Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831-1900) foi médico, jornalista e grande político brasileiro. Nasceu em Riacho do Sangue, hoje Jaquaretama, no Ceará, filho de família da alta sociedade do estado, tendo avô muito conhecido no meio político e o pai tenente-coronel da Guarda Nacional. Foi criado dentro dos princípios católicos e militares. Aos 11 anos, com a transferência da família para Rio Grande do Norte por motivos políticos, foi estudar em colégio jesuíta sendo reconhecido como aluno prodígio. Bezerra, aos 15 anos, começou a ensinar as disciplinas de latim, matemática e filosofia, quando sua família foi arruinada financeiramente. Em 1851, foi estudar medicina no Rio de janeiro,
passou por muitas dificuldades financeiras e sobreviveu ministrando aulas particulares de matemática e filosofia (FEB, 2011).
Durante os estudos, se destacou e tornou-se um dos assistentes do Dr. Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, grande cirurgião da época. Retirou da assinatura o último nome, quando se doutorou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro defendendo a tese sobre “Diagnóstico do Cancro”, em 1856. Trabalhou na Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro e em consultório, com forte ideal humanista. Muito sensível à pobreza e à miséria do povo, fazia atendimentos gratuitos nas periferias da capital, ganhando o apelido de “médico dos pobres”. No Rio de Janeiro, nesse período, havia no meio médico uma atenção às teorias sobre o magnetismo de Mesmer, sendo provável que Bezerra tenha entrado em contato com o assunto como interesse científico. Em 1857, foi membro da Academia Imperial de Medicina e, em 1858, foi nomeado assistente no posto de cirurgião-tenente. Como homem generoso e desinteressado, foi convidado a se candidatar na política. Começando a vida política, foi eleito vereador em 1861 (AUBRÉE e LAPLANTINE, 1990). Foi vereador do Rio de Janeiro (na época capital do país) por quatro vezes e deputado federal por três vezes.
Em 1863, ocorreu a morte de sua esposa, deixando-o com dois filhos ainda crianças. Como ficou muito abalado, procurou consolo na vida religiosa, dado que acreditava na existência de Deus, mas abandonou a prática católica e passou a ler a bíblia como pensador livre. Casou-se novamente em 1865 com a meia-irmã de sua primeira esposa e continuou a carreira política, sendo eleito deputado federal em 1867. Depois, se voltou para suas atividades sociais e, em 1869, publicou suas ideias sobre a escravidão, propondo uma abolição gradual. Foi redator do Jornal carioca “Sentinela da Liberdade”. Em 1873, foi eleito membro do Conselho Municipal do Rio de Janeiro, tornando-se seu presidente.
Na década de 1880, ganhou de Carlos Joaquim Travassos a primeira tradução em português do “Livro dos Espíritos”. Depois de ler a obra, identificou-se com seu conteúdo, dizendo ter “nascido” espírita, mas ainda resistindo em participar de sessões mediúnicas. Com saúde precária, devido à vida como médico e a suas atividades sociais, procurou um médium curador de um centro espírita.
Com a cura de sua patologia e, em seguida, com o tratamento de tuberculose de sua esposa que também foi curada pelo médium, em 1886, declarou-se publicamente convertido ao Espiritismo (AUBRÉE e LAPLANTINE, 1990). Com a fundação da Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1883, que tinha o objetivo de unificar as formas de trabalho nos diversos centros espíritas do país, Bezerra de Menezes começou a participar de sua administração a partir de 1889, como presidente e, depois, como vice-presidente (1890 e 1891). Retornou à presidência de 1894 a 1900, e na mesma época, começou a escrever artigos para jornais e para a revista “O Reformador”, publicando também alguns livros. Durante dez anos, escreveu sobre o Espiritismo na coluna semanal nos jornais “O Paiz” e “Jornal do Brasil”, sob o pseudônimo de Max (ALMEIDA e LOTUFO NETO, 2003). A partir de 1895, Bezerra desenvolveu o estudo sistemático da doutrina que disseminou para os centros espíritas filiados, como atividade indispensável. Organizou atividades de estudo para grupos, com aprofundamento dos textos de Kardec e de Roustaing, nos encontros semanais. Ao estabelecer esse modelo de funcionamento para o Espiritismo, Bezerra ajudou a construir o caráter de religião das classes médias eruditas, distinguindo-o do chamado baixo espiritismo espalhado em todos os bairros do Rio de Janeiro e com grande sincretismo com rituais africanos e crenças católicas. Teve importante participação, como líder hábil e convincente, argumentando nos embates entre o Espiritismo e a Igreja Católica, publicando artigos e réplicas na revista espírita e nos jornais não espíritas.
