Hywind surge response, wave period 19 and 22 sec
9. Discussion and further work
Nos documentários 4º Congresso e Lutar Sempre!, produzidos como registros, respectivamente, do 4º e do 5º Congressos Nacionais do MST, foram destacadas várias entrevistas com líderes do Movimento. Nas falas inseridas nos vídeos, essas pessoas
relacionadas à direção articulam determinada relação entre passado, presente e futuro, como a fala de Ademar Bogo, apresentado pelo documentário como integrante da Direção Nacional:
Essa animação vai fazer com que o Movimento dê um salto de qualidade no desenvolvimento de novas lutas, no desenvolvimento de novos valores, no desenvolvimento de uma nova relação entre homens e mulheres, e as áreas de assentamento certamente vão ter uma nova dimensão na medida em que a gente acredita que lá é o lugar onde a gente vive, que lá é o lugar, nosso recinto, nossa base, enfim, é o jardim que nós queremos construir. O congresso foi o reflexo disso, as místicas retrataram muito bem isso, os conteúdos foram isso, e a participação de todos que foi o grande destaque. Eu acho que nós aprendemos muito e de agora em diante, nós iremos fazer muito mais, porque confiamos que o futuro pertence à gente. (Ademar Bogo, Direção Nacional, 4º Congresso Nacional do MST)
Uma característica que se destaca no discurso do militante é o gerenciamento de uma expectativa de futuro. Ademar Bogo assegura que “futuro pertence à gente”. Essa expectativa de futuro é um elemento intrínseco à dinâmica dos movimentos sociais. Scherer- Warren (1987) define um movimento social como uma ação grupal orientada para a transformação da sociedade, voltada para a realização de seus objetivos sob a orientação de princípios valorativos e sob uma organização diretiva definida. Desse modo, todo movimento social se respalda numa orientação para o futuro, definida em seu projeto e que orienta a sua práxis. Contudo, a asseveração da crença de que “o futuro pertence à gente”, mais do que chavão ou força de expressão, ressalta uma apropriação específica da temporalidade.
O discurso no qual o futuro é apropriado com tal investidura pode ser compreendido em sua relação com determinada concepção de história. Utilizar o termo “concepção de história” pode remeter a uma infinidade de questões, como paradigmas historiográficos, entre outras. Reconhecendo isso, utilizo o termo para referir a um de seus elementos específicos: a percepção da temporalidade, através de determinadas articulações entre passado, presente e futuro.
As análises que problematizam a construção de uma expectativa de futuro geralmente introduzem a questão no campo do pensamento religioso, investigando as concepções escatológicas. Em Le Goff (2003) encontramos a construção de um verbete específico sobre o termo escatologia, que designa o conjunto de crenças referentes ao destino final do indivíduo, da sociedade e do universo. O autor expõe que, na concepção religiosa, a qual o vocábulo inicialmente pertence, o destino final do indivíduo é a salvação ou a danação,
mas como o destino do indivíduo é intrinsecamente relacionado ao destino do coletivo, a escatologia foi desdobrada na crença de uma destinação em comum.
Há diferentes concepções de história baseadas em diferentes formas de se conceber o decurso temporal. As orientais, por exemplo, são baseadas na ideia de eterno retorno, os fins do mundo são fins provisórios, que se dão por fases e se repetem: criação, declínio, morte e regeneração, num sistema cíclico. Já a concepção de história judaico-cristã ocidental é vetorial, compreendendo a história como uma linha reta, com início, meio e fim únicos.
Mas mesmo a concepção ocidental de tempo sendo concebida como um vetor, ela se constrói muitas vezes por referência às origens, implícita ou explicitamente. Nas concepções religiosas que predizem o fim da história, este fim aparece como um retorno à origem dos tempos. Assim, escatologia mantém relação estrita com o mito, pois a origem não está só no passado mítico, mas também no futuro imaginário. O mito está voltado para o passado, expresso pela narrativa, enquanto a escatologia volta-se para o futuro, expressa pelo imperativo. Mito e escatologia alinharam-se para dar a ideia de uma criação entendida como primeiro ato de libertação, e a ideia de libertação como ato criador. (RICOEUR, apud LE GOFF, 2003, p. 329).
Essa relação não pode ser confundida com a ideia de utopia, criada no início do período moderno. De fato, há uma afinidade entre os conceitos de escatologia e de utopia, todavia a utopia, na interpretação baseada na obra de Morus (2007), é pensada como uma idealização que pode ser situada no futuro ou num presente paralelo, almejada, mas não necessariamente alcançável. Não é pensada como um fator inexorável na história, tal como a escatologia concebe o fim da mesma.
