A media dos escores totais de TCAR foi 20, e eles variaram de 7 a 27. As variações do VEF1, da CVF e do FEF25%-75% estão descritos na Tabela 1.
Tabela 1 – DADOS DA FUNÇÃO PULMONAR NOS PACIENTES ESTUDADOS
Função pulmonar Média* Desvio-padrão (variação)
VEF1 72,82 23,95 (27-115)
CVF 77,46 20,22 (24-112)
FEF25%-75% 57,97 30,54 (8-108)
*Resultados estão expressos pela média do percentual do previsto.
As correlações foram calculadas entre os TFP e escores totais de TCAR, e entre os TFP e achados específicos à TCAR.
O VEF1 mostrou uma correlação forte e significativa com o escore total de
TCAR (r=0,7808; p<0,0001) (Figura 6), e o FEF25%-75% apresentou correlação boa e
significativa com o escore total de TCAR (r=0,6981; p<0,00001) (Figura 7). Uma moderada correlação foi observada entre a CVF e escore total de TCAR (r=0,5112; p<0,001).
Figura 6. Correlações entre o escore total de
TCAR e o VEF1 (porcetagem do predito)
(r=0,7808; p<0,000003). Legenda: pvef1 = percentual do previsto dp VEF1; escortc3 =
variável que corresponde ao escore total de TC.
Figura 7. Correlações entre o escore total de
TCAR e o FEF25%-75% (porcetagem do predito)
(r=0,6981; p<0,00003). Legenda: pfef = percentual do previsto do FEF25-75%; escortc3 =
Quando os aspectos avaliados à TCAR foram de forma isolada, correlacionados com TFP, observamos que o VEF1 apresentou correlações moderadas
e boas com quase todos os parâmetros avaliados (exceto com Bolhas e Enfisema). Por outro lado, quando esta correlação é estabelecida com a CVF, observamos que apenas o padrão de perfusão em mosaico se correlaciona de forma moderada com a CVF (r = -0,5787; p < 0,0002).
O FEF25-75% apresentou correlações moderadas em pelo menos 06 dos
parâmetros avaliados à TCAR (Tabela 2).
Tabela 2 – CORRELAÇÃO DE ACHADOS ESPECÍFICOS À TCAR COM TFP
Achados à TCAR VEF1 CVF FEF25%-75%
Gravidade bronquiectasias -0,6826(p<0,0001) -0,4530(p=0,006) -0,6220(p<0,0001) Extensão bronquiectasias -0,7055(p<0,0001) -0,4734(p=0,004) -0,6182(p<0,0001) Impactações brônquicas -0,7205(p<0,0001) -0,4654(p=0,004) -0,6188(p<0,0001) Espessamento da parede brônquica -0,5957(p=0,0001) -0,2956(p=0,08) -0,5789(p=0,0002) Perfusão em Mosaico -0,7361(p<0,0001) -0,5787(p=0,0002) -0,5962(p=0,0001) Colapso/consolidação -0,6245(p<0,0001) -0,4091(p=0,001) -0,4721(p=0,004) Saculações -0,5860(p=0,0001) -0,3896(p=0,02) -0,4310(p=0,009) Geração brônquica -0,6927(p<0,0001) -0,4182(p=0,01) -0,6164(p<0,0001)
O VEF1 foi analizado em pacientes com condições distintas de
comprometimento pulmonar à TCAR (Figura 8); os resultados indicaram que nos pacientes com maior grau de envolvimento pulmonar, os níveis de VEF1 são
proporcionalmente menores, sinalizando, desta maneira, que nesta população, os escores de TCAR correlacionam-se bem com o VEF1.
A B
Figura 8. Análise do FEV1 em níveis distintos de gravidade e extensão de bronquiectasias observados à
TCAR. De acordo com o diagrama de caixas observa-se que à medida que a gravidade (A) e a extensão (B) das bronquiectasias aumentam, as distribuições dos valores do VEF1 diminuem expressivamente.
