Com a independência de Moçambique em 1975, o governo estimulou a construção de “um sistema socialista no qual a cooperativização da produção da agricultura familiar camponesa, o reassentamento das populações em aldeias comunais e o investimento no setor estatal de produção seriam os
grandes motores da transformação” (CRUZ e SILVA, 2002, p. 403). No entanto, essa intenção não foi cumprida e acabou por marginalizar os camponeses em benefício do desenvolvimento de uma agricultura mecanizada. Esse processo elevou os índices de pobreza e o aumento da exclusão, mas ao mesmo tempo, como resposta a essa situação, geraram-se iniciativas e alternativas populares de gestão social e econômica.
Uma dessas alternativas, a agricultura urbana, enfocada no estudo de CRUZ e SILVA (2002) é entendida como a formação de cinturões verdes ao redor das cidades, que garantem o abastecimento dos mercados da cidade com hortigranjeiros, frutas, espécies de animais de pequeno porte etc., os quais provêm de pequenas propriedades existentes no perímetro urbano ou zonas periféricas da cidade de Maputo.
Moçambique passou por reformas econômicas e sofreu influências do Banco Mundial e do FMI na reestruturação econômica e social do país nos anos de 1980 e 1990, acarretando uma revitalização da economia, mas não conseguiu reduzir os índices de pobreza do país. Além dos problemas estruturais que inviabilizaram o projeto de socialização do campo – através da formação de cooperativas –, a desestabilização do Estado também ajudou a afetar a organização dos cinturões verdes.
O início da União Geral das Cooperativas (UGC) deu-se com pessoas ligadas a uma agricultura de subsistência, que na sua maioria são formados por grupos femininos. A UGC é uma união de cooperativas com uma dimensão multissetorial, enraizada entre as camadas mais pobres da sociedade, cujo princípio é baseado na autogestão. Sua filosofia é criar condições econômicas e sociais que permitam aos cooperativados melhorar sua capacitação para tomarem decisões que melhorem os seus desempenhos profissionais. Tal posicionamento pode ser visto como uma forma que transforma a situação dessas pessoas, levando os seus associados a adquirirem capacidades que lhes permitam alterar o curso dos acontecimentos em seu próprio benefício (GIDDENS, 1976; CRUZ e SILVA, 2002).
Na sua fase inicial, a UGC, enquadrada nas políticas que visavam a construção do socialismo, aparece associada aos Grupos Dinamizadores
representando o partido e à Organização da Mulher Moçambicana. O crescimento das cooperativas e a necessidade de resolver muitos dos seus problemas almejavam uma maior descentralização de poderes e maior participação efetiva das mulheres nas cooperativas. Desse modo, a UGC precisou distanciar-se dessas duas instituições para promover um processo emancipatório cheio de dificuldades dadas as características dessa população45.
Nessa fase, o objetivo principal era criar um planejamento que permitisse produzir um suplemento alimentar e um rendimento adicional para minimizar a carência dos grupos familiares. Porém, faltava formação técnica básica a seus membros e infra-estruturas adicionais que garantissem o aprovisionamento alimentar para cooperados e seus familiares. À medida que isso foi se resolvendo, organizaram-se uma “loja móvel” para o abastecimento da cooperativa, creches e um serviço embrionário de saúde comunitária. Em 1981, havia 24 cooperativas com 1.177 membros, este número aumentou para 194 cooperativas e 10.500 membros, em 1986 (CRUZ e SILVA, 2002). O aumento de cooperativas deveu-se à possibilidade de acesso aos bens de consumo, instrumentos, fatores de produção e os benefícios sociais concedidos aos seus associados e, principalmente, à autonomia que as cooperativas conquistaram em relação às instituições políticas a que estavam ligadas anteriormente. Os ideais cooperativistas foram sendo conquistados e implantados ao longo do desenvolvimento do empreendimento. Percebe-se que existe uma hierarquia entre a UGC e as cooperativas, mas o valor de democracia e participação implantados nas tomadas de decisão demonstram haver preocupações de ordem solidária entre as pessoas que compõem a organização.
Internamente, as cooperativas passaram por processos de melhoria das formas de organização e escoamento da produção; dos métodos de trabalho e a introdução de formas democráticas de controle; e de tomada de decisões por meio de Assembléias. Processo este que foi amadurecendo gradualmente e
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exigindo, cada vez mais, uma gestão eficiente, transparente e baseada em formação técnica46 dos associados.
