... era quinta, sexta, sábado e domingo” (XI-67), na quinta-feira “De manhã cedo, meu avô dizia assim: “Vamo, vamo, vamo já, porque si começava a ventá, né? Naquela época eles falavam bentá, né? Si começá a bentá, aí nois já tamo lá” Aí traziam pra Vila... iii a festa de São Benedito já começava” (XI-7). Seu término se dava no

domingo com benção, tudo. Segunda-feira era a festa dus, era a missa dus congos..., né, ... mais... depois, era a missa dos congos,[...]. Os congos cantavam, dispidiam do.... Até era bonito! Agora acabou! Não tem a segunda-feira! Você ia na igreja pra tomá tudo.A maioria tudo era congo. Os outros iam pra assistí, mais o congo. Aí o padre abençoava ...i eles iam embora” (XIV-48).

Negro faz referência a uma obrigatoriedade de permanência da família real da Congada em sua casa, que não foi mencionada em nenhum outro discurso. Quanto aos dias da festa, fala com saudosismo da presença constante da música e da dança quando os “[...] os violeiros iam cantar, tocar pra gente dançar,.. e antigamente também não era só três dias era uma semana, eram sete dias de dança, antigamente a Congada e todos era obrigados a dormir lá...dentro dessa casa aí, que depois virou Colônia de Pescadores (III-56d).

Tereza ao relatar sobre a Congada de antigamente rememora que era muita gente: “[...] Aquela rua que passa de frente a igreja, qui desce assim, o Rei ficava ali, quase ali pertinho na, da-da Barraca do Samba iii passava daqui de onde era o bazar São Paulo, passava a turma pra lá ainda, [...] de tanta gente que era...” (XI-47). Relembra também modos de fazer tais como se dava a limpeza do material utilizado na festa, sempre insinuando um espírito de colaboração: “[...] elas levavam ali na barra ali da Vila, do lado qui tem o grupo e ali elas

lavava na cachoeira aquelas panelona. Metia uma areia na panela assim i esfregava ... Ah, dizia, não tinha como lavá, traziam ali e lavavam ... as panelona lá toda...” (XI-52); ou como se dava o preparo da comida na Ucharia:

faziam carne com feijão, carne seca com feijão, na sexta, no sábado era a carne picada com batata, antis, antis ain quando ainda não tinha quase batata pra cá, faziam com mandioca, i no domingo, aí eles faziam... ou galinha, galinha e carne. Ficava os pedaço de carne tudo assando nas panela (XI-53).

As mulher ia tudo primeiro botava o frango assim, cozinhava aí quando a água tava trigueira, quando a agua... tava baxan, tava baxando, aí ficavam rodando assim na panela assim pra assá (faz com as mãos o movimento de rodar a carne, me mostrando como)...i num era um, nem dois, eram muito assim, tudo assadinho. Aí traziam aqueles cocho... qui faziam assim a farinha, aí forrava assim, pegava, forrava com toalha, qui num tinha papel alumínio [...] i botava tudo aqueles frango tirado da panela, [...]. Os coxo, ia daqui lá assim. O, coxo era qui nem uma canoa sabe pedaço de carne, aquela carn... era gostosa. Agora não, a carne num tem gosto. A carne agora num tem gosto não. Aqueles bizerro qui eles davam só davam milho e mato, então a carne, ficava uma carne pura tinha nada di coisa. Aquelas comida era muito gostoso. i muito...[...] algumas qui sabia sabiam como fazê macarrão fazia... (XI-55).

Atualmente há a presença de homens na cozinha, mas inicialmente a cozinha era um espaço feminino e de trabalho intenso.

Encerradas as festividades as pessoas retornavam à sua rotina de vida e trabalho, sempre levando em consideração as condições oferecidas pela natureza para tal, como nos conta Tereza: “[...] minha tia vinha na Congada, ela ia segunda-feira, no outro dia embora,