Legenda: pvef1 = percentual do previsto do VEF1; gravbro3 = variável que corresponde à gravidade das
bronquiectasias.
Para melhor compreensão dos resultados obtidos neste estudo, foram criadas tabelas onde nossos números são comparados com aqueles descritos na literatura (Tabelas 03, 04, 05 e 06).
TABELA 3 - Prevalência dos achados à TCAR - REVISÃO DA LITERATURA Espessamento Peribrônquico Bronquiecta- sias Perfusão Mosaico Colapso/ Consoli- dação Impacta- ções Sacula- ções Bolhas Bhalla (1991) 92,9% 78,6% - 14,3% 35,7% 57,1% 50,0% Maffessanti (1996) 37,0% 89,0% - 58,0% 36,0% - - Santamaria (1998) 53,0% 90,0% 13,0% 23,0% 63,0% - 7,0% Helbich (1999) 76,1% 80,3% 60,7% 29,1% 51,3% 19,7% 12,8% Demirkazik (2001) 97,5% 65,0% 100,0% 17,5% 30,0% 15,0% 0 Oikonomou (2002) 77,0% 98,0% 47,0% 81,0% 72,0% 28,0% 13,0% Brody (2004) - 58,0% 63,0% - 15,0% - - De Jong (2004) 85,0% 76,0% 12,0% 51,0% 79,0% 11,0% 8,0% Neves (2007) 57,1% 54,3% 51,4% 40,0% 37,1% 22,8% 2,9%
TABELA 4 - Correlações entre TCAR e TFP
Escore TC/VEF1 Escore TC/CVF Escore TC/FEF25-75%
Bhalla (1991) 0,42 (p=0,14) 0,48 (p=0,09) - Logan (1996) 0,64 (p<0,001) 0,63 (p<0,001) - Mafessanti (1996) 0,658 (p<0,0001) 0,592 (p=0,0002) - Santamaría (1998) -0,5 (P,0,01) -0,6 (P<0,01) - Helbich (1999) -0,7 (p<0,001) -0,62 (p<0,001) - Demirkazik (2001) 0,66 (p<0,01) 0,71 (p<0,004) - Dorlochter (2003) -0,778 (p=0,001) - - Brody (2004) -0,46 (p=0,005) -0,25 (p=0,609) -0,36 (p=0,0076) de Jong (2004) -0,73 (p<0,001) -0,58 (p<0,01) -0,83 (p<0,01) Neves (2007) 0,78 (p<0,0001) 0,511 (p<0,001) 0,698 (p<0000,1)
TABELA 5 - Correlação de achados específicos à TCAR com oVEF1, comparando com dados da literatura
Achados à TCAR VEF1 (Neves) VEF1 (Helbich) VEF1 (Oikonomou) VEF1 (Brody) Gravidade bronquiectasias -0.6826 -0,60 -0.622 -0,37 Extensão bronquiectasias -0.7055 -0.57 -0.6182 - Impactações mucóides -0.7205 -0,50 -0.6188 -
Espessamento de parede brônquica -0.5957 -0.47 -0.5789 -
Perfusão em Mosaico -0.7361 -0.45 -0.5962 -0,38
Colapso/consolidação -0.6245 -0.39* -0.4721* -
Saculações -0.586 -0.50 -0.431* -
Geração brônquica -0.6927 -0.60 -0.6164 -
TABELA 6 - Correlação de achados específicos à TCAR com a CVF, comparando com dados da literatura
Achados à TCAR CVF (Neves) CVF (Helbich) CVF (Brody) Gravidade bronquiectasias -0.453* -0,54 -0,24* Extensão bronquiectasias -0.4734* -0.47 - Impactações mucóides -0.4654* -0.46 -
Espessamento de parede brônquica -0.2956* -0.48 -
Perfusão em Mosaico -0.5787 -0.40 -0,20*
Colapso/consolidação -0.4091* -0.39 -
Saculações -0.3896* -0.49 -
Geração brônquica -0.4182* -0.52 -
TABELA 7 - Correlação de achados específicos à TCAR com o FEF25-75%,
comparando com dados da literatura
Achados à TCAR FEF 25-75% (Neves) FEF 25-75% (Brody) Gravidade bronquiectasias -0.622 -0,21* Extensão bronquiectasias -0.6182 - Impactações brônquicas -0.6188 -
Espessamento de parede brônquica -0.5789 -
Perfusão em Mosaico -0.5962 -0,35
Colapso/consolidação -0.4721* -
Saculações -0.431* -
Geração brônquica -0.6164 -
* sem significância estatística
Para medir a concordância das leituras dos exames de TCAR, foram realizados testes estatísticos, sendo avaliado tanto o nível de variabilidade inter (Tabela 8) e intra-observadores, este último realizado com intervalo de 3 meses após a primeira observação (Figura 9).
