O trabalho tem uma dimensão sagrada. De acordo com Mehl-Koehnlein:
“é a energia ativa do próprio Deus que constitui o protótipo do trabalho (...) o trabalho corresponde à ordem divina das coisas. Às obras de Deus correspondem as obras dos homens. O primeiro homem foi colocado no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo. O trabalho é a atribuição normal prescrita para o homem pelo criador. É por meio do trabalho que Deus associa o homem à sua obra criadora. É o sinal pelo qual Deus atesta que o homem é seu colaborador. O trabalho faz, pois, parte das disposições da sabedoria divina. Toda a criação trabalha. A ociosidade é condenada. O trabalho é ordem expressa de Deus ao homem. Desta forma, pois, o trabalho do homem é bom, enquanto for a resposta a esta ordem e se inspirar na obra de Deus”.144
A visão negativa a respeito do trabalho não consta da matriz original da tradição judaico-cristã. A narrativa do Gênesis, na Bíblia Sagrada, deixa claro que o trabalho é a forma como o ser humano coopera com Deus para colocar ordem no caos, sendo essa a maneira como participa da força criativa de Deus. A figura bíblica da expulsão do paraíso, lançando o ser humano em uma terra árida e seca, que produz espinhos e ervas daninhas, redimensiona a relação humana com o trabalho, sendo acrescido o suor do rosto para o direito ao pão. Na perspectiva judaico-cristã, o trabalho em si não é mal. Mal, ou tocado pelo mal, é o ambiente onde o trabalho se desenvolve. Daí a necessidade do
desenvolvimento de formas, processos e ordem na própria atividade produtiva: atenuar o desgaste causado pelo trabalho face aos obstáculos que devem ser superados para que a terra produza seu fruto.
A história da organização do trabalho é, portanto, um capítulo interessante da saga humana. Desde a pré-história, quando o trabalho era desenvolvido pelo ser humano auxiliado por alguns poucos animais domésticos e ferramentas primitivas, passando pela Idade Média, período em que o trabalho era desenvolvido por escravos e artesãos livres auxiliados por animais e máquinas mais sofisticadas, como o moinho de água, incluindo a era industrial, com suas linhas de montagem, até nossos dias, nos quais complexos robôs se incumbem dos processos produtivos no contexto das grandes organizações, “o progresso humano nada mais é do que um longo percursos do homem rumo à intencional libertação, primeiro da fadiga física, e depois da faina intelectual”.145
Micklethwait e Wooldridge advogam a centralidade das empresas, que também chamam de companhias, firmas e corporações, como o centro da sociedade moderna. Afirmam que:
“Hegel previu que o Estado seria a unidade básica da sociedade moderna; Marx, que seria a comuna; Lênin e Hitler, que seria o partido político. Antes disso, uma série de santos e sábios disseram a mesma coisa em relação à igreja paroquial, à casa grande do senhor feudal e à monarquia. A grande tese deste livrinho é que todos estavam enganados. A organização mais importante do mundo é a empresa, que é a base da prosperidade do Ocidente e constituiu a melhor esperança para o futuro do resto do mundo. Com efeito, para a maioria de nós, a única verdadeira rival da empresa em termos de tempo e energia é uma coisa em quem nem pensamos: a família”.146
O documentário The corporation apresenta o seguinte resumo para a origem e definição da corporação:
“A corporação é uma forma de controle de negócios. Um grupo de pessoas trabalhando juntas com diversos objetivos, sendo o principal deles obter o máximo de lucro sustentável, legalmente garantido, para os donos do negócio. A corporação moderna surgiu na era industrial. Começou em 1712 quando Thomas Newcumen inventou uma bomba a vapor para tirar água das minas para que os mineiros ingleses tirassem
