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Esta abordagem foi baseada na montagem de um domínio geoestrutural regional, considerado suficientemente abrangente, aproveitando-se os conceitos de Ricci & Petri (1965) e Soares e Fiori (1976), através dos quais se pudesse observar a compartimentação obtida com base no agrupamento dos elementos preponderantes na paisagem, quais sejam, drenagem e relevo, mas voltadas, principalmente para a situação do local estudado perante tal condicionamento.

Como as formas de relevo expressam as propriedades do material geológico em que se desenvolvem, verifica-se diante da escala proposta, que a composição de imagem é melhor delineada entre os aspectos texturais de drenagem e sua associação com os atributos litoestratigráficos regionais correspondentes às grandes unidades geológicas, definindo-se assim, uma carta de macrocompartimentos litoestruturais.

O padrão de drenagem, definido pelo arranjo espacial dos rios e seus afluentes, foi amplamente explorado na definição de zonas homólogas em estudos de segmentação do meio físico (França, 1968). Em cunho regional, esses arranjos foram buscados com o objetivo de se poder observar a associação das estruturas mais proeminentes com os tipos de elementos texturais existentes.

Considerando-se que a trama dos elementos texturais coincide com as estruturas mais antigas, os melhores arranjos de composição das imagens buscam conjugar os fatores que se quer obter, contrapondo-se a expressão morfológica dos materiais mais antigos, manifestadas com

o distanciamento do foco de análise, à adequação da escala de observação e aos elementos de interesse pesquisados. Verifica-se, portanto, em função da escala de análise, a percepção de macro feições num recuo do tempo geológico, salientando-se assim, de forma mais intensa, essas grandes feições estruturais do relevo.

Os aspectos geoestruturais indicados na Figura 6.4 são bastante abrangentes, dada a sua escala de observação (1:250.000). Esta se encontra intimamente relacionada à quantidade ótima de elementos que devem estar contidos numa fração ideal da imagem, considerando-se, obviamente, o objeto de análise investigado em termos dos aspectos físicos e texturais que se está buscando compreender diante da resolução encontrada.

As condições litoestruturais de compartimentação dos domínios geoestuturais em análise, em ambas as figuras (6.3 e 6.4), submetem a área de estudo a uma situação geotectônica ressaltada tanto por seu posicionamento entre as extremidades do complexo basal cristalino, cujas bordas sobressaem como altos estruturais limitantes de toda a porção sul da bacia sedimentar Bambuí, como pelo seu comprometimento com a situação geodinâmica a que foi submetida ao longo dos eventos tectono metamórficos ocorridos nessa porção sul do cráton. Quatro macrocompartimentos são identificados na Figura 6.4, sendo estes, os seguintes: toda a porção central e noroeste dominada pelas rochas pelito-carbonáticas do Grupo Bambuí; os metassedimentos do Supergrupo Espinhaço ocorrem de forma saliente em grande parte da porção oriental e do extremo nordeste; ao sul, ocorrem os metassedimentos do Supergrupo Minas, e as rochas vulcano-sedimentares do Supergrupo Rio das Velhas, representantes maiores do Quadrilátero Ferrífero (QF); e por fim, em uma faixa extensa que ocupa toda a porção centro meridional do referido domínio, encontram-se os maciços granítico-gnáissicos do complexo basal cristalino associados aos corpos granitóides intrusivos.

Diante dessa compartimentação, observa-se que os contrastes geomorfológicos existentes estão associados aos grupamentos das grandes estruturas que se constituíram em condições geotectônicas pretéritas, datadas do Proterozóico Médio (Sup. Espinhaço) e Inferior a arqueanas (QF) (Almeida & Hasui, 1984; Martins-Neto & Alkimim, 2001), após as quais se depositaram em condições relativamente estáveis, os sedimentos pelito-carbonáticos do Grupo Bambuí, diretamente sobre o complexo basal cristalino.

Os terrenos cristalinos antigos (>2,6Ga) sofreram diversos episódios de deformação, mas, especificamente, antes da deposição dos carbonatos do Grupo Bambuí, podem

ter sido afetados localmente pelos esforços provenientes de leste e de sul, no período Transamazônico.

Se observados através das distinções entre os sistemas de cavalgamento do Supergrupo Espinhaço sobre o Grupo Bambuí a leste (serra do Cipó), e igualmente, ao sul, onde a serra do Curral sobressai como elemento integrante das grandes estruturas materializadas pelos esforços de sul para norte (Endo, com. verbal), Lagoa Santa situa-se, aproximadamente, em um ponto eqüidistante entre tais estruturas, a cerca de 25 km.

