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Da historiografia oficial gaúcha à produção historiográfica específica voltada ao imigrante, algumas características se modificam, mas a base do raciocínio sobre a política é muito semelhante. Nesse sentido, é fundamental iniciar pelo aspecto religioso que, como ponto de partida, marca profundamente a narrativa sobre a sociedade colonial. Dessa forma, nenhum exemplo pode ser melhor para ilustrar a visão sobre esse universo do que uma das obras de referência sobre a imigração italiana, cujo autor é Olívio Manfrói, Colonização

Italiana no Rio Grande do Sul: implicações econômicas, políticas e culturais, publicada em

1975, em pleno ano das comemorações do centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul (1975). A obra é uma síntese-chave da visão construída pela Igreja Católica sobre o imigrante, com o estatuto de estudo científico-acadêmico. Manfrói pesquisou, além de

arquivos nacionais,38 em material internacional, como o da Província dos Capuchinhos, de

Savoie-França, Cúria Geral dos Carlistas em Roma e do Centro Studi Emigrazione, em Roma. O argumento central da obra é o de que o isolamento dos colonos só pode ser superado graças ao apego à religião católica, fato que os impediu de acaboclar-se, mantendo a coesão social e cultural, e construindo uma ordem social quase autônoma em relação ao governo nacional.

As capelas, como o centro da vida social, foram o elemento de amparo nos primeiros tempos, tornando-se, posteriormente, propulsoras de um processo de desenvolvimento que havia levado a sociedade colonial ao momento histórico em que se encontravam. Segundo Manfrói,

a Religião Católica foi, sem dúvida, a força que permitiu aos imigrantes italianos se integrarem no novo ambiente e formar aquela solidariedade indispensável para enfrentar todas as dificuldades materiais e psicológicas dos primeiros tempos. [...]. Foi em torno da religião e da expressão de seus sentimentos religiosos que eles encontraram a própria identidade cultural, único meio capaz de evitar o desajustamento social (1975, p. 193).

O rompimento do papado com o Estado Liberal na Itália e a condição de isolamento encontrada no Brasil seriam argumentos suficientes para a negação da política, seguida pela visão heróica do imigrante ao sobrepujar todas as dificuldades da nova vida. Nesse sentido, recorrer a Deus e à religião seria aquilo que lhes restava. Interessa notar que o autor trata as colônias como italianas, porém, marca claramente a isenção política desse conceito com

38 Arquivo Público do estado do Rio Grande do Sul (Relatórios e falas dos presidentes das províncias;

Mensagens do Presidente do Estado 1894-1929; Relatório da secretaria dos Negócios e das Obras Públicas, 1894-1928). Arquivo Nacional (Relatórios do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, 1860- 1900). Arquivo e Museu da Colonização Italiana de Nova Palma – RS. Arquivo da província dos Capuchinhos do RS.

qualquer tentativa de impor uma italianidade por parte do governo italiano, ao mesmo tempo em que distancia os colonos das interferências da política estatal brasileira. Assim, os colonos estariam em uma espécie de limbo, num estágio zero de organização em que a religiosidade e

a catolicidade os haveriam de salvar.39 Enfim, não é a política que une e constrói o mundo,

mas o fator cultural-religioso.

É a mesma forma pela qual os intelectuais que pensaram a sociedade gaúcha haviam analisado a questão, afirmando que o problema do imigrante não era político. A única diferença era a de que se eles podiam se arrogar o direito de dar uma cultura já estabelecida e definida aos estrangeiros, Manfrói prefere acreditar que os últimos conseguiram construir algo original e independente, pelas suas próprias forças e, após, se integrarem à sociedade nacional.

A interpretação de uma história clericalizada não é gratuita, haja vista a grande ascendência da Igreja Católica na região de colonização italiana. O domínio dessa instituição, consolidado na década de 1930, possibilitou a construção de um discurso enquadrado nos moldes idealizados pelo clero romanizador e ultramontano, sendo a história narrada a partir

desses princípios.40 Elite intelectual e porta-voz dos imigrantes, seu projeto de poder era o de

formar núcleos em defesa de uma ordem pontificial. Os colonos, subordinados à sua influência, não encontravam formas mais concretas de ascensão social a não ser entregarem seus filhos às ordens religiosas para serem educados nos seus seminários nas suas e escolas. (GIRON, 1994, p. 55). Responsáveis, pelo que pressupunha Manfrói, pela manutenção de uma unidade cultural e sobrevivência social em ambiente estranho, contribuíram também para “prolongar a agonia da cultura antiga e retardar a adaptação à nova Terra” (GIRON, BERGAMASCHI, 1996, p. 45). É inegável, portanto, o peso que exercera na formação de uma estrutura concreta de poder, seja material ou espiritual. Seria difícil pensar a historiografia imigrante italiana sem recorrer à imagem formatada pelo clero, e muito menos sem os estudos por ele produzidos.

