Apesar de tudo isto, não houve uma derrota do pensamento que impulsionou a Psicologia Humanista. Pelo contrário, desenvolvendo-se nos bastidores da ciência psicológica, o enfoque na saúde, e não mais na doença, surtiu uma grande revolução em termos de pesquisa e trabalhos desenvolvidos, especialmente nesta virada do século. Martin Seligman, em seu discurso como presidente da American Psychological Association (APA) enfatizou o interesse a uma psicologia “mais positiva”, retomando os objetivos esquecidos por esta ciência tradicionalmente centrada na cura de doenças. Neste sentido, estas pesquisas passaram por duas fases distintas: a primeira, com enfoque preventivo, que não surtou efeito uma vez que se continuava enfatizando a doença; e a segunda, que foi determinante para o avanço da psicologia positiva – o desenvolvimento das potencialidades.
Em seu livro, „Felicidade Autêntica‟, um dos clássicos da Psicologia Positiva, Seligman narra a origem da Psicologia Positiva como tal. Quando se tornou presidente da APA, em 1998, precisava definir sua missão, que passou de uma vaga idéia sobre prevenção para um concreto desenvolvimento das potencialidades humanas. Durante as festividades do Ano Novo, reuniram-se com ele, em Akumal, México, Mihaly Csikszentmihalyi e Ray Fowler, exatamente para propor a fundação da já intitulada Psicologia Positiva. Ao final de uma semana já haviam definido conteúdo, método e infra-estrutura. Três seriam os pilares que sustentariam o conteúdo da iniciativa científica: o estudo da emoção positiva, o estudo do caráter positivo e o estudo das instituições positivas – este último, com apoio de outras ciências sociais. Como para eles não se tratava de uma nova ciência, mas de um novo olhar,
aceitaram os métodos científicos do passado e passaram o restante do ano levantando fundos para a pesquisa. (SELIGMAN, 2004, p. 291-294)
Em seu primeiro artigo como presidente da APA, Seligman (1998) critica a psicologia pós-guerra, que esquece duas funções anteriormente valorizadas em seus estudos – fazer a vida das pessoas mais plenas e identificar e alimentar os talentos – dando capital importância ao estudo do psiquismo humano, especialmente pela proliferação de doenças associadas aos traumas de guerra. Afirma ele:
Cinqüenta anos depois, quero lembrar à nossa área de que ela se desviou. A psicologia não é apenas o estudo da fraqueza e do dano, mas também o estudo da qualidade e da virtude. Tratar não significa apenas consertar o que está com defeito, mas também cultivar o que temos de melhor. (...) Precisamos de pesquisas de grande porte sobre qualidades e virtudes humanas. Precisamos de profissionais que reconheçam que grande parte do melhor trabalho que realizam é amplificar estas qualidades, em lugar de consertar os defeitos de seus pacientes. Precisamos de psicólogos que trabalhem com as famílias, escolas, comunidades religiosas e empresas para enfatizar seu papel fundamental de potencializar as qualidades. (SELIGMAN, 1998)
A partir de então, as obras sobre o assunto começam a ganhar impulso e ser reconhecidas pela comunidade científica. Gable e Haidt (2005) sugerem que este movimento levou a fenômenos até então pouco pesquisados como otimismo, amor, inteligência emocional, gratidão, perdão, esperança e curiosidade, por exemplo. Contudo, são os estudos de Snyders e Lopez (2009) aos quais recorro para esclarecer que “Abraham Maslow foi quem realmente cunhou a expressão psicologia positiva quando a usou como título de um capítulo em seu livro de 1954, Motivação e Personalidade” (p. 24). Além disso, se tomarmos a Psicologia como “o estudo das condições e processos que contribuem para o florescimento ou ótimo funcionamento das pessoas, grupos e instituições” (GABLE e HAIDT, 2005, p. 104), a história destes estudos seria ainda mais anterior. Segundo estes autores, estes estudos começaram com William James em 1902, com o conceito de healthy mindedness, passando por Alport (1958) e as características humanas positivas e Maslow (1968) cujas pesquisas focaram sujeitos saudáveis. Nesta perspectiva reiteramos que a Psicologia Positiva em si mesma não é nova: a novidade está precisamente no enfoque nas emoções positivas e na felicidade, negligenciadas durante muito tempo pelos estudos científicos. Nas palavras de Linley et al. (2006)
Na verdade, a Psicologia Positiva sempre esteve conosco, mas como um corpo holístico, integrado de conhecimento, passando irreconhecível e desconhecido; uma das maiores conquistas do movimento da Psicologia Positiva até agora foi consolidar, evidenciar e celebrar o que sabemos sobre o que a faz a vida valer a pena
ser vivida assim como cuidadosamente delinear as áreas que precisamos fazer ainda mais (p. 4).
Esta preocupação vem se mostrando cada vez mais evidente, uma vez que muitas questões não encontram na Psicologia atual uma resposta convincente e credível. Vázquez expressa seu ponto de vista, ao qual convergem os chamados psicólogos positivos:
Temos que reconhecer, com orgulho, que pela Psicologia, desenvolvemos métodos de intervenção eficazes e eficientes para muitos problemas psicológicos. Mas não avançamos tanto em destilar métodos para restabelecer a felicidade aos desditados, ou de modo mais geral, para promover com conhecimentos solidamente derivados como melhorar o bem-estar. (VÁZQUEZ, 2006, p.1)
Assim, os estudos atuais se apóiam nesta perspectiva mais “descuidada” da Psicologia – a positiva. O movimento da Psicologia Positiva não quer em hipótese alguma substituir a Psicologia, mas dar um especial destaque a esse lado esquecido, até porque há uma infinidade de pesquisas (MYERS, 2000; DIENER E DIENER, 1996; BISWAS-DIENER E DIENER, 2001, apud GABLE E HAIDT, 2005) que têm demonstrado que pessoas de classes sociais, condições econômicas e estados de saúde diversos se dizem felizes, ou seja, que não há pré- requisitos ou condições mínimas para a felicidade.
“A Psicologia Positiva está conquistando atenções” (SNYDERS E LOPEZ, 2009, p. 426): assim os autores se referem à situação atual do movimento em nível mundial, seja no campo científico, seja na mídia corrente. É este também um dos motivos pelo qual os pesquisadores têm exigido cada vez mais seriedade nas pesquisas e cuidados na divulgação de resultados. Todavia, o círculo de pesquisadores está aumentando, assim como os investimentos na área e as aplicações na vida das pessoas: a Psicologia Positiva, segundo os autores, precisa ainda ser útil para todos os indivíduos, em especial através da sua „adoção‟ em campos como saúde, educação e ecologia, por exemplo. Diante disso, torna-se urgente compreender melhor do que tratam estes estudos, quais as perspectivas adotadas e que paradigmas os subjazem. Na seção seguinte, organizaremos estas idéias para delimitar conceito, objeto de estudo e principais temas abordados.