Tal apreciação remete o local a uma condição de contorno que se estabeleceu estruturalmente, no momento de consolidação do cráton do São Francisco há 1,8 Ga, em que se processavam, apenas no complexo basal cristalino, as ações dos esforços tectônicos citados.

No entanto, no ciclo Trasamazônico, as manifestações tectônicas decorrentes dos esforços provenientes de sul (QF) concomitantes à abertura do aulacógeno Espinhaço, devem ter afetado o assoalho basal cristalino (fase distensiva) pré-deposição Bambuí, originando extensos falhamentos de direção em torno de N-S, preferencialmente.

Contudo, no período Brasiliano, cerca de 1,2 Ga mais tarde, concomitante à deposição Bambuí, esforços compressivos provenientes de leste (Faixa Araçuaí), manifestaram-se de forma mais intensa na área estudada, conforme relatado anteriormente, assinalando de forma notável os registros desse episódio tectonotermal, deformando e metamorfisando os materiais depositados, e em deposição na bacia sedimentar Bambuí, originando-se assim, os metassedimentos pelito-carbonáticos atualmente descritos. As feições deformacionais resultantes dessa ação conjunta de sin-tectonismo e sin-deposição estabeleceram, localmente, feições características de cavalgamentos e empurrões de leste para oeste, como será visto no detalhe adiante.

De maneira sucinta, são descritos a seguir, os elementos considerados marcantes dentre os macro-compartimentos de maior interesse à análise hidrogeológica, sejam o complexo basal e a plataforma carbonática.

- Macrocompartimento complexo basal cristalino

orientações de lineamentos correspondentes às direções N-S e E-W na porções central e oeste, e NW-SE em sua porção leste.

As condições de contorno expostas a partir de seus limites, demonstram haver imposições estruturais relativas a falhamentos normais os quais correspondem a megaestruturas regionais, formando contatos tectônicos em seu limite sul, onde se encontra cavalgado pelas rochas do QF, e a leste, cavalgado pelas rochas do Supergrupo Espinhaço.

Tais condicionantes encontram-se expostas nas topossequências apresentadas na Figura 6.5, permitindo que se observe, assim, o controle que exerce indiretamente sobre os mecanismos de deformação que ocorreram de forma diferenciada ao final do Transamazônico, conforme a situação de basculamento encontrada nesses contatos.

De acordo com as características estruturais do assoalho cristalino, identificadas nas referidas topossequências, percebe-se que as implicações dos eventos tectônicos atuantes exclusivamente sobre o complexo basal, tiveram uma participação mais acentuada do que as observadas até o momento para o entorno da área de pesquisa, justificando-se assim a análise nas distintas escalas de observação, em face da análise morfoestrutural que se apresenta no Item 6.2.

As topossequências identificadas tanto nas seções de direções NW-SE, como NE-SW, mostram, respectivamente, o escalonamento do assoalho cristalino de norte para sul, e de oeste para leste, com rebaixamentos gradativos observados sob a faixa ocupada pela bacia Bambuí, neste caso verificados através dos dados das sondagens, denotando-se, porém, grandes desníveis de blocos na forma de falhamentos subverticais nos contatos com os grandes compartimentos do QF. Dorr (1969) estima uma profundidade média do assoalho cristalino na região do QF, em torno de 3500 metros abaixo do nível do mar.

No entanto, os escalonamentos observados no contato do Bambuí com o Supergrupo Espinhaço não são tão abruptos como os do QF, o que auxilia a interpretação de que as deformações relacionadas às rampas de cavalgamento sobre o Bambuí ocorreram de forma epidérmica, tipo thin skinned (Martins-Neto & Alkimim, 2001) tendo sido favorecida a continuidade dos pulsos tectônicos rumo ao interior da bacia carbonática, sem a interposição de obstáculos acentuados do assoalho cristalino, como no caso do Quadrilátero Ferrífero.

Figura 6.5 - Topossequências litoestruturais regionais.

Megaestruturas muito marcantes ao longo de todos os compartimentos, e exibidas nas formas de descontinuidades de lineamentos de drenagem (Figura 6.3), atravessam, numa mesma direção, extensas superfícies em nível regional, denotando-se a partir dessas orientações, traços mais antigos condizentes com descontinuidades primordiais que foram sujeitas às atuações dos eventos tectonometamórficos posteriores, como as identificadas nas direções N-S, NW-SE e NNW-SSE, predominantemente. Dentre estas direções destaca-se regionalmente o talvegue do rio das Velhas, traçado ao longo da direção NNW-SSE.