O nome mais importante a ser lembrado aqui é o de Rovílio Costa, frei capuchinho, e um dos principais historiadores da imigração no sul do Brasil. Suas obras, individuais ou em

39 Manfrói parece, em certos momentos, reeditar uma certa história providencialista, embora trate das políticas

imigratórias brasileira e dos problemas e atritos na constituição e organização das capelas, sendo que a religiosidade é uma força que se sobrepõe a tudo, produzindo uma ordem harmônica e progressiva.

40 Como romanizadora, essa história buscava, na liderança do papado, na hierarquia e nos preceitos ditados pela

Igreja, a forma ideal de conduta; como ultramontana, condenava a influência secular, laica e de todos os valores liberais da vida moderna na organização social, produto gerado pela crise da constituição do Estado italiano e da tomada de Roma pelos liberais, em 20 de setembro de 1870. A orientação de abstenção dos católicos, quanto à vida política institucional, foi um fator-chave responsável pela construção de um imigrante sem pretensões ou interesses pela mesma. (SOUZA, 2000, p. 76);(VIEIRA, 1980, p. 32).

parceria, são importantes fontes de consulta, e fundamentais para o conhecimento do processo

imigratório.41 Seja pelo levantamento de dados, tradução e publicação de documentos oficiais,

ou pelo trabalho antropológico desenvolvido, Rovílio Costa pode ser considerado a síntese e o nome máximo daquilo que a Igreja Católica representa e representou, independente de seus vínculos ideológicos e da visão historiográfica daí resultante. Por fim, o ponto-chave dessa concepção religiosa é o de uma comunidade unida e moralmente virtuosa, cujo centro é a Igreja e seus valores. Esse argumento serviu e serve como ponto de sustentação no processo de inclusão do imigrante na sociedade brasileira e gaúcha, mas essa inclusão vem precedida, obviamente, de uma reclusão. Como afirma o próprio Rovílio Costa, o colono “percebe com clareza a distância existente entre ele e os detentores do poder, mas atém-se à recusa sistemática do governo, sem elaborar um projeto alternativo. Essa recusa não se exprime por

atos de violência – salvo em alguns casos locais” (COSTA, DE BONI, 1979, p. 194). Em

seguida, argumenta:

Os imigrantes, embora se tenham integrado com relativa facilidade e rapidez na vida econômica do Estado – à qual deveram boa parte de sua prosperidade –, permaneceram contudo culturalmente isolados (o que lhes facilitou a vida na nova terra). Conservaram a língua, a mentalidade, os costumes de suas religiões europeias. Ingressando agora nos noviciados e escolasticados não iam abrir-se à mentalidade latifundiário-pastoril sul-rio-grandense, refratária aos movimentos eclesiásticos reformistas. Estas casas de formação, pelo contrário, eram centros de preservação e aprimoramento cultural importados da Europa: os filhos de agricultores europeus aprendiam como religiosos europeus a formular em termos científicos e teológicos seu modus vivendi. Passados poucos anos, estes mesmos filhos de agricultores haveriam de dispersar-se pelo Estado todo para, com uma disposição invejável, promover uma revolução cultural no solo gaúcho (COSTA, DE BONI, 1979, p. 198).

Mais recentemente, porém, estudos têm revelado as contradições e falhas produzidas por esse clássico modelo de narrativa. Isso possui relação, evidentemente, com o próprio recuo e a perda de influência da Igreja nas últimas décadas, assim como o desenvolvimento de centros de estudos acadêmicos em História – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Universidade de Caxias do Sul (UCS), Universidade do Vale dos Sinos

(UNISINOS) e Universidade de Passo Fundo (UPF) – voltados à área, juntamente com um

processo de organização de arquivos regionais. Nesse sentido, a pesquisa de Paulo Possamai,

“Dall’Italia siamo partiti”: a questão da identidade entre imigrantes italianos e seus

descendentes no Rio grande do Sul (1875–1945), é uma importante referência em se tratando

da forma como a Igreja estruturou-se e passou a exercer sua força entre os imigrantes.