Le Goff afirma que a laicização da escatologia talvez seja a primeira e a mais inovadora das transformações sofridas por essa concepção no período contemporâneo. Essa secularização se deve ao materialismo histórico e ao seu emprego no marxismo:
(...) no quadro do materialismo histórico ateu, apresentado como um rejuvenescimento científico, o marxismo, com sua teoria da revolução e com sua marcha inevitável para a sociedade sem classe, é uma teoria escatológica. Ainda aqui, em luta com a realidade terrestre, o aparecimento da sociedade ideal, dado primeiro como próximo, recua pouco a pouco no futuro, enquanto o grupo portador da potencialidade escatológica, neste caso a classe operária, vê seu papel esboroar-se na prática e na teoria. (LE GOFF, 2003, p. 359)
Le Goff ressalta que o marxismo situa-se na tradição ocidental judaico-cristã de um tempo linear, que acredita no progresso irreversível da história. Contudo, é importante ressaltar que essa compreensão do marxismo como uma teoria escatológica é uma controvérsia entre os marxistas, tal como a maioria das problemáticas discutidas entre os seguidores de Marx.
Fausto (2002) afirma que Marx não elaborou uma teoria tampouco uma filosofia da história em sua obra, mas sim considerações sobre a história e que tais considerações se divergem ao longo das obras marxianas. O autor destaca que a apresentação de história como um processo contínuo, aquém da lógica dialética, está presente no Manifesto Comunista e em
A ideologia alemã. É nesta apresentação da história que o processo revolucionário aparece como o fechamento de uma série, instaurando o comunismo como a última forma de uma sucessão de modelos sociais, instituindo um contínuo e um finalismo para a história.
Fausto reitera sua análise afirmando que, em O Capital, a noção de continuísmo histórico é substituída por uma concepção dialética, com a existência de forças contraditórias que levam a rupturas. A noção de finalismo histórico continua presente, mas aparece de forma distinta. Para o autor, “tudo se passa como se Marx se esforçasse para evitar todo finalismo da história global, sem que, entretanto, o consiga.” (FAUSTO, 2002, p. 154) Passa-se do que seria um finalismo intrínseco à história global para um esquema em que o finalismo não é a rigor nem interno nem externo. Haveria um “fim imanente” à finalidade de cada modo de produção, que consistiria em produzir as bases para outro modo, finalidade esta que só se realiza, portanto, com a destruição da forma anterior, numa relação dialética.
Contudo, por mais que esse termo gere dissenso entre os marxistas, é essa concepção de história, com um viés prospectivo ressaltado no marxismo ortodoxo, que foi apropriada pelo MST em seu discurso e que influencia as falas dos Sem Terra. Contudo, essa concepção de história do MST não decorre exclusivamente da influência do marxismo na formação de seus quadros. Ela decorre também da tradição religiosa, através da influência da Igreja e da Teologia da Libertação na gestação do MST. Como já dito, o pensamento escatológico possui um estreito vínculo com a anunciação religiosa.
Gutiérrez (2000, p. 267), no livro considerado definidor da Teologia da Libertação, em capítulo denominado “Escatologia e política”, preconiza que “a história não é mais – como para os gregos – uma anámnesis, uma recordação. É projeção para o futuro.” Mas a projeção defendida pelo teólogo não se dirige à salvação, no fim do tempo, da alma individual, através somente da fé e da caridade praticadas em vida, como na escatologia
religiosa tradicional. Gutiérrez atrela essa projeção a uma práxis social, que denuncia a ordem existente e anuncia uma nova sociedade.
O autor destaca a expectativa do devir histórico presente na Carta de Medelín, documento final da Conferência de 1968: “Estamos no limiar de uma nova época histórica de nosso continente, cheia de anseios de emancipação total, de libertação de toda servidão, de amadurecimento pessoal e integração coletiva. Percebemos aqui os prenúncios da dolorosa gestação de uma nova civilização.” (GUTIÈRREZ, 2000, p. 268) A projeção de futuro demanda o engajamento atual na construção de uma sociedade justa, qualitativamente diferente da que existe no presente.
