A tabela 7 mostra um valor maior nos leucócitos totais no grupo infarto vitamina E quando comparado ao grupo controle e ao grupo infarto salina. Tabela 7 - Perfil hematológico dos grupos controle, infarto salina e infarto
vitamina E
¹Cubas et. al; 2007. Valores expressos como média ± desvio padrão. *P<0,05 vs Controle e #P<0,05 vs infarto salina.
Controle Infarto Sal Infarto VE P VR¹ Eritrócitos (milhões/mm3) 8,2 ± 1,0 8,0 ± 1,3 7,9 ± 0,5 0,81 5,4-10 Hg (g/dL) 18,1 ± 2,2 18,1± 2,3 17,3 ± 1,2 0,72 11-18 Ht (%) 44,7 ± 4,9 44 ± 5,3 42,6 ± 2,5 0,66 35-49 VCM (fL) 54,7 ± 1,2 55,3 ± 3,5 54,3 ± 1 0,67 49-64 Leucócitos totais (mil/mm3) 5,7 ± 1,8 6,0 ± 2,3 9,7 ± 3,0*# 0,02 4-17 Neutrófilos (%) 30,7 ± 8,2 31,6 ± 9,2 25,9 ± 7,8 0,43 9-50 Eosinófilos (%) 1,9 ± 2,0 1,6 ± 1,5 1,1 ± 0,7 0,66 0-6 Basófilos (%) 0,1±0,4 0 0 0,45 0-1.5 Linfócitos (%) 64 ± 9 64 ± 10 70 ± 8 0,33 50-85 Monócitos (%) 3,6 ± 1,1 3,0 ± 1,0 2,6 ± 0,8 0,19 0-5 Plaquetas (fL) 7,4 ± 1,3 7,7 ± 0,4 7,9 ± 0,5 0,54 4.5-8,8
5 Discussão
O objetivo desse trabalho foi avaliar a influência da administração de vitamina E associada a nanopartículas lipídicas no remodelamento ventricular após o infarto do miocárdio em ratos, por meio de análise de sobrevida e de variáveis morfológicas, funcionais e intersticiais.
O primeiro aspecto a ser ressaltado refere-se ao uso da vitamina E associada a nanopartículas lipídicas. Nosso estudo utilizou protocolo já validado na literatura, com a administração de injeção intraperitoneal de vitamina E, como α-tocoferol, na dose de 10mg/Kg de peso corporal (Antoniades et al, 2003; Ficker et al, 2010) e um modelo experimental bem estabelecido, de injúria miocárdica e fibrose intersticial que é o infarto agudo do miocárdio (Minicucci, 2011; Ardisson, 2012).
A nanopartícula lipídica faz o direcionamento de drogas a tecidos específicos (Redgrave & Maranhão, 1985; Maranhão et al, 1986). Sua capacidade de se concentrar em tecidos que sofrem processos proliferativos, já foi demonstrada anteriormente (Ades et al, 2001; Padoveze et al, 2009). Em nosso estudo pudemos observar que a captação da nanopartícula foi maior pelas glândulas adrenais dos infartados quando comparado ao grupo não infartado. Isso se deve ao fato de que a adrenal produz aldosterona, que participa do sistema renina-angiotensina, que por sua vez é precoce e intensamente ativado em insuficiência cardíaca, mesmo na presença apenas de disfunção ventricular. Assim sendo ocorre uma maior atividade da glândula adrenal e consequentemente um aumento de aldosterona na presença de qualquer injúria cardíaca, como no caso desse modelo experimental. Além disso, observamos uma maior captação da nanopartícula pela aorta dos ratos controle, quando comparado ao grupo infartado, esse achado precisa ser melhor investigado.
Para avaliarmos a presença ou não de efeitos secundários decorrentes do uso da nanopartícula lipídica e excluir a possibilidade de uma toxicidade, realizamos a determinação do perfil hematológico desses animais.
Observamos um valor maior nos leucócitos totais no grupo infartado tratado com a vitamina E associada a nanopartícula lipídica, quando comparado ao grupo sem infarto e ao grupo infartado sem tratamento, porém esse aumento permaneceu dentro dos valores de referência para o modelo experimental (Cubas et al, 2007). Essa diferença não se manteve nos demais dados do leucograma, não podendo ser considerado como indicativo de toxicidade.
Verificou-se também, uma mortalidade maior no grupo infartado sem tratamento, quando comparado ao grupo infartado tratado com a vitamina E associada a nanopartícula lipídica. Essa mortalidade ocorreu principalmente entre a 3ª e 4ª semana pós oclusão coronariana, provavelmente, por insuficiência cardíaca crônica. A vitamina E parece ter atenuado a mortalidade nesse modelo experimental, porém mais estudos são necessários para afirmar esse achado.
A avaliação da atividade do sistema nervoso autônomo pelo uso de diferentes técnicas nos permite estimar a contribuição desse sistema nas respostas alteradas, associadas a doença cardiovascular. A redução da função parassimpática parece contribuir para o aumento da variabilidade da pressão arterial e, consequentemente, para as lesões do órgão alvo observadas na doença cardiovascular (Angelis et al, 2004). Respostas reflexas do simpático e do parassimpático permitem ajustes do débito cardíaco e da resistência vascular periférica, contribuindo para a estabilização e manutenção da pressão arterial sistêmica durante diferentes situações fisiológicas (Cowley 1996).
Em modelos animais, a sensibilidade barorreflexa pode ser avaliada pela infusão de drogas vasoativas, fenilefrina e nitroprussiato de sódio, as quais induzem aumentos e quedas da pressão arterial que promovem respostas bradicárdicas e taquicárdicas, respectivamente (Angelis et al, 2004). No presente trabalho, diferentemente do esperado, não foram observadas diferenças nas variáveis hemodinâmicas entre os grupos infartados, com relação ao grupo controle.