41 Sobre algumas referências do autor, ver: (COSTA, BATTISTEL, 1982); (COSTA, 1992); (DE BONI,

Possamai analisa os atritos internos do clero e a resistência dos colonos à imposição disciplinar do projeto romanizador e ultramontano, as implicações étnicas, políticas e sociais do fato, de forma a demonstrar que a consolidação de uma hegemonia religioso-católica foi produto não de uma homogeneidade, nem de um sentimento religioso genuíno e unânime, como afirmava Manfrói, mas de um longo processo de lutas internas da própria Igreja e de um “enquadramento comportamental” aos imigrantes, levado a cabo pelas ordens religiosas

comprometidas com o projeto.42

Isso demonstra, por si só, as intenções da Igreja, seu objetivo de poder e sua interferência no âmbito político, fato facilmente verificado pelos seguidos atritos entre autoridades constituídas e clero, imigrantes ligados à maçonaria ou mesmo que professassem a fé protestante, e, ainda, os que pretendiam maior autonomia ou maior moralidade clerical em suas práticas religiosas. Como lembra Giron, “o papel de mediação da Igreja parecia não

se limitar apenas a unir os imigrantes ao Senhor” (1994, p. 52). Mais do que isso, por vezes,

os desunia. São constantes as reclamações de padres e colonos na difícil situação de uma deficiente ordem em construção.

Em setembro de 1884, o administrador da colônia Dona Isabel recorre ao bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira para interferir nos atritos entre o vigário recém empossado, João

Menegotto, e o padre Augusto Finotti, segundo a queixa de que este último “promove a

discórdia entre os agricultores da localidade. Rogo a Exª Reverendíssima se digne a tomar

providências necessárias para garantir a tranqüilidade pública da paróquia” (ACM, Paróquia

Santo Antônio de Dona Isabel, 19 de setembro de 1884). É difícil saber efetivamente quais

discórdias semeava Finotti.43 O fato é que, alguns meses depois, João Menegotto, em carta ao

bispo, volta a pedir a intervenção, afirmando que “Augusto Finotti vai continuando a

42 “Os imigrantes italianos não se enquadravam perfeitamente no modelo desejado pelos ultramontanos. Diante

do imigrante idealizado pela Igreja e pelo governo brasileiro, insurgia-se o imigrante real que muitas vezes se dava ao benzimento, curandeirismo, blasfêmia, alcoolismo e violência. Aos bispos coube a tarefa de submeter à autoridade episcopal os padres liberais e enquadrar os imigrantes na vertente ultramontana do catolicismo. Seria essa a tarefa das ordens religiosas chamada para cuidarem dessa tarefa, os capuchinhos e os palotinos, sobretudo” (POSSAMAI, 2005, p. 125). O autor procura, através de uma ampla revisão bibliográfica, pontuar as discrepâncias entre as práticas religiosas sociais dos imigrantes e as pretensões do clero ultramontano, exemplos que não interessa aqui repisar e repetir. Outros livros de referência a respeito dessa problemática são: (VÉSCIO, Luiz Eugênio. O crime do Padre Sório: maçonaria e igreja católica no Rio Grande do Sul [1893-1928]. Porto Alegre: UFGRS; Santa Maria: UFSM, 2001); (VENDRAME, Maíra Inês. “Lá éramos servos, aqui somos senhores”: a organização dos imigrantes italianos na ex-colônia Silveira Martins: 1877-1914. Porto Alegre: Universidade Federal de Santa Maria, 2007). Os exemplos de atritos e discordâncias que serão citados a seguir, de certa forma, seguem a mesma linha de argumentação, porém, possuem a razão de observar, na medida do possível, como os colonos viam esse clero e suas práticas, as contradições originadas desse processo e o que, enfim, as pode ter determinado.

