Historicamente, o desenvolvimento não é um tema novo na ciência econômica. Alguns dos problemas centrais do pensamento econômico clássico, do século XIX, foram a industrialização, o crescimento econômico e as mudanças institucionais necessárias para realizar o crescimento (PEÑA, 1975). O processo de acumulação de capital daquele século, em um ritmo que nunca fora visto até então, foi o impulso necessário para pensar a estrutura da dinâmica econômica, abrindo o caminho para o capitalismo industrial e financeiro, produto do capitalismo comercial dos séculos anteriores e da acumulação mercantilista.
Para Furtado (1980), duas grandes transformações ocorreram na economia mundial no século XIX. A primeira é a intensificação do processo de acumulação de capital e a segunda foi o incremento do comércio internacional, medidas que contribuíram para o aumento da produtividade e consolidaram o paradigma do crescimento econômico.
A industrialização é capítulo importante até hoje nos estudos de desenvolvimento. Para Furtado (1980), a revolução industrial é o ponto de partida do processo histórico que engendrou o sistema econômico mundial, no qual se apoiou a transformação das estruturas sociais dos países envolvidos em processos de industrialização. O desenvolvimento, ou subdesenvolvimento, seria a expressão dessas estruturas sociais que, apesar de serem situações distintas, reforçam-se.
Nesse quadro, para os economistas do final século XIX e começo do XX, era racional entender o crescimento da renda como ponto final do desenvolvimento e até mesmo da própria ciência econômica. Isto pelo fato que se acreditava ser esse um sistema de equilíbrio automático, baseado em um processo de “ação e reação” de regulação dos mercados. Alguns dos vários paradoxos da ciência econômica residem nessa questão, pois ainda que fossem baseados em uma filosofia da teoria da igualdade de oportunidades, desde aquele momento a economia não se preocupou com os problemas criados pela desigualdade econômica produzida pelo processo de industrialização (FURTADO, 1980).
Tal questão foi pensada e respondida por John Stuart Mill que, para Peña (1975), encontrou uma solução “elegante” ao dividir o campo da ciência econômica em dois: o primeiro se ocuparia dos problemas de produção e de troca, e o segundo dos problemas de distribuição. Assim, o primeiro campo seria objeto de estudo e de solução da ciência econômica e o segundo estaria além dessa ciência, transformando-se em um problema político. Declarou-se, portanto, a autonomia da esfera econômica em relação às outras, de modo que a economia ignorou os problemas de desigualdade ou o contexto no qual se deu o crescimento.
Chama-se a atenção ao fato de que a ciência econômica considera a industrialização sempre como um processo de produção, no qual a indústria torna-se o setor dominante da economia e contribui para gerar riquezas, acumular capital e reinvestir esse capital na geração de mais riquezas. Mas, como aponta Rist (2008), se ignora que a produção industrial é, antes de tudo, um processo de destruição. O autor mostra que toda produção envolve destruição (entropia), mas a economia age como se não existissem “custos externos à produção”.
Nesse sentido, esse processo foi utilizado como modelo, desenhado e promovido para o resto da humanidade. Além disso, a história do desenvolvimento ocidental mostra, dentre outras coisas, como outras formas de organização social dificilmente sobrevivem às margens desse sistema socialmente construído. Faz parte da consciência
modernista, que tomou conta do mundo social nos últimos dois séculos, a crença na razão instrumental e no progresso como força histórica que levaria, inexoravelmente, a humanidade para um futuro melhor.
Essa acepção filosófica e histórica da modernidade, do modernismo como período histórico pós-medieval, ou mesmo na sua concepção de movimento artístico, envolve a ideia de ruptura com o velho, com o clássico e o tradicional, enfatizando o novo e o presente (PETERS, 2000). A ideia de que o moderno é “melhor” do que o tradicional, pressuposto construído naquela época, ainda é muito forte nos estudos de desenvolvimento contemporâneo, pelo que é mister entender essa separação.
Nas artes, por exemplo, o artista modernista rompeu com os métodos clássicos e tradicionais de expressão, os quais eram dominados pelo realismo e naturalismo e cuja imaginação era influenciada pela Igreja Católica. Na ciência, o modernismo é inaugurado com o pensamento de Francis Bacon e René Descartes, vinculado a uma crença no avanço do conhecimento científico como algo que iria orientar a história (PETERS, 2000).
No âmbito da “condição” moderna, segundo Lyotard (1998), a consequência imediata desse cenário é fazer da filosofia um metadiscurso de legitimação da ciência, conferindo à filosofia um suposto status de conhecimento superior, que se renovava incessantemente, com base em si mesmo. Cabe, entretanto, concordar com o autor e dizer que a ciência é uma modalidade de conhecimento, que acumula, organiza e distribui certas informações, no sentido de que o saber científico é um tipo de discurso que incorpora questões de humanismo e universalismo para promover-se e legitimar-se. O mesmo pode ser dito sobre o “desenvolvimento”.
Para Peters (2000), o modernismo daquela época criticou as certezas definidas, mas também criou outras como pressupostos de pensamento binário que sustentam uma hierarquia, ou uma economia de valor, que opera pela subordinação de um dos termos ao outro, como nas concepções sobre o “eu” e o “outro”, ou o caso da modernidade
versus a tradição, tão importante para os estudos de desenvolvimento e cooperação
internacional.
Harvey (1989) destaca que o modernismo estimulou e difundiu o uso de práticas materiais e estéticas, como máquinas, sistemas de transporte, comunicação, pontes, edifícios, além de instabilidade e insegurança que indicam um processo de mudança social, muitas vezes não confirmado pelas sociedades atuais. Brasil e Moçambique são um exemplo das falhas das promessas do progresso, do crescimento e do
desenvolvimento, na medida em que esses países vivem uma situação de coexistência entre esses dois “mundos”.
A seguir apresenta-se a agenda dos estudos de crescimento econômico e sua mudança para as teorias contemporâneas do desenvolvimento.