145 Domenico DE MASI, Desenvolvimento sem trabalho, p. 7.
mais carvão da mina em vez de água. Tratava-se de produtividade: mais carvão por homem/hora”.147
A palavra corporação é usada para designar uma “reunião de indivíduos para um fim comum, sendo seu objetivo os negócios, mas denota especialmente a idéia de grande empresa”.148 A corporação pode ser definida de duas maneiras distintas: a primeira e mais simples diz que se trata de uma organização dedicada aos negócios; a segunda é mais complexa, e afirma que a companhia, uma sociedade anônima, é uma pessoa jurídica distinta de seus acionistas. A companhia é vista como “uma pessoa artificial com a mesma capacidade de fazer negócios que uma pessoa real”.149 Este trecho do documentário The
corporation esclarece bem a questão:
“Inicialmente as corporações recebiam delegação do Estado para serviço ao bem comum. As regras eram claras em termos de expectativas, direitos e deveres entre as partes. Mas há cerca de 150 anos os advogados perceberam que necessitavam de mais poder para atuar e quiseram remover parte das restrições historicamente impostas às corporações. A 14ª Emenda foi aprovada no final da Guerra Civil dos Estados Unidos para dar direitos iguais aos negros. Ela dizia: ‘Nenhum Estado pode tirar de qualquer pessoa a vida, a liberdade, ou a propriedade sem um processo jurídico adequado’. As Corporações foram à justiça e disseram: “A corporação é uma pessoa”. E a corte aceitou isso. A 14ª Emenda fora criada para proteger os escravos que haviam sido libertos, mas o impressionante a respeito disso, é que entre 1890 e 1910, dos 307 casos julgados envolvendo a 14ª Emenda, 288 eram de Corporações e 19 de afro-americanos. Mais de 600 mil pessoas morreram para dar direitos às pessoas, mas, nos 30 anos seguintes, os juízes aplicaram suas conquistas para dar direitos ao capital e à propriedade e tirá-los das pessoas. (...) O Governo concede a licença para que se forme a Corporação, isto é, uma pessoa jurídica resultado da associação de pessoas físicas interessadas em atuar num determinado segmento de negócios. A partir de então, já não são mais as pessoas físicas as responsáveis pelo negócio, mas a Corporação, isto é, a pessoa jurídica”.150
Um outro fato ocorrido em 1886, nos Estados Unidos, tornou-se determinante no entendimento do que seja uma corporação. No veredicto da disputa jurídica entre o condado de Santa Clara e a poderosa companhia de estradas de ferro Southern Pacific
Railroad, o juiz responsável pelo caso declarou que “a corporação ré é um indivíduo que
goza das premissas da 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ao
147 Mark ACHBAR; Jennifer ABBOTT, The Corporation – Documentário baseado no livro The corporation
– the pathological pursuit of profit and power, de Joel Bakan, Canadá, 2004. Legendas.
148 John MICKLETHWAIT; WOOLDRIDGE, Adrian. A companhia, p. 17. 149 Ibid., p.18.
Estado que este negue, a qualquer pessoa sob sua jurisdição, igual proteção perante a lei”.151 Foi, então, estabelecida uma jurisprudência, por meio da qual corporações considerar-se-iam como indivíduos, ganhando identidade e autonomia, uma espécie de “vida própria”, que segue existindo mesmo após a morte de seus fundadores. Soares afirma que:
“Criadas com o objetivo único de tornar mais eficiente o acúmulo do capital, corporações seguem uma dinâmica própria, que transcende as vontades individuais de seus acionistas e executivos. Mas, mais do que criar estruturas de produção viciadas, a lógica do lucro é responsável também pelo modo como é construída a cultura corporativa e suas noções de responsabilidade social e política. ‘Pedir a uma corporação que seja socialmente responsável faz tanto sentido quanto pedir a um edifício que o seja’, dispara, em depoimento, Milton Friedman, economista vencedor do prêmio Nobel”.152
O mundo corporativo abrange, portanto, o ambiente de negócios e seus agentes – as corporações – definidos em termos de processos e forma de divisão, organização e coordenação do trabalho. Embora nem toda atividade profissional aconteça no ambiente corporativo, este é o fórum escolhido para o estudo do fenômeno que associa espiritualidade e vida profissional.