43

Uma possível explicação talvez seja a origem étnica dos padres pois, Finotti era trentino enquanto Menegotto, nascido na província de Pádua, mantinha boas relações com o governo italiano tendo sido o primeiro agente consular na colînia Dona Isabel.

perturbar sem licença a jurisdição da sobredita freguesia sujeita à cura do escrevente,

promovendo a discórdia e fazendo abusos na povoação” (ACM, Paróquia Santo Antônio de

Dona Isabel, 19 de novembro de 1884).

Seguem, novamente, prenúncios de desordens e pedidos de proibição de Finotti em frequentar a dita colônia. Em outro comunicado, há a acusação de já possuir precedentes por

ter sido expulso da freguesia de Caxias pelos mesmos atos de abusos e “más pretensões”

(assinam Antônio Valduga e Francisco, ambos paroquianos). (ACM, Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, documento sem data).

O vigário João Menegotto, no entanto, não era unanimidade. Em dezembro de 1884, o paroquiano Leopoldo Redotti denuncia ao bispo as artimanhas de poder do padre, acusando- o da morte do antigo capelão, Domingos Munari, obrigado a se retirar para uma linha lateral,

aí falecendo;44 de mancomunar-se e ganhar a simpatia, tanto de D. Sebastião, quanto da

diretoria da colônia;45 de fomentar intrigas para retirar padres benquistos pelas comunidades

interioranas, como o padre Davi Fontini, na Linha Leopoldina – primeiro, tentando jogar os

moradores mais abastados contra Fontini. Não tendo efeito esse expediente, recorreu à

influência da diretoria da colônia – e o já conhecido Augusto Finotti. Denuncia, ainda, que

Menegotto proclamava a todos que não havia bispo algum que mandasse na colônia e que deveriam agradecer e recorrer a ele, na necessidade de um sacerdote. Redotti conclui que o vigário pretendia apoderar-se da riqueza dos colonos, por isso desejava ficar como único

padre, mas os próprios paroquianos sabiam distinguir e viver segundo “as regras de Deus e

não do diabo”.46

Da mesma opinião era Luís Valduga, denunciando que Menegotto havia acumulado uma grande fortuna igual a outros cristãos não muito fervorosos, se negando a benzer casas de desafetos e fazendo prenúncios desastrosos do altar contra os mesmos. (ACM, Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 11 de janeiro de 1886). Aqueles que não pagassem suas obrigações com a paróquia não seriam confessados, caso de Maria Gurgel, moribunda da Linha Palmeiro, que não havia recebido os sacramentos por ser sua família miserável. (ACM, Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 15 de abril de 1888). Outros casos de negação em ministrar sacramentos a moribundos eram denunciados, como o acontecido com José Tagliaro. A

44 Munari havia falecido em 27/03/1878, no interior da colônia, ao levar um coice da mula que montava.

(RUBERT, 1998, p. 286).

45 Possamai lembra as boas relações de Menegotto com a administração e os representantes políticos liberais

sendo, inclusive, o primeiro agente consular italiano na vila de Dona Isabel. (POSSAMAI, 2005, p. 121).

46 Os abusos que Menegotto cometia eram escandalosos, afirmava Redotti, como na ocasião em que havia

fraturado algumas costelas, sendo que se mobilizou grande multidão para visitá-lo, entre os quais os grandes da colônia, recebidos, inclusive, por um magnífico almoço. (ACM. Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 20 de dezembro de 1884).

defesa do pároco consistia em que “não recebeu os sacramentos, porque eu fui chamado no último momento, e não era mais tempo, fui chamado à meia noite por um moço bêbado; o

morto era contagioso e o doente morreu de varíola” (ACM, Paróquia Santo Antônio de Dona

Isabel, 11 de junho de 1888). Gaetano Faez acusava-o de se adonar da casa canônica e da igreja, bem como dos melhores terrenos da vila, reclamava que os colonos já haviam recorrido às autoridades, denunciando os abusos, mas que nunca tinham recebido nenhuma satisfação. Até mesmo os padres recém-chegados na paróquia não encontravam local para residirem devido à situação criada pelo vigário. (ACM, Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 19 de janeiro de 1891).