Como já esperado, o peso relativo do coração dos animais infartados, foi maior quando comparado ao dos animais do grupo controle, isso se deve ao processo de remodelamento. Não houve diferença entre os grupos infartados.
É importante ter em mente, que o remodelamento ventricular é caracterizado por variações moleculares, celulares e intersticiais cardíacas, que irão se manifestar clinicamente por alterações no tamanho, na massa, na geometria e na função do coração, em resposta a uma determinada injúria (Pfeffer et al; 1985,1990). Dessa forma, o estudo de estratégias que interfiram positivamente nesse processo torna-se necessário.
Com relação a morfologia, o infarto leva a alterações complexas da estrutura cardíaca. A dilatação do ventrículo esquerdo e o afilamento da parede, em consequência do processo de expansão, são características da região infartada (Hutchins & Bulkley, 1978). Por essa razão, esse fenômeno, clinicamente, é diagnosticado por alterações do diâmetro da cavidade, da massa ou da espessura ventricular esquerda (Matsubara et al, 2000). Isso foi observado em nosso estudo, pois a espessura relativa da parede (ERP) após a 6ª semana diminuiu, tanto no grupo tratado quanto no grupo não tratado, indicando um aumento da cavidade e um afilamento da espessura da parede do coração desses animais.
No presente estudo, considerando os efeitos da vitamina E associada a nanopartículas lipídicas nas variáveis morfológicas, os animais infartados tratados ou não, não apresentaram diferenças no diâmetro da cavidade ventricular esquerda, na massa ventricular e na espessura da parede. Assim, podemos concluir que o uso da vitamina E associada a nanopartículas lipídicas não atenuou essa variável que também caracteriza o remodelamento pós infarto.
O remodelamento ventricular pós infarto está associado à disfunção ventricular progressiva, arritmias complexas e maior mortalidade (Francis 2001). No presente estudo conforme esperado, observou-se que o infarto resultou em comprometimento da função sistólica, o mesmo não foi observado no que se refere a função diastólica. Deve-se considerar que a disfunção sistólica é uma das principais características do processo de remodelamento pós infarto (Zornoff, 1997). Porém, contrariamente ao esperado, não observamos diferença na fração de encurtamento (FE), na taxa de estresse da parede (TEP), na velocidade de encurtamento da parede posterior (VEPP) e na fração de variação da área (FVA), avaliadas pelo ecocardiograma, entre os
animais infartados tratados com a vitamina E, em relação aos animais infartados não tratados. Assim sendo, a vitamina E associada a nanopartículas lipídicas não apresentou efeito benéfico nas variáveis funcionais, nesse modelo experimental.
Já está bem elucidado na literatura a importância do colágeno no interstício do miocárdio, tanto para a manutenção quanto para a estrutura e função do músculo cardíaco. De acordo com Segura et al (2014), essa proteína é a responsável pelo alinhamento dos miócitos, pela transmissão de força entre as unidades contráteis, além da transferência de sinais célula à célula. A deposição inadequada de colágeno leva, portanto a uma desorganização da estrutura miocárdica que, ocasiona uma alteração da estrutura celular, por meio de vias de sinalização, e, macroscopicamente, a uma alteração da geometria e função cardíaca. No presente estudo, como esperado, observou- se um aumento da fibrose não subendocárdica e, principalmente, da subendocárdica, em áreas remotas ao infarto nos grupos infartados, em relação ao grupo controle. Não havendo diferença entre os grupos infartados. Dessa forma, intervenções que possam modular a deposição desorganizada do colágeno no interstício miocárdico, ou seja, a fibrose, podem promover a proteção das alterações da geometria e da função cardíaca (Frantz, 2009). Não foi observada atenuação na extensão do infarto, visto que o tamanho da região infartada, obtido por ecocardiografia e confirmado por morfometria, foi semelhante entre os grupos tratado e não tratado com vitamina E associada a nanopartícula lipídica. Porém, o ecocardiograma mostrou que, no grupo não tratado a extensão do infarto foi maior após 6 semanas, quando comparado ao grupo tratado com a vitamina E associada a nanopartícula lipídica.
Como esperado, os grupos infartados apresentaram um diâmetro maior em comparação ao grupo não infartado, indicando a hipertrofia dos miócitos. A expansão do ventrículo esquerdo ocorreu, expressivamente, nos grupos infartados quando comparado ao grupo controle. O grupo infartado tratado com a vitamina E associada a nanopartículas lipídicas obteve valores intermediários, embora sem diferença estatística, entre o grupo não infartado e o grupo infartado sem tratamento. Esse fato em conjunto com o dado mostrado pelo ecocardiograma, quanto a extensão do infarto após o tratamento, podem
ser um indicativo de que, de alguma forma, a vitamina E interfira positivamente no processo de remodelamento. Cabe ressaltar que existem outros mecanismos que podem participar do processo de remodelamento ventricular que não foram avaliados neste trabalho. Neste sentido, são necessários mais estudos sobre a ação da vitamina E no modelo do infarto para melhor entendimento de seu papel nessa agressão e talvez, em tempos diferentes de tratamento, ou até mesmo em uma fase antecedente ao infarto, com a hipótese de minimizar os possíveis danos causados pelo remodelamento.
6 Conclusão
No presente estudo, não foram evidenciados efeitos protetores ou atenuantes da vitamina E associada à nanopartículas lipídicas, quanto à morfologia cardíaca, função ventricular, extensão do infarto, hipertrofia dos miócitos, fibrose e perfil hemodinâmico pós infarto do miocárdio, neste modelo experimental.