O crescimento das cooperativas levou à criação das “uniões de zona” (em um total de 10) para as eleições dos representantes de um grupo de cooperativas, em cada zona com voz na Assembléia Geral da UGC (que é realizada uma vez por mês). É nessa instância que se discute a vida da união e se tomam as principais decisões das cooperativas. As formas democráticas de controle das atividades e a melhoria das condições de vida e trabalho foram um processo de aprendizagem para todos.
Em termos concretos, a UGC transformou-se em um dos principais fornecedores de carne e vegetais de Maputo e arredores. Iniciou-se, posteriormente, um período de modernização das cooperativas com a introdução de bombas, poços de água e eletrificação das áreas onde estavam instaladas as cooperativas e unidades de produção. CRUZ e SILVA (2002) escreveu que, nessa fase, já foi possível “distribuir um salário mensal47 às cooperadas, correspondente a um pouco mais que um salário mínimo, que funcionava como uma renda certa no grupo familiar, garantindo assim a confiança dos seus membros no crescimento das cooperativas e maior estabilidade nas famílias”.
O maior problema enfrentado foi a competitividade do mercado, pois a concorrência estava se tornando cada vez mais acirrada. Houve um processo gradual de desmobilização dos cooperados, aumentando a vulnerabilidade do empreendimento causado pelas reformas econômicas implantadas no país. Muitas mulheres cooperadas ingressaram na economia informal no final da década de 1980. Porém, as que ficaram nas cooperativas não aceitavam o regresso dos membros, pois valorizam o fato de terem conquistado melhorias nas suas condições de vida a partir da cooperativa. Fazendo um balanço das cooperativas, mesmo com a crise econômica do país, a autora afirma que
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Em 1981, foi criado o primeiro centro de formação para camponeses, oferecendo oportunidades de alfabetização e educação de adultos, além da formação técnica em agropecuária. Em 1986, havia quatro centros educacionais e mais uma escola secundária.
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O termo salário está intrinsecamente ligado a uma relação capitalista de produção, não devendo ser empregado para os casos dos empreendimentos econômicos solidários que utiliza o termo “renda”. Portanto, há um equívoco por parte de CRUZ e SILVA (2002) ao usar o termo salário.
aumentou o rendimento individual de cada sócio e que as unidades de apoio social tornaram-se independentes da UGC (CRUZ e SILVA, 2002).
A década de 1990 representou um crescimento qualitativo e quantitativo da UGC, que foi registrada como “empresa jurídica” em março de 1990, passando a ser uma empresa cooperativa com 185 cooperativas, 12 zonas e 5.500 sócios. Os seus órgãos sociais são constituídos por uma Assembléia Geral, um Conselho Diretivo, Conselho fiscal, Comissão de Gestão e Conselho de Controle, eleitos democraticamente.
Nos últimos anos, a UGC diversificou mais a sua produção com a plantação de flores e cajueiros. Era a possibilidade de levar essas culturas a grandes extensões de terra e construir fábricas de processamento de castanha de caju. Em 2000, a UGC funcionava como uma holding, onde seus 5.500 sócios representam as shareholdings. Em 1997, criou uma organização não- governamental que funciona como uma cooperativa de poupança e crédito, porém continua a depender de doações do financiamento externo e de empréstimos bancários para sobreviver.
No ranking das 100 maiores empresas de Moçambique, realizado pela KPMG International, tendo como quadro principal o volume de negócios de
1999, a UGC estava classificada na nona posição, comparada a um conjunto de 15 empresas do ramo de alimentação e bebidas.
As cooperadas mais velhas podem ter aposentadoria assegurada, há postos de saúde pública, creches, um conjunto de escolas de nível primário e secundário e formação média técnica. A autora constatou, em sua pesquisa, que há mulheres com grande capacidade de gestão, liderança e organização, no entanto, em contraposição, há outras cooperadas que só eram sócias por uma questão de sobrevivência.
Para a autora esse é um campo privilegiado para o “surgimento de rupturas com uma cidadania socialmente restrita e fragmentada e para fazer emergirem elementos emancipatórios” (CRUZ e SILVA, 2002, p. 429) e para a construção gradual de novas atitudes e valores.
O sucesso da UGC depende claramente da integração de suas cooperativas, da inclusão social das mulheres na construção de uma
alternativa que deu aos seus membros o papel de sujeitos de uma transformação. As formas democráticas de gestão e de tomada de decisões, feitas pelos cooperados, foram a alavanca que determinou essa mesma transformação e que permitiu a construção de um saber solidário (SANTOS, 1998; CRUZ e SILVA, 2000).