A correlação inter-observadores para escores totais de tomografia corresponde a r=0,947, p<0,0001. O coeficiente de concordância e a acurácia interobservadores foram de 0,981 (IC 95%: 0,963-0,99) e de 0,9996.
A medida da variabilidade intra-observadores três meses depois da primeira observação mostrou forte correlações para os dois observadores, sendo de r =0,994; p<0,0001 para o observador 1 e de r=0,985; p<0,0001 para o observador 2. O coeficiente de concordância e acurácia foram de 0,979 (IC 95%: 0,979-0,995) e de 0,9878 para o observador 1, e de 0,979 (IC 95%: 0,961-0,988) e de 0,9692 para o observador 2.
Tabela 8 – CONCORDÂNCIA INTER-OBSERVADORES
Achados à TCAR Concordância inter-observadores P
Gravidade bronquiectasias 0,9471 < 0,001
Extensão bronquiectasias 0,9537 < 0,0001
Impactações brônquicas 1 < 0,0001
Espessamento da parede brônquica 0,9408 < 0,0001
Perfusão em mosaico 0,913 < 0,0001
Colapso/consolidação 0,9264 < 0,0001
Saculações 1 < 0,0001
A
B
Figura 9. Concordância intra-observadores com intervalo de 3 meses após a primeira leitura, sendo (A)
5 DISCUSSÃO
A FC é uma doença genética autossômica recessiva que acomete indivíduos de todos os grupos raciais étnicos, porém acomete predominantemente indivíduos brancos, caucasianos (1).
Estudos de genética em FC têm mostrado que há uma notável variação na freqüência dos genes em diferentes grupos populacionais. A determinação da freqüência das diversas mutações que ocorrem no gene da FC em determinados grupos étnicos, é de extrema importância para caracterização da doença (26). A mutação ∆F508, que é a mais comum em países europeus e nos Estados Unidos da América (cerca de 70%), é menos frequente no Brasil (28). Uma possível explicação para este fato seria a grande miscigenação racial aqui observada.
A heterogeneidade étnica observada na população brasileira é conseqüência da variedade das correntes migratórias, cuja distribuição geográfica ocorreu de forma irregular. Além do índio, o europeu e o negro africano contribuíram de maneira efetiva na composição étnica do Brasil. Os portugueses foram os principais representantes europeus, seguidos pelos italianos, espanhóis, alemães e japoneses (92). A contribuição européia é de 90% na Região Sul e de cerca de 38% na Região Nordeste, especificamente na Bahia. Já a contribuição dos africanos seria de 10% na Região Sul e de 58% na Bahia (93). Esses dados justificam um predomínio na nossa amostra de indivíduos não-brancos.
O defeito básico determinado por esta mutação genética, acomete células de vários órgãos, e nem todos os indivíduos apresentam respostas clínicas semelhantes
(26). O acometimento do trato respiratório, notadamente dos pulmões associa-se com
maior morbidade, e é causa de morte em mais de 90% dos pacientes (17).
