A cultura Hip Hop não tardou em chegar, em terras brasileiras, com os primeiros registros já no início da década de 1980. É interessante salientar, no entanto, que os bailes blacks aconteciam em algumas localidades do Brasil, desde a década de 1970 e que influenciaram também na forma como o Hip Hop passou por transformações no contexto brasileiro. Mas destacaremos apenas São Paulo e Rio de Janeiro, locais em que os rappers dos Racionais MC‟s e MV Bill são provenientes e para se entender um pouco melhor a práxis desses rappers.
Em São Paulo, os bailes eram organizados por equipes, de acordo com Yoshinaga (2014), como a Zimbabwe, Black Mad, Soul Machine, Harlem Brothers, Princesa Negra, The Brothers of Soul, Galotte, Coqueluche, Tranza Negra, Musicália e Os Carlos e a mais famosa, a Chic Show, que organizava eventos grandes e com um público também expressivo. Como se percebe, muitas equipes tinham nomes apenas na língua inglesa, talvez uma influência de estilos musicais, como o soul, que começou a se popularizar em terras norte-americanas e também no mundo.
O pernambucano Nelson Triunfo, que passou a residir em São Paulo, sobressai- se nesse contexto dos bailes. Triunfo participou de alguns grupos, entre eles o Invertebrados e o Black Soul Brothers. Este último grupo foi formado por Nelson e outros dançarinos a fim de acompanhar o trabalho musical de Miguel de Deus que discotecava para a equipe Black Soul, organizada por Moisés da Rocha, Sérgio Lopes e Eraldo Zani. Assim, em 1977, Miguel de Deus lançou o álbum Black Soul Brothers, de tendência soul e funk, tendo Triunfo como coautor da canção “Mister Funk”. Depois de várias apresentações com a equipe e Miguel de Deus, o dançarino decidiu formar um novo grupo, só de dança black, o Nelson Triunfo e Funk & Cia. Desse modo, esse grupo fazia apresentações em bailes blacks que aconteciam em vários pontos da cidade (YOSHINAGA, 2014).
No Rio de Janeiro, os DJs Big Boy e Ademir Lemos começaram, na década de 1970, a organizar evento realizado aos domingos, o chamado Baile da Pesada, no
Canecão, que chegava a reunir cerca de cinco mil pessoas. No entanto, a direção do Canecão não quis mais realizar esse evento, alegando que este havia se tornado muito popular e o Baile da Pesada passou a ser itinerante, migrando para clubes menores, principalmente, os das comunidades. Outros bailes aconteciam paralelamente a este, na Baixada Fluminense, organizados pelas equipes Black Power, Atabaque e Uma Mente Numa Boa e a famosa Soul Grand Prix, organizada por Dom Filó (YOSHINAGA, 2014).
Dom Filó também foi um dos grandes divulgadores da black music brasileira, pois organizava as Noites do Shaft. O nome é uma alusão ao filme americano Shaft, que tinha um negro que interpretava um detetive, a personagem principal, e foi produzido no contexto do movimento cinematográfico americano denominado de Blaxploitation, cuja trilha sonora era de Isaac Hayes, um dos ícones da black music. Mais tarde, Dom Filó produziu, juntamente com outros músicos, entre eles Oderdan Magalhães, o que seria a Banda Black Rio, ainda em atividade, sendo desfeita por um período, em 1985, após o falecimento de Magalhães, mas retornando aos palcos anos mais tarde.
Outro nome que se destaca é o também carioca Gerson King Combo. Este lançou, em 1969, o álbum Gerson Combo Brazilian Soul. Como tinha muita influência de James Brown, a música que produzia seguia a tendência do funk deste e de outros nomes, sendo considerado por muitos como o “James Brown brasileiro”. Combo lançou outros álbuns e, em 2010, foi tema do documentário Gerson King Combo – Viva Black
Music, e continua fazendo apresentações pelo Brasil.
Todo esse contexto possibilitou que a nova cultura, o Hip Hop, chegasse e começasse a se estabelecer no Brasil, com alguns locais se destacando no cenário de recepção do Hip Hop, como São Paulo, considerado o berço desse movimento no Brasil, e a Praça da Sé, a Estação São Bento do metrô e a Praça Roosevelt, lugares nos quais as pessoas se reuniam, a princípio, para dançar break (MOREIRA, 2009).
O largo de São Bento, por exemplo, funcionava como uma espécie de ponto de diversão ou para disputas entre os b-boys e as b-girls. Algumas vezes, “essas disputas” chegavam à agressão física. Contudo, com o passar do tempo, prevaleceram as competições sem brigas, tal qual acontecia nos EUA, com os dançarinos valorizando a performance artística. Embora em São Bento acontecessem mais performances de dança, na região, também se reuniam MCs e DJs (MOREIRA, 2009).
As pessoas que queriam ampliar seu espaço e dos demais elementos do Hip Hop acabaram migrando para a Praça Roosevelt. Esse local teve forte influência de rappers como o grupo Public Enemy, conhecido por fazer letras que refletiam sobre a condição de vida do negro norte-americano, como no rap “Fight de Power” (“1989 the number another summer (get down ) […] While the Black bands sweatin‟ / And the rhythm rhymes rollin‟ / Got to give us what we want / Gotta give us what we need / Our freedom of speech is freedom or death / We got to fight the powers that be / Let me hear you say / Fight the power […]”).