Diversas obras espíritas foram escritas por Bezerra no período de 1877 a 1894, dentre elas, "Espiritismo: Estudos Filosóficos" uma coletânea dos artigos publicados em ‘O Paiz’ e publicada pela FEB em três volumes; depois, em 1890, sai a publicação da sua tradução de “Obras Póstumas de Allan Kardec” e "Os Carneiros de Panúrgio". Após sua morte, foram publicadas em 1902 "A Casa Assombrada"; em 1920, foi a vez de "A Doutrina Espírita como Filosofia Teogônica" e "Uma carta de Bezerra de Menezes”; em 1921, saiu "A Loucura sob novo Prisma". Nesse último, ele fundamentou-se nas premissas espíritas de Kardec, ampliando a tese sobre a ação da obsessão e avançando para além dos aspectos etiológicos na busca de resolução do problema. O grande
interesse de Bezerra pelas doenças mentais ocorreu provavelmente por motivos particulares, uma vez que tinha um filho que sofria da patologia (AUBRÉE e LAPLANTINE, 1990). É com Bezerra que se aprimora o diálogo com os Espíritos obsessores com o propósito de doutriná-los e afastá-los do mal que estão provocando nos indivíduos encarnados (LEWGOY, 2000, ALMEIDA e LOTUFO NETO, 2003). Apesar de publicar um importante tratado sobre a Loucura relacionado aos aspectos espíritas, Bezerra não é considerado um médico de prática médica psiquiatra espírita, pois ele deixava a parte física aos psiquiatras e tratava somente dos casos de desobsessão, técnica de evocar o Espírito obsessor para moralizá-lo (ALMEIDA e LOTUFO NETO, 2003).
Como obras de cunho mediúnico, existem muitas mensagens atribuídas ao Espírito Bezerra de Menezes, distribuídas pelo trabalho de diferentes médiuns. São elas: 1) Por meio de Chico Xavier, comunicações nas seguintes obras: Antologia Mediúnica do Natal; Apelos Cristãos; Bezerra, Chico e Você; Caminho Espírita; Cartas do Coração; Dicionário da Alma; Instruções Psicofônicas; Luz no Lar; Nosso Livro; O Espírito da Verdade; Relicário de Luz; 2) Pela médium Yvonne do Amaral Pereira, comunicações nas seguintes obras: Nas Telas do Infinito; A Tragédia de Santa Maria; Dramas da Obsessão; Recordações da Mediunidade; 3) Por intermédio de Divaldo Pereira Franco, comunicações na obra Compromissos Iluminativos; 4) Por Waldo Vieira, comunicações nos livros: Entre Irmãos de Outras Terras e Seareiros de Volta; 5) Por meio de Francisco de Assis Periotto, comunicações nas obras: Fluidos de Luz: Ensinamentos de Bezerra de Menezes; Fluidos de Paz: Ensinamentos de Bezerra de Menezes; Conversando com seu Anjo da Guarda - Ensinamentos de Bezerra de Menezes sobre a Agenda Espiritual; 6) Por Maria Cecília Paiva, comunicações na obra Garimpos do Além.
Bezerra de Menezes é tido pelos espíritas como um evoluído médico que coordena uma equipe no “mundo espiritual”, realizando trabalhos terapêuticos junto aos encarnados e desencarnados. Tem-se atribuído a ele o papel de mentor em Hospitais espíritas e de orientador em trabalhos das Associações Médico-Espíritas (AMEs). Em eventos promovidos pelas AMEs geralmente
aparecem mensagens psicografadas por médiuns que lhe são atribuídas, conferindo um entendimento de sua presença no encontro.
Bezerra de Menezes via a medicina em seu alto grau de responsabilidade, declarando de forma incisiva sobre a atuação do médico uma frase muito conhecida entre adeptos espíritas:
"O médico verdadeiro é isso: não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro, o que sobretudo pede carro a quem não tem com que pagar a receita - esse não é o médico, é negociante da medicina que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda para outro o anjo da caridade, que lhe veio fazer uma visita e que trazia a única espórtula que podia saciar a sede da riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá no vai e vem da vida.” (Bezerra de Menezes, o "médico dos pobres")
A participação do Espírito Bezerra de Menezes nas atividades das AMEs é constantemente registrada por Marlene Nobre nos eventos. Os espíritas o têm em alta reverência; existem no Brasil várias instituições espíritas (centros, creches) que carregam seu nome. Em 2008, lançou-se o filme sobre sua biografia com o título: Bezerra de Menezes: o diário de um espírito. Existe toda uma construção social na produção do mito Bezerra de Menezes. A mitificação29 do Espiritismo Brasileiro começa pelo Dr. Bezerra – depois de morto –, que passa a ser médico por excelência do mundo espiritual. As atividades de cura efetuadas aqui na Terra são frequentemente atribuídas à sua “equipe” espiritual. O processo de mitificação continua em Chico Xavier que, diferentemente de Bezerra, foi cultuado em vida.