Como resultado da infecção e inflamação crônica das vias aéreas, identifica-se uma grande quantidade de enzimas agressoras nas secreções dos pacientes com FC, que levam a um dano progressivo nas paredes brônquicas e no parênquima pulmonar
(2)
. As mais importantes alterações estruturais observadas através da TCAR as bronquiectasias, espessamento de paredes brônquicas, impactações brônquicas e aprisionamento aéreo. Lesões menos freqüentes incluem atelectasias/consolidações,
saculações/abscessos, bolhas, enfisema, consolidação alveolar e espessamento de septos interlobulares (8).
A identificação de bronquiectasias é de grande relevância na evolução da doença pulmonar na FC, já que a sua presença implica na redução da qualidade de vida dos pacientes. A TCAR é considerada o padrão ouro para o diagnóstico das mesmas (8).
No estudo de Bhalla et al (10), bronquiectasias foram observadas em todos os segmentos do pulmão em 11 pacientes (78,6%). Hansell at al, estudando uma população de indivíduos adultos, com média de idade de 29 anos, identificaram bronquiectasias em 124 dos 126 lobos examinados (66). Por outro, Lynch et al, estudando 12 indivíduos com média de idade de 4 anos, observaram bronquiectasias em apenas duas crianças (75).
de Jong et al, num recente estudo, detectaram bronquiectasias em 76% dos indivíduos estudados, que tinham uma média de idade de 10,7 anos (18).
Os resultados do presente trabalho foram semelhantes aos de Brody et al que, estudando 60 crianças entre 06 e 10 anos, identificaram bronquiectasias em 58% dos pacientes examinados (21). No nosso estudo, as bronquiectasias foram identificadas em 54,28% , também refletindo uma população jovem, com média de idade de 11,34 anos. Alguns trabalhos na literatura descrevem que na FC um predomínio das alterações brônquicas, notadamente das bronquiectasias, no lobo superior direito. Teorias tentam explicar este fato do ponto de vista fisiológico (47). Mas, na nossa amostra, não foram observadas predomínio de bronquiectasias em nenhum lobo, e as mesmas foram visibilizadas nos distintos segmentos pulmonares.
O espessamento de paredes brônquicas é um achado também muito freqüente nos pacientes com FC e tem prevalência de até 85% em alguns estudos; é mais marcante nas vias aéreas periféricas, porém, em crianças pequenas, é mais evidente nas vias aéreas centrais (8).
Santis et al, numa população de indivíduos com média de idade de 28 anos, demonstraram que o espessamento de paredes brônquicas se mostrou mais acentuado que as bronquiectasias (74). Taccone et al identificaram bronquiectasias em 87% dos indivíduos estudados e espessamento de paredes brônquicas em 100%, numa amostra cuja média de idade era 19 anos (72). Demirkazik et al estudando uma
população com média de 6 anos de idade, observaram espessamento de paredes brônquicas em 97,5% dos pacientes (7).
Espessamento de paredes brônquicas foi o achado pulmonar mais freqüente na nossa amostra, acometendo 20 dos 35 pacientes estudados (57,14%). A despeito de ser o achado mais freqüente desta população, sua prevalência ainda é baixa quando comparada com dados da literatura, aproximando-se apenas dos resultados encontrados por Santamaria et al, que avaliaram pacientes entre 6,75 e 24 anos, com média de idade de 13,88 anos (20).
Helbich et al em 1999 propuseram um sistema de escores para TCAR baseado naquele proposto por Bhalla, onde foi acrescido o padrão de perfusão em mosaico, avaliado quanto a freqüência de seu aparecimento nos diversos segmentos pulmonares (13). Neste estudo, este padrão foi observado em 64% dos pacientes; a divisão dos pacientes em grupos de acordo com a faixa etária permitiu observar que a maior freqüência deste achado se relaciona com o aumento da faixa etária. Brody et al encontram uma prevalência de 63% numa amostra de 60 pacientes, sendo a alteração pulmonar mais freqüente (21). de Jong et al, entretanto, identificaram o padrão em mosaico em apenas 12% dos 25 pacientes estudados (18).
A prevalência do padrão de perfusão mosaico no nosso estudo foi de 51,43%, sendo a terceira alteração pulmonar mais comum nesta amostra. A sua prevalência se aproxima aos valores encontrados por Oikonomou et al, que observaram este achado em 47% dos seus pacientes, com faixa etária e média de idade bastante semelhante aos do nosso estudo (80).