Como no centro de São Paulo o movimento vinha perdendo espaço, como na Roosevelt, após a morte de JR Blow, em 1990, um dos idealizadores desse espaço, as denominadas crews ou posses, localizadas, sobretudo, nas periferias, começaram a se sobressair no contexto do Hip Hop (MOREIRA, 2009). De acordo com Herschmann (2005, p. 193-194):
[...] nas posses de um modo geral, busca-se fazer um trabalho comunitário através da música, da dança e da pintura, abrindo-se espaço para o break, o smurf dance, o rap e o grafite. Os trabalhos, em geral, se dividem em: organização de oficinas que permitem aos jovens aprender e fazer os seus próprios produtos e a extrair lucro dessa atividade; palestras e atividades voltadas para os problemas mais comuns enfrentados pela comunidade; e realização de eventos para campanhas beneficentes, com o total apoio das comunidades.
Como se percebe, o papel dessas posses ia além de oferecer oficinas voltadas para o divertimento, pois visavam a uma profissionalização por parte de quem as frequentasse. Essas posses, do nosso ponto de vista, funcionavam como muitas entidades não governamentais ao possibilitar o lazer, o trabalho em equipe e a inserção de pessoas no mercado de trabalho.
Essa apropriação e antropofagia realizadas pelos brasileiros fez o movimento
Hip Hop brasileiro ter características que lhe são peculiares. De acordo com Nascimento
(2013, p. 1),
[...] como fruto da exclusão e logicamente como busca de espaço afirmativo que vai se constituindo o movimento Hip Hop brasileiro e o RAP, herdeiro dos cantos falados por jamaicanos e americanos dos bairros pobres, surge como um movimento estético popular que se desenvolveu, ganhou a mídia americana e, consequentemente, o mundo. Surge saído da precariedade, do pouco, utilizando velhos toca-discos que são transformados em produtores de ritmos sobre as quais epicamente constituem-se rimas, frases e histórias.
O caráter épico do rap se relacionaria, então, com dar destaque aos feitos “heroicos” e, muitas vezes, “exemplares”, vividos e produzidos por muitos daqueles que são foco de raps, como os “trutas”, os “157”, os “guerreiros de fé, entre outros que partilham situações e acontecimentos, sobretudo nas periferias. Esse lado épico dos raps também se relacionará com o aspecto cinematográfico que muitos raps adquirem e sobre o qual discutiremos mais à frente.
Com base nesses e em outros aspectos, o Hip Hop brasileiro começava a ser alicerçado e alguns nomes despontavam, tais como Thaíde e DJ Hum, que eram dançarinos de break, mas depois passaram a produzir e cantar raps. Filmes como Lucy
Puma, uma Gata da Pesada, sobre grupo de músicos negros em batalha de trabalho,
dirigido por Ninho Moraes12 e que contou com a participação de Thayde, Lucy Guedes, Skowa e Gigante Brasil, também ajudaram a divulgar a cultura Hip Hop, no cenário nacional.
Alguns álbuns nacionais, no final da década de 1980, são produzidos, com muitos deles saindo na forma de coletânea. É o caso, por exemplo, de Consciência
Black – que continha dois raps, “Pânico na Zona Sul” e “Tempos difíceis”, dos futuros
Racionais MC‟s, que à época cantavam em duplas separadas –, e Hip Hop – cultura de rua, com raps de Thaíde e DJ Hum (MOREIRA, 2009).
Também no final dessa década de 1980, foi fundado o Movimento Hip Hop Organizado (MH2O), que contava com nomes como Milton Sales, Mano Brown, Thaíde e Nelson Triunfo, entre outros, e cujo objetivo era, em 1990, no aniversário da cidade de São Paulo, segundo Andrade (1999), que cada bairro, da capital ou de outros municípios, pudesse se organizar e ter a sua própria posse (MOREIRA, 2009).
Em meio a esse contexto de produção, de performance, de mobilização e de organização que o movimento Hip Hop, em terras brasileiras, começava a ser estruturado, cantado, reelaborado e reacentuado13, com práticas e atitudes que se relacionavam ao projeto de dizer e de vida das regiões e localidades nas quais estava presente. Essa reelaboração e reacentuação percebidas, sobretudo no localismo que o
12 As informações sobre o filme estão disponíveis em:
˂http://www.abcine.org.br/abc/socio.php?id=1403˃. Acesso em: 20 jul. 2015.
13 O que se entende por reelaboração e reacentuação será melhor explicitado no próximo capítulo, mas,
resumidamente, representa, respectivamente, as modificações pelas quais um enunciado/projeto de dizer passa, mesmo que haja diálogo com outros enunciados, e o novo tom valorativo dado pelo falante para esse projeto de dizer.
movimento nacional adquiriu, também são ideias partilhadas por Nascimento (2013, p. 2)
Acreditamos que o movimento Hip Hop e especificamente, o RAP brasileiro seriam exemplos daquilo que hoje se discute: a absorção de modelos culturais globais juntamente com a incorporação de temáticas e práticas locais. Assim sendo, alguns grupos, mesmo utilizando formas muito parecidas com as norte-americanas, essencialmente tratam de assuntos típicos de nossas sociedades e, além de tudo, incorporam posturas políticas próprias.
Como se percebe, a cultura Hip Hop ganhou novos rumos no Brasil e, se na década de 1980 o movimento ainda estava se estruturando, a partir da década 1990 e dos anos 2000, o Hip Hop já era um movimento cujas fronteiras iam além do circuito paulista, adaptando-se e reelaborando-se às peculiaridades dos contextos locais, principalmente em relação às temáticas dos raps. Assim, as políticas próprias sobre as quais Nascimento menciona poderão ser melhores observadas ao expormos os raps trazidos para dialogar, nesta tese.