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Uma ideia pode ser signo de outra não somente porque entre elas pode estabelecer-se um liame de representações, mas porque essa representação pode sempre se representar no interior da ideia que representa

(FOUCAULT, 2007, p. 89).

O fim da Idade Média é marcado pelo limite suportável dos indivíduos assujeitados pelo sistema feudal e a transição para o capitalismo é visivelmente percebido. A crise do feudalismo e a exploração capitalista geraram revoltas de camponeses contra a nobreza, assim como tensões e conflitos na sociedade. Nesse contexto histórico, a igreja apresentava responsabilidade significativa pelo controle ideológico das camadas sociais e, com o passar do tempo, os indivíduos passaram a levantar questões sobre o peso que as doutrinas representavam para cada um deles. Havia interesse, no plano político das monarquias, de reduzir o poderio da igreja às novas atividades comerciais desenvolvidas, especialmente pela resistência e não aceitação dela à acumulação de capital (ARANHA 1996).

Os valores greco-romanos são retomados no período entre os séculos XV e XVI, o qual foi denominado como Renascimento. Este período é marcado pelo posicionamento contrário às concepções teológicas da Idade Média, em que o

humanismo defende à procura do homem e da cultura no entremeio de

autoritarismos observados.

A Renascença não deixa de ser também religiosa, mas enfatiza valores terrenos e centrados no homem. A Idade Média, considerada por alguns historiadores como a Idade das Trevas, apresenta-se, com contribuições que

perduraram e, cujas crises possibilitaram o aparecimento de oposições que culminaram em transformações.

Retomando fontes consideradas importantes da cultura greco-romana, o saber se seculariza formando o espírito do homem culto denominado gentil-homem. Do céu, o homem retorna os olhares para a terra, para os seus prazeres, luxo, endumentárias e vida familiar, mostrando-se mais ocupado com a vida cotidiana. Tanto o corpo quanto a natureza que circunda o homem passaram a ser objeto de observação e cuidado. A medicina amplia estudos sobre anatomia em que pode praticar a dissecação de corpos56. Copérnico apresenta uma nova imagem do mundo mediante seus estudos sobre heliocentrismo. A Itália destaca-se na produção cultural artística e novos estilos de pintura, arquitetura, literatura e escultura apresentam esse novo homem que nasce; entretanto, quando surgem assuntos religiosos a visão demonstrada, é a humanista, com prevalescência de temas burgueses.

A Revolução Comercial abre caminhos para o capitalismo, transforma a economia, e as atividades artesanais e comerciais ampliam-se pela libertação dos antigos servos acentuando a decadência do feudalismo, que é baseado nas possessões de terras. O enriquecimento da burguesia abre espaço para invenções e viagens marítimas, crescem os negócios e a opulência da burguesia. A descoberta da pólvora auxilia na fragilização da nobreza pela destruição dos castelos, a bússola aumenta a segurança nas viagens e a imprensa difunde a cultura com mais facilidade. Observa-se nesse processo de crescimento, a confiança nas possibilidades da razão, acentuada pela busca da individualidade, que viabiliza questionamentos e a procura de caminhos novos para o homem.

É nesse contexto, inovador do Renascimento que aparece a crítica à estrutura da Igreja e os interesses políticos dão suporte ao movimento de rompimento aos antigos ideais introduzindo ideias do luteranismo, calvinismo e anglicanismo propondo mudanças radicais aos pensamentos tradicionais.

Enquanto Lutero tem apoio dos nobres que se interessavam por terem perdido bens por meio de confiscos, Calvino recebe adesão dos ricos burgueses. O que aponta para um movimento que, além de modificar a religiosidade das pessoas, ______________

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Conforme Aranha (1996), dissecação de corpos era um procedimento proibido pela Igreja na Idade Média.

altera também a Europa nos aspectos econômicos e sociais, mobilizando lutas sanguinolentas.

Neste contexto, Martinho Lutero, influenciado pelos estudos teológicos desenvolvidos a paritr de novas interpretações da Bíblia, modificou a doutrina da salvação, entendida até o momento como resultado de ações como “[...] jejuns, vigílias e penitências [...]” (WHITE, 2007, p. 57). A doutrina da salvação, para Lutero, propagada a partir de 1517, era recebida e desenvolvida pela fé.

Ele escreveu e divulgou 95 proposições contra a doutrina das indulgências, influenciando grupos e sendo protestado por outros. Essa maneira protestante de entender o mundo atravessou fronteiras e alcançou pessoas como Zwinglio, na Suíça e Calvino, na França, que também influenciou a Suíça, a Inglaterra, a Escócia, a Holanda e a própria França.

O cenário de mudanças de pensamentos econômico, social e político desenvolveram o ambiente propício para a Reforma Protestante, assim denominada neste período. Essa grande transformação religiosa não foi considerada homogênea, uma vez que cada região assumiu características bem diferentes alterando radicalmente a doutrina da salvação, assim como a estrutura eclesiástica da época.

No século XVI, o surgimento da imprensa facilitou a multiplicação de Bíblias para outras línguas, as pessoas passaram a ler também outras literaturas, e a desenvolver o senso crítico, a consciência religiosa e levantaram exigências para com o clero. O individuo, daquele século acreditava em um transcendente celestial e pelas descobertas feitas pelas leituras textuais e situacionais repensaram a moralidade, a pompa do culto, e consideraram relevante uma liturgia mais simples e de acordo com o Evangelho.