O autor também se apropria da concepção de utopia, mas sem o viés ilusório ou escapista do termo. Gutiérrez defende que a utopia, longe de fazer do lutador político um sonhador, radicaliza seu compromisso com a construção de uma sociedade livre e sem desigualdade social. “Apenas a utopia, afirma Paul Ricoer, pode dar à ação econômica, social e política um enfoque humano. A perda da utopia faz cair no burocratismo e no sectarismo, em novas estruturas opressoras do ser humano.” (GUTIÈRREZ, 2000, p. 304)
Por fim, Gutiérrez reconduz o cunho prospectivo da história a uma dimensão transcendental, de fé e de encontro com o divino. Para ele, o projeto histórico de criação de uma nova consciência social, solidária e libertária, deve almejar o encontro de todos com Deus. Nesse sentido, a luta política contra a opressão também seria a comunhão contra o pecado, raiz da injustiça e da espoliação. “A fé nos revela que o sentido profundo da história que forjamos com nossas mãos, ao dar-nos a conhecer o valor da comunhão com Deus - de salvação - que tem todo ato humano orientado para a construção de uma sociedade mais justa; e, inversamente, faz-nos ver que toda injustiça é uma ruptura com ele.” (GUTIÈRREZ, 2000, p. 305) Mesmo se referindo à salvação, Gutiérrez ressalta a orientação da ação humana em busca de justiça como o sentido profundo da história. Essas palavras vão ao encontro das considerações de Le Goff: “Sem negar a importância da noção de salvação, considero-a, no entanto, demasiado vaga, demasiado polivalente para fornecer uma base sólida ao estudo das mentalidades escatológicas. Os desejos de justiça e renovação parecem-me mais fundamentais.” (LE GOFF, 2003, p. 364)
Com o objetivo de formular também uma crítica em seu verbete, Le Goff dimensiona a importância da expectativa de futuro, ressaltando que a noção de tempo vetorizado não tem o monopólio da lógica histórica. Ou seja, mesmo uma concepção de história na qual tal característica seja um elemento constituinte, isso não a determina em todos
os seus aspectos. De fato, não se pressupõe aqui que a concepção de história do MST se reduza a esse elemento. Tanto que a seguir, abordo outros elementos que julgo constitutivos da concepção de história do Movimento, como o agenciamento do passado e a noção de povo como sujeito histórico. E do mesmo modo, poderia levantar tantos outros elementos constitutivos. Mas considero que compreender essa perspectiva prospectiva e a sua historicidade seja sim importante para se entender a concepção de história do Movimento. Tal como destacado por Mannheim, “a estrutura interior da mentalidade de um grupo nunca pode ser apreendida tão claramente como quando nos esforçamos por compreender a sua concepção de tempo, à luz de suas esperanças, aspirações e desígnios.” (apud LE GOFF, 2003, p. 362)
O agenciamento do futuro e a noção vetorizada de história foram para mim aspectos que saltaram à vista ao longo do documentário 4º Congresso, seja nas falas dos Sem Terra entrevistados, como já trabalhado neste texto, seja na própria montagem da narratividade fílmica.
Figuras 23 e 24
Fotogramas de 4º Congresso Nacional do MST.
O documentário 4º Congresso é finalizado com uma sequência de imagens da realização da marcha dos Sem Terra pelas ruas de Brasília, rumo à Esplanada dos Ministérios. A sequência destaca a tomada com câmera alta, vislumbrando todo o alcance da marcha, a extensão do percurso e o volume de militantes ocupando o caminho (Figuras 23 e 24). A sequência também utiliza câmera baixa, destacando indivíduos durante a caminhada, que, ao repararem a presença da câmera os filmando, sorriem em direção a ela. A câmera também
foca cartazes de apoio ao MST e transeuntes acenando positivamente para os Sem Terra. Elemento igualmente importante na construção da sequência é a faixa sonora, que combina as imagens da marcha com a música “Ordem e Progresso”, cantada por Beth Carvalho. A canção, composta por Zé Pinto, poeta, compositor e músico do MST, proclama o amor à pátria e enaltece as práticas de luta dos Sem Terra, como se depreende de seu refrão: “Esse é o nosso país/ Essa é a nossa bandeira/ É por amor a essa pátria, Brasil/ Que a gente segue em fileira.”
Essa ocularização específica atrela a marcha a um grande sentimento de alegria e entusiasmo e representa essa comoção como se tivesse sido sentida de modo uníssono por todas as pessoas que participaram da marcha ou que a presenciaram. E não seria equivocado afirmar que a ocularização também busca introjetar essa mesma comoção no telespectador do vídeo. Essa tentativa de provocar determinada comoção no espectador não deve ser julgada como uma forma de manipulação das emoções de quem assiste o documentário, mas sim interpretada como uma construção logopática a respeito da marcha, que busca fazer o telespectador conhecê-la e senti-la.
A marcha por Brasília, como elemento presente na realização dos congressos nacionais do MST, não necessariamente constitui o término do congresso. Ela geralmente é realizada no penúltimo dia. No 5º Congresso, por exemplo, realizado entre os dias 11 e 15 de junho de 2007, ela ocorreu no dia 14. Após a marcha, os militantes voltam ao local onde estão acomodados durante o congresso, na chamada Cidade de Lona, construída para abrigá-los, e seguem com a programação do evento, que é finalizado somente com o Ato de Encerramento no ginásio. Se a marcha não constitui o término do congresso, porque ela foi inserida ao final da narrativa de um documentário que se propôs justamente a representar esse congresso?
A representação da marcha e a forma pela qual ela é representada e inserida na montagem do vídeo fazem com que a marcha seja o grande clímax da narração cinematográfica. Todos esses recursos fílmicos fabricam um final apoteótico, que se constitui como uma alegoria do próprio triunfo da classe trabalhadora e dos Sem Terra. Assim, o documentário, por mais que se pretenda como uma narrativa não ficcional, agrega elementos típicos dos gêneros ficcionais narrativos, com a produção de um desfecho para o enredo. A montagem do documentário insere o clímax justamente nesse o desfecho, produzindo uma narratividade fílmica intrinsecamente relacionada à própria concepção de história do MST, fundamentada na história prospectiva marxista, em que o fim da história é o triunfo da classe trabalhadora.