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De maneira breve é importante para esta pesquisa destacar o papel que a TV Bandeirantes teve a partir de 1983 até 2003 no domingo da TV aberta brasileira. Na época a emissora apostou num projeto ousado: contratou o principal comentarista esportivo da Rede Globo de Televisão, Luciano do Valle, que com uma equipe transformou a grade de programação de domingo em praticamente um canal de esportes, algo inédito até então. O programa Show do Esporte tinha início às 10 horas da manhã e terminava às 20 horas. Até aí já vimos a tradição de uma programação longa, fluída e blocada no domingo da TV aberta. O diferencial aqui é que eram dez horas seguidas de esporte na TV aberta, em eventos encadeados

85http://www.nytimes.com/2011/05/31/business/media/31adco.html?hp&_r=0 86 Idem.

tratados por diversos apresentadores, mas sempre tendo Luciano do Valle como seu comandante.

Os apresentadores chamavam as atrações esportivas que eram exibidas interligadas pelos intervalos comerciais. O programa transformou a Bandeirantes em um canal de esportes, praticamente segmentado como já eram os canais de esporte por assinatura norte-americanos e como viriam a ser os canais pagos no Brasil. Nos anos 2000 o grupo Bandeirantes criou um canal de esportes para a TV a cabo, a Bandeirantes Esportes. Mas a inovação que o esporte trouxe para a grade de programação de domingo na TV aberta brasileira com a estratégia adotada pela emissora foi inegável.

O domingo da Bandeirantes se mostrava uma opção às programações das outras emissoras e pode ser detectada aí também uma forte herança do Programa Silvio Santos, por exemplo. Um bloco único de esportes como alternativa ao bloco único de programa de variedades com auditório como era o de Silvio Santos. A manhã de domingo da emissora começava com programas religiosos e a noite da Bandeirantes terminava com jornalísticos, uma tradição da Bandeirantes com programas como Crítica e Autocrítica e Cara a Cara.87

Tendo como principal estímulo o esporte, a Bandeirantes estabeleceu um fluxo que difere pelo estímulo e pelo público que atrai, mas que pode ser lido novamente como um único estímulo nos moldes daquele estabelecido, por exemplo, pelo SBT. A emissora que optou por esportes estabelece um contrato afetivo com um público que desfruta de uma programação esportiva até então esparsa na grade das outras emissoras abertas.

A programação esportiva com este modelo de grade aos domingos foi exibido até o ano de 2003. Aconteceram variações para mais ou menos tempo de duração do Show do Esporte de acordo com estratégias. Mesmo com o fim do programa, a Bandeirantes já havia criado uma tradição e credibilidade no assunto Esportes e nunca abandonou a programação esportiva. A grade atual exibe uma programação esportiva diversificada das 12h30 até às 19h30, outra vez um grande bloco de esportes, apenas em programas diferentes. Nas palavras do diretor de programação da emissora, Fernando Sugueno, “o domingo é o dia de maior número de televisores ligados e por sua vez tem grande importância para a composição da média da

87 Ver Anexo III grade de programação de 8 de março de 1992 já utilizada como exemplo para Globo e SBT.

semana. O esporte ainda é um segmento importante para a emissora, mas no prime

time estamos investindo nos jovens com o Pânico.”88 Segundo ele, a Bandeirantes

tem um público majoritariamente masculino, adquirido com o estabelecimento da tradição do esporte na TV aos domingos, e hoje e emissora tenta mudar e segue “um projeto de rejuvenescer a sua audiência e também aumentar a audiência entre as mulheres.”

Nesta pesquisa há um entendimento de que a função de programador de TV é uma profissão fruto de uma prática, de empirismo e também intuitiva, como já foi esclarecido por Murilo Fraga e pelo pesquisador Laurent Fonnet. Além do que, muitas vezes, por esses mesmos motivos há um espaço para a reflexão que não é preenchido e que acaba sendo levado aos meios acadêmicos que se dedicam aos estudos de televisão – embora a grade de programação não esteja entre os assuntos para os quais a academia tenha despertado melhorar este parágrafo . No entanto, durante este trabalho me deparei várias vezes com a impressão de que perguntas sobre estratégias de grade de programação não são bem vindas, ou porque o assunto é um segredo que as emissoras não querem revelar, ou porque não necessariamente os profissionais de programação tenham o hábito de refletir sobre o assunto. Um exemplo foi quando perguntado sobre quais são os critérios para montar a grade de programação da Bandeirantes, Sugueno - mesmo tendo respondido gentilmente às perguntas - deixa claro que grade de programação é um assunto aparentemente não muito confortável de ser tratado e que, na opinião dele, não deve pertencer ao âmbito das discussões e análises acadêmicas:

“os critérios variam de acordo com o dia e a faixa horária. Os critérios vão desde a “contra programação” (programar ao contrário das demais), “espelho da vice”, “inversão de concorrência”, “horário coordenado”... esses termos são de uso interno da emissora e não científico.”

No entanto, ele revela que, se for conveniente à estratégia comercial, a grade pode vir a ser definida pelo anunciante: “podemos fazer projetos customizados de programas para determinados anunciantes, como os reality shows Joga 10 e Joga Bonito para Nike e o Busão do Brasil e para o Guaraná Antártica.” E acrescenta que “a emissora oferece uma flexibilidade e inovação em formatos comerciais maior que

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as concorrentes, vide CQC, breaks da Fórmula Indy, Pânico.”89 Afirma que o público tem influência na montagem da grade:

“Qualquer projeto que vai ao ar na emissora passa por pesquisa de mercado, onde é apresentado o mesmo para uma amostra (público alvo) e avaliado posteriormente, tanto para mudanças no projeto ou até mesmo a não validação. (...) Fazemos sempre um programa visando um público alvo.”

Dentro dos formatos “customizados” da grade, a Bandeirantes trouxe para durante a semana um humorístico que transformou a segunda-feira à noite em prime

time da emissora, geralmente um dia esquecido na programação das emissoras

abertas sem muita novidade. O CQC é uma fórmula internacional adquirida da produtora argentina Cuatro Cabezas que criou o programa em 1995 com o nome original de Caiga Quien Caiga (Caia Quem Cair) e no Brasil é apresentado por um time de humoristas liderados pelo apresentador ligado a diversas mídias como internet, TV e mídia impressa, Marcelo Tas. São três na bancada e outros na reportagem. O programa trata dos assuntos da semana e faz uma releitura satírica e com crítica social das notícias e a sigla CQC para a TV brasileira recebeu o nome completo de Custe o Que Custar. Tem publicidade inserida nas vinhetas de abertura, de entrada e saída dos intervalos comerciais e também com quadros patrocinados no interior do programa. E a título de curiosidade, é também um crítico das emissoras de TV abertas com o Top Five, um ranking semanal de cinco momentos que trazem o que o grupo considera o pior e o melhor da TV naquela semana. É possível ver o quadro como uma exposição crítica e independente da TV aberta brasileira, esta que praticamente não produz textos críticos a seu respeito – a não ser quando pesquisadores se debruçam sobre assuntos de TV e quando gera comentários na imprensa especializada por ocasião do lançamento de algum produto, evento ou acontecimentos de bastidores.

89 Neste ponto, minha orientadora e eu acreditamos que o pensamento metapórico se ajusta à perfeição ao que é colocado pelo entrevistado. O conjunto de "critérios" que Fernando Sugueno aponta são um prato cheio para inúmeras reflexões e desdobramentos possíveis a partir deste trabalho.