Lutas por criação de freguesias, como a da Linha Zamith, e de capelanias, como a Linha Palmeiro, que acarretavam o desmembramento da Igreja Matriz de Santo Antônio,

também serviam para indispor Menegotto com os colonos.47 Na verdade, o problema residia

também em neutralizar os padres que aí atuavam, pois, em carta dirigida ao bispo, acusava Pe. Mateus Pasquali e Davi Fortini de insubordinação, sendo que o segundo atuava nas linhas próximas a Zamith, inclusive tendo residido por um período na localidade, e não há especificações acerca das linhas onde atuava o segundo deles. Os principais motivos se referiam ao fato de que celebravam e cobravam pelos sacramentos ministrados sem prestar contas ao vigário, não repassavam informações sobre batismos, nem casamentos, e enterros realizados em desrespeito ao próprio diretor da colônia. Assim sendo, solicitava a proibição da licença concedida pelo bispo aos referidos padres e de suas expulsões da região, questionando a jurisdição em que atuavam. (ACM, Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 02 de maio de 1883).

De fato, os fatores aqui postos podem nos fornecer algumas pistas. A necessidade de centralização e de organização de um poder institucional da Igreja jogava com a força de divisão do próprio clero e os anseios dos colonos. Era evidente que padres como Mateus Pasquali e Antônio Fontini exerciam influência nas localidades onde atuavam, procurando

47 No primeiro caso, Menegotto argumentava que “em primeiro lugar é um ângulo, não é centro para formar um

país; em segundo lugar porque a Linha Zamith é próxima à Igreja Matriz de Santo Antônio de Dona Isabel. A distância da Linha Zamith da sede de D. Isabel tem duas léguas, em terceiro lugar não tem igreja, mas unicamente uma capelinha de madeira provisória construída há cinco anos sem licença, tem somente paramentos para celebração da santa missa e nada mais, não tem água, não tem população suficiente naquela localidade”. É verdade, porém, que Menegotto sugeria outra localidade como sede de nova paróquia, Linha Armênia, atribuindo todos os elementos faltantes na primeira a esta segunda. Mesmo assim, as implicações pareciam serem outras. (ACM. Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 22 de setembro de 1888). No segundo caso, os próprios moradores sustentavam que a localidade era bastante grande para ser atendida por um padre residente na Vila Dona Isabel; que o local onde seria erigida a capela era o ponto de contato com as comunidades vizinhas e que, no porvir, poderia esta a vir se tornar freguesia; que a população da comunidade tinha condições de sustentar um padre sem dificuldades; por fim, que possuía fontes de água. (ACM. Paróquia Santo Antônio de Dona Isabel, 28 de outubro de 1890).

fomentar a autonomia delas através de pedidos para elevação de freguesias e capelanias com padres residindo aí fixamente, descentralizando e enfraquecendo o poder de Menegotto. Certamente, as dificuldades financeiras enfrentadas pelo clero pesavam consideravelmente nessa luta. Em uma sociedade materialmente pobre, a sobrevivência de um sacerdote teria de vir da possibilidade de administrar e arrecadar fundos das capelas, freguesias ou paróquias, daí as acusações de Menegotto sobre as discórdias, divisões e os abusos que os padres provocavam no interior da colônia. Os próprios colonos, por sua vez, sabiam distinguir as possibilidades que suas ações podiam alcançar. Viam como imoralidade as pretensões descabidas do vigário em acumular dinheiro, agravada pelas ligações que possuía com os administradores da colônia. Sabiam da importância que um padre próximo representava e usavam isso como suporte para criar um espaço de ação política frente aos interesses de grupos aos quais não se identificavam plenamente. Mas o fato é que suas reivindicações chegavam ao bispado, o que colocava Menegotto na obrigação de responder às críticas medindo forças com os próprios colonos. Enfim, a recorrência ao poder institucional prova que não havia uma efetiva negação do mesmo pelos imigrantes, e que eles sabiam de sua importância, e como poderiam usá-lo.

Por sua vez, a posição do vigário também não era simples. O dever pelo

cumprimento de determinadas obrigações – é preciso lembrar que ainda se vivia sob a

vigência do padroado – tornava difícil o exercício das diretrizes legais num contexto em que

limites jurídicos ou mesmo espaciais eram bastante indefinidos. Os vínculos e as ações

políticas naquela dada situação colocavam – e sempre haveriam de colocar – em contradição

o mais fervoroso e disciplinado clero quando os problemas mundanos exigiam práticas concretas, num âmbito de relações sociais minimamente objetivas. Talvez Menegotto, e o