As impactações brônquicas são comumente descritas nos pacientes com FC, sendo secundárias ao acúmulo de secreções espessas no interior das estruturas brônquicas.
No estudo de Santamaria et al a prevalência de impactações brônquicas foi de 63% (20) Observou-se que nos trabalhos de de Jong (18) e Oikonomou (80), a frequência de impactações brônquicas foi de 79% e 72%, respectivamente. No nosso trabalho, elas foram observadas apenas em 13 indivíduos dos 35 (37,14%), resultado que se aproxima daquele descrito por Maffessanti et al., que demonstraram a prevalência de impactações brônquicas de 36%, numa população bastante semelhante a do nosso trabalho, com média de idade de 13 anos (11). Em 1999, Bhalla et al também demonstra
prevalência parecida, mas, no seu estudo, não fica determinada a faixa etária da população avaliada (10).
Observa-se uma grande variabilidade na literatura quanto a prevalência de colapso/consolidações, que na nossa amostra foi de 40%, ou seja, a quarta alteração mais freqüente (Tabela 3).
Outras alterações observadas à TCAR no nosso estudo foram saculações (22,86%), e bolhas (2,86%). Em algumas séries, a prevalência de saculações e abscessos foram de 11%, e de bolhas de 8% (8).
Enfisema não foi observado em nenhum paciente da nossa amostra. Bhalla et al detectou enfisema em apenas 1 paciente no seu estudo (10). Poucos trabalhos iniciais na literatura descreveram o enfisema como achado à TCAR em pacientes com FC. Provavelmente o que foi descrito como enfisema, correspondia a áreas com padrão de perfusão em mosaico, que foram mais bem caracterizadas em estudos subseqüentes (13).
Em geral, os resultados deste estudo no que se referem às alterações mais prevalentes à TCAR, em muito se aproximam aos dados da literatura (Tabela 3). Contudo, observa-se que mesmo as alterações mais prevalentes (Espessamento de paredes brônquicas, Bronquiectasias), não apresentam frequência acima de 60% nesta população.
A grande variabilidade clínica na FC motivou o desenvolvimento de escores de avaliação de sua gravidade, os quais contribuem para caracterização e avaliação do curso da doença, retrata seu histórico, além das peculiaridades fenotípicas das diferentes populações. Os escores radiológicos e tomográficos são muito considerados e amplamente aplicados nos grandes centros de atendimentos a pacientes com FC (78).
Em 1991, Bhalla et al propuseram um sistema semiquantitativo de escores para tomografia de tórax de pacientes com diagnóstico de FC, onde bronquiectasias, espessamento de paredes brônquicas e impactações mucóides eram avaliados quanto a sua extensão e gravidade, observando-se também presença de enfisema, bollhas, colapso/consolidação (10). Através de um estudo retrospectivo, TCAR de 14 pacientes com diagnóstico de FC foram classificadas segundo estes escores e comparadas com parâmetros clínicos e testes de função pulmonar. A metodologia de observação das tomografias sugerida por Bhalla et al é amplamente utilizada como base para
adaptação e criação de novos escores para tomografia. Contudo, no seu trabalho, não foi possível determinar correlações dos aspectos avaliados à TCAR com TFP.
Maffessanti et al avaliando prospectivamente uma amostra de 36 indivíduos com FC, média de idade de 13 anos, utilizou um sistema de escore, baseado na proposta inicial de Bhalla, porém dividindo o pulmão em quatro regiões (superior e inferior, direta e esquerda) (11). Esse trabalho demonstrou correlações significativas entre escores de TCAR e TFP, avaliados através do VEF1, CVF e pela relação
VEF1/CVF, sendo a melhor aquela relacionada com o VEF1 (r=0,658; p< 0,0001).