Conforme os ensinamentos bíblicos eram propagados e aceitos, os governantes representados pelos príncipes germânicos decidiam a religião que queriam adotar em seus domínios, especialmente após a Dieta de 1555 (ARRUDA; PILETTI, 2000).

A Universidade de Wittenberg, influenciada por Lutero, nesta época, tornou-se um destacado centro de preparação e difusão da ideologia reformista para a Alemanha e outros países da Europa. Lutero, em seu ideal de escola, “[...] propõe jogos, exercícios físicos, música [...]” (ARANHA, 1996, p. 91), e valoriza os estudos de Matemática, História e conteúdos literários.

Já em 1559, Calvino (1509-1564) fundou outro centro educacional denominado de Academia de Genebra, essa formou importantes discípulos propagadores da crença protestante na Suíça, França, Países Baixos, Escócia e na Inglaterra (TIMM, 2004). Nos EUA, durante a presidência de Charles G. Finney, fundou-se o Oberlin College - em Ohio, pelos princípios da Reforma Protestante - 1833. Além de influenciar o estilo de vida dos cidadãos daquela região, formou, inclusive, pessoas que mais tarde aproveitaram os conhecimentos para a formação do pensamento educacional adventista em sua prática, como o primeiro professor dessa rede educacional.

A tentativa de impedimento da difusão do protestantismo ocorreu pela formação da Companhia de Jesus. Militarmente organizada, ela objetivava enfrentar a reforma e reestruturar a Igreja. Como estratégias, as punições, as perseguições, o fortalecimento de tribunais da Inquisição foram utilizadas pelos Soldados de Cristo, que eram Jesuítas57 formados especialmente para o propósito de manter as estruturas da Igreja pela Contrarreforma especialmente a partir do Concílio de Trento.

Depois de lutar pela liberdade de expressão religiosa, na Inglaterra, surge um grupo de protestantes puritanos, que, percebendo as influências da Igreja Reformada, depois de instaurada, permanecia entre eles com semelhantes proibições, punições e regras, cujas contradições eram inaceitáveis, “[...] olhavam para esses costumes como distintivos da escravidão da qual haviam sido libertos.” (WHITE, 2007, p. 129). Escolheram o exílio como possibilidade de liberdade e atravessaram o Oceano Atlântico rumo a uma terra considerada por eles como um

Novo Mundo para viverem livres das dominações e influências daqueles desdobramentos58. Dentre os ideais, os que migraram para a América do Norte, naquela época, em 1620, pretendiam continuar o projeto da Reforma Protestante no seu puritanismo.

No pensamento educacional adventista, observam-se influências renascentistas e reformistas no grande interesse pela educação da pessoa nas mudanças que são debatidas a partir dos estudos da Bíblia, a fim de ampliar e ______________

57 Os jesuítas exerceram grande influência na concepção de escola tradicional e na formação do

homem brasileiro, conforme Ribeiro (2006) e Aranha (1996).

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Deleuze (2007, p. 117) explica os desdobramentos como “Um Lado de Fora mais longínquo que todo o exterior, ‘se torce’, ‘se dobra’, ‘se duplica’ com um Lado de Dentro, mais profundo que todo interior, e só ele torna possível a relação derivada do interior para o exterior.”

comparar com as diferentes realidades, na procura de superação às consideradas contradições entre pensamentos religiosos e seculares. Nesse caso, defendem a ideia de que a vida não tem compartimentalizações, ou seja, ela é religiosa e secular ao mesmo tempo, porém ao estado cabe o cumprimento da liberdade religiosa como forma de respeito às diversidades culturais.

A convivência nos espaços de multiculturalidade dará a possibilidade de escolher o modo como se deseja e/ou consegue viver, sempre com orientações sociorreligiosas. A própria expressão reforma, é vista como conhecimento de si, desenvolvimento da identidade e manutenção de princípios de reforma contínua nas questões espirituais, intelectuais, sociais e de cuidados com a saúde como modo de melhorar o ser e o estar no mundo.

Como Juan Luis Vives (1492-1540), defende a importância da presença da mulher no lar para educação dos filhos, especialmente na primeira infância; entretanto, que ela busque formação e satisfação no mundo do trabalho. O cuidado com o corpo e o aspecto psicológico do ensino equilibrando razão e emoção na escola e na vida cotidiana. Defende o pensamento científico e o método indutivo e experimental, reconhecendo que os fatos e as ações são meios importantes de aprendizagem.

Como Erasmo de Rotterdam (1467-1536), a educação adventista critica a hipocrisia, a tirania e superstições. Respeita o amadurecimento da criança e critica a educação severa e não dialógica defendendo a ludicidade.

Já com Michel Montaigne (1533-1592), releva-se, entre outros aspectos, pela crítica ao ensino livresco, valoriza-se a educação integral e o ensino com criticidade, numa busca de esclarecimento contínuo.

2.5 O SÉCULO DAS LUZES E A FORMAÇÃO DO PENSAMENTO EDUCACIONAL