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“Tínhamos uma aula maravilhosa com a Dna. Yarami Pires de Moura, era a aula de Educação Doméstica. Aprendemos noções de culinária, de como administrar o lar, puericultura para educar nossos filhos e esta mestra, nos passou tudo o que sabia e muito mais.Havia uma horta cuidada pelos funcionários e alunos. Desta horta saíam verduras e legumes para a cozinha da Dna. Yarami e para o internato que abrigava os alunos de outras cidades, o qual ficava sob a guarda do Sr. Garcia.Todas as receitas elaboradas eram experimentadas pelas próprias alunas. Levávamos também ingredientes para a preparação dos pratos.”(depoimento Sr. Maria de Lourdes Faleiros Lopes)

Relatos como esse de uma aluna do curso de corte e costura da década de 1950 revelam os valores presentes no universo feminino da época. Na escola profissional de Franca, os cursos femininos não formavam mão-de-obra para a indústria, preparavam as alunas para serem mães, donas de casa, o que de certa forma atendia às expectativas dos pais que não queriam que as filhas trabalhassem fora de casa e das próprias alunas que, educadas segundo o padrão conservador da sociedade da época, viam no casamento um objetivo para suas vidas.

Figura 19: Oficina Feminina [s/d]. Fonte: Acervo da Escola

No entanto, para a Superintendência do Ensino Profissional, os cursos femininos passaram a ser vistos como um meio para divulgar as novas propostas de reforma da sociedade surgidas na esteira do movimento de racionalização. Com este objetivo, foi incorporado às escolas profissionais o setor de economia doméstica responsável pelos Dispensários de Puericultura e por agregar aos cursos as disciplinas de higiene e dietética. Dessa forma, caberia à mulher o papel de disseminar mudanças de comportamento a partir do próprio lar.

Figura 20: Dispensário de Puericultura [s/d]. Fonte: Acervo da Escola.

Para alcançar estes objetivos, cada curso tinha uma especificidade, os cursos de alimentação, por exemplo, visavam difundir fundamentos de uma alimentação racional que proporcionassem uma “melhoria da raça”, como se vê a seguir:

Em inquérito organizado pelas alunas do curso de Formação de ‘Auxiliares em Alimentação’ concluiu-se que a população brasileira é formada por desnutridos. Não só porque a quantidade de alimentos que consome é escassa, mas principalmente, porque a qualidade deles é pouco satisfatória. ‘Não basta ter em vista que da qualidade e quantidade dos alimentos dependem o bom desenvolvimento individual e a melhora das condições raciais’ (do opúsculo ‘Aprenda a alimentar-se’ do Departamento do Ensino Profissional). O Departamento de Ensino Profissional, cooperando na solução do magno problema nacional resolveu instituir os Cursos de ‘Auxiliares em Alimentação’ que empreendem o planejamento de rações adequadas a satisfação das exigências fisiológicas de indivíduos e coletividades entregues às mais variadas atividades (O FRANCANO, 6/9/1953).

Este texto é parte de um artigo publicado no jornal local para divulgar o início do curso de auxiliar de alimentação que a escola industrial passaria a oferecer. Eram cursos rápidos oferecidos gratuitamente com duração de quinze aulas práticas e quinze aulas teóricas e tinham como objetivo a divulgação de conhecimentos de alimentação.

Antes mesmo de terem início os cursos de alimentação, já funcionava, desde a década de 1930, o Dispensário de Puericultura, que prestava assistência médica, orientava e distribuía às crianças carentes alimentos que complementassem sua alimentação. O Almanaque de Franca correspondente ao ano de 1943, elogiava o Dispensário como “uma instituição de altos fins eugênicos” e de grande alcance social:

Se é, em verdade, mal conhecida da maioria, isso não se dá com as mães pobres que alí vão buscar alimento e instrução para seus filhinhos. Nesse trabalho a Franca muito deve á abnegação do Dr. Chafi Facuri, que chefia aquele serviço de alto valor social (NASCIMENTO; MOREIRA, 1943).

A organização de cursos dessa natureza e atendimento à população, como o que era feito no dispensário em algumas unidades da rede estadual de ensino profissional, são exemplos da utilização do ensino profissional na propagação e valores contidos em movimentos como o eugenista, consagrado nos meios intelectuais da época. Nesta mesma categoria está o curso de higiene, que era inspirado nos preceitos de medicina social disseminados nos Estados Unidos e que ganhou força no Brasil a partir do início do século XX em função do desenvolvimento urbano-industrial e crescimento demográfico.

O médico Geraldo de Paula Souza assumiu a direção do Serviço Sanitário de São Paulo em 1922 e passou a implementar um modelo de administração sanitária veiculados pela Fundação Rockfeller, instituição norte-americana onde havia sido bolsista e, juntamente com Pompeu do Amaral, médico-chefe da Superintendência, empenhou-se em programas que divulgassem uma “consciência sanitária” com a finalidade de popularizar práticas de higiene no combate a doenças infecciosas (RIBEIRO, 1986). Em Franca, o curso de Higiene estava incorporado ao setor de economia doméstica e era ministrado pelo médico Newton Novato.

Além dos cursos, a escola profissional submetia os alunos a exames médicos periódicos visando detectar doenças contagiosas para que fossem encaminhados para tratamento. No relatório do diretor da escola profissional para o ano de 1938, há uma referência a envio de alunos para colônias climatéricas destinadas a “zelar das condições do estado orgânico dos profissionalinos”:

[...] foram encaminhados ao Posto de Higiene local, onde após o indispensável exame médico, preencheram-se as fichas individuais destinadas a um controle exato dos sintomas característicos dos organismos enfermos, a fim de serem processados os seus respectivos tratamentos. Cumpridos os requisitos essenciais, enviamos às colônias climatéricas de Santos, de acordo com as vagas existentes, três alunos que ali permaneceram durante todo trimestre, recebendo tratamento adequados aos seus casos mórbidos (RELATÓRIO DE DIRETOR, 1938).

Todo esse conjunto de atividades representa a contribuição da escola profissional para colocar em prática alguns ideais de um grupo de profissionais de várias áreas que, desde o início do século XX, passaram a discutir os principais problemas que contribuíam com o atraso do país. Baseado nos princípios de racionalização, esse movimento de disciplinarização social propunha mudanças no espaço urbano, na fábrica, na casa, nos costumes.