- Macrocompartimento Bambuí

As feições morfoestruturais observadas na Figura 6.4 possibilitam uma interpretação dos padrões maiores da rede de drenagem, cujo arranjo dos elementos texturais denotam seu significado perante a análise dos materiais aos quais estão relacionados, incluindo-se obviamente, seus atributos estruturais.

superfície devido à condição do regime de deformação por descolamento basal oriundos dos esforços tectônicos regionais, observa-se, em sua porção central, a ausência de elementos texturais de drenagem. Esta faixa, próxima a região de Matozinhos, corresponde ao domínio onde o carste se expõe de forma mais freqüente, em que os processos de circulação decorrem basicamente das características de absorção do aqüífero em função da elevada densidade de feições de dissolução (dolinas e paredões), desenvolvendo-se preponderantemente, as formas de escoamento subterrâneo.

Em diversos trechos desse compartimento, as coberturas pedológicas do manto de alteração são pouco espessas ou mesmo ausentes, ocorrendo inúmeros afloramentos de calcário calcítico integrados às formas típicas do carste que lhe são peculiares, como sumidouros, paredões, cavidades subterrâneas e as tradicionais feições de dissolução das dolinas.

Os aspectos texturais da rede de drenagem observados na porção leste da área de pesquisa e na margem direita do rio das Velhas, entre seu talvegue e a serra do Cipó, mostram-se com elevada densidade desses elementos, atribuindo-se a tais características, a presença dos materiais pelíticos psefíticos da Formação Serra de Santa Helena, mais intensamente deformados neste trecho próximo às serranias citadas. Cabe salientar que a intensidade de deformação é maior na porção leste desse macro-domínio, conforme citado por Magalhães (1988).

Observa-se ainda, a presença de estruturas anelares destacadas através do arranjo textural das drenagens em nível regional, ainda que de maneira, apenas, a antever em um cenário futuro, suas possíveis relações com os processos evolutivos de desenvolvimento dos relevos cársticos.

Essas formas anelares de estruturação da rede de drenagem, sendo exibidas predominantemente, em diversos trechos desse macro-domínio, visam ainda, suscitar o envolvimento dos processos tectônicos e metamórficos discutidos anteriormente, como agentes responsáveis pela estruturação da paisagem regional, sob condições específicas e não ainda estudadas.

Senso comum na literatura, observa-se que feições de drenagem, que se materializam a partir de formas anelares (Soares e Fiori, 1976; Christofoletti,1980), resultam da presença estruturada de corpos intrusivos que possam justificar tal arranjo textural da drenagem,

comumente observada em áreas dômicas com relevos profundamente entalhados, ou ao longo das dissecações que se manifestam concentricamente em torno de plutons graníticos.

No entanto, não se tem informações na literatura e nos mapeamentos disponíveis, sobre a presença de qualquer corpo intrusivo que possa estar relacionado à forma exibida nas feições delineadas na referida figura.

De maneira preliminar, apenas, para contextualizar o acima exposto, duas possibilidade distintas quanto à ocorrência dessas feições anelares poderiam ser aventadas. A primeira pode estar associada à presença de corpos intrusivos que tenham sido encobertos pelos depósitos carbonáticos, em vista de que há a presença de granitos intrusivos em regiões próximas, como Caeté e Pará de Minas (vide mapa da Figura 6.4). No entanto, nos estudos geofísicos de aeromagnetometria apresentados por Borges & Drews (2001), em sua extensa faixa de abrangência, não são identificadas tais feições.

Como segunda possibilidade, a estruturação da drenagem em arranjo anelar pode estar associada ao próprio condicionamento evolutivo do arcabouço tectono-metamórfico, onde os elementos estruturais envolvidos refletem os processos da deformação acoplada a estruturas pré-existentes do assoalho cristalino, na forma de rampas laterais e frontais. A conformação atual estaria sendo exibida então, pela atuação maior dos processos morfogenéticos sobre os registros das estruturas impressas nos metapelitos, que, de forma mais proeminente, respondem ao entalhamento da rede de drenagem superficial nesses materiais.

- Macrocompartimentos do Quadrilátero Ferrífero e do Espinhaço

Os compartimentos delimitados pelas rochas do QF e do Espinhaço foram englobados especialmente nesta imagem a fim de motivar o raciocínio acerca das questões geotectônicas, estruturais e litoestratigráficas regionais, ressaltando-se os aspectos relativos ao posicionamento topográfico do complexo basal cristalino próximo e sob tais compartimentos, como verificado nas topossequências apresentadas anteriormente.

As implicações geotectônicas desses compartimentos estão atreladas aos fatores estruturais decorrentes dos mecanismos de geração de importantes estruturas nesses ambientes, conforme abordado no item geologia regional, considerando-se sua repercussão sobre a área de pesquisa.