Nosso estudo conseguiu demonstrar excelentes correlações dos escores totais de TCAR com o VEF1 (r = 0,7808; p<0,000003), que é considerado um importante
marcador de gravidade e progressão da doença, e o mais forte preditor clínico de mortalidade na FC (80). Dorlochter et al, avaliando 17 pacientes com mediana de idade de 12 anos, demonstraram nível de correlação bastante semelhante ao do nosso estudo (94). Em geral, na maioria dos trabalhos onde foi estabelecido este tipo de correlação, foram encontrados resultados satisfatórios, com níveis de correlações moderadas e boas (Tabela 4).
Uma correlação menos robusta foi determinada quando o escore de tomografia foi correlacionado com a CVF (r=0,511; p<0,001). Na literatura existe uma tendência a se observar níveis de correlação moderadas e boas quando estas variáveis são relacionadas. Uma possível explicação para os nossos resultados é que este parâmetro de função pulmonar denota um estágio mais avançado de doença, com comprometimento estrutural pulmonar mais acentuado, o que não se abserva na nossa amostra, onde 20% dos pacientes tinham TCAR nornal (escore = 27).
Poucos estudos na literatura correlacionaram escores de tomografia com o FEF25-75% (Tabela 4), e em geral, os resultados são bastante divergentes. No nosso
trabalho, foi estabelecida uma boa correlação (r=0,6981; p<0,0001), refletindo uma população jovem, com expressão inicial da doença pulmonar.
Em 1998, Santamaria et al num estudo prospectivo com 30 pacientes, demonstraram moderadas correlações entre escores totais de TCAR e TFP em pacientes com FC. Porém, não foi possível demonstrar boas correlações de aspectos isolados observados à TCAR com os TFP (20). A capacidade de detectar alterações em localizações lobares ou mesmo segmentares, e o fato dos TFP refletirem a função
global pulmonar, justificariam estes achados. Quando alterações descritas à TCAR são, de forma isolada, correlacionadas com TFP, observamos que com o VEF1, foi
possível estabelecer correlações moderadas e boas com praticamente todos os parâmetros avaliados, notadamente com o padrão de perfusão em mosaico (r=0,7361; p<0,001), com as impactações brônquicas (r= -0,7205; p<0,001), e com a extensão das bronquiectasias (r= -0,7055; p<0,001). Correlações semelhantes foram descritas em pelo menos três outros trabalhos, observando-se, entretanto, que os nossos resultados se aproximam daqueles publicados por Oikonomou et al (80) (Tabela 5).
Por outro lado, quando consideramos a CVF (Tabela 6), nota-se que apenas o padrão de perfusão em mosaico correlacionou-se de forma moderada com a CVF (r= - 0,5787; p<0,0002).
O FEF25-75% apresentou correlações moderadas com pelo menos seis das
alterações estruturais descritas à TCAR (Tabela 7).
Poucos trabalhos na literatura correlacionaram alterações tomográficas isoladas com a CVF e o FEF25-75% em pacientes com FC. Nossos resultados se
aproximam dos resultados de Helbich et al (13), quando a CVF é considerada, porém trazem dados novos à literatura quando o FEF25-75% é analisado, já que praticamente
nenhum trabalho estabelece tais relações, e com os níveis de resultados alcançados. Em 2004, de Jong et al, realizaram um estudo prospectivo na Holanda (18), cujo objetivo era comparar os sistemas de escores para TCAR em pacientes com FC, dentre eles, o de Bhalla et al (10), Helbich et al (13). Este trabalho mostrou que esses sistemas de escores apresentam uma pequena variabilidade inter e intra- observadores, indicando que são seguros e reprodutíveis. Em nosso estudo a variabilidade inter-observadores, avaliada através coeficiente de correlação, mostrou- se excelente num primeiro momento da observação. Após um intervalo de três meses, a variabilidade intra-observador foi revisada, sendo possível demonstrar um alto coeficiente de concordância.
Além disso, o estudo de Jong provou a existência de excelentes correlações dos escores totais de TCAR com o FEF25%-75%, independente do sistema de escores
para tomografia aplicado. Definiu-se também que estes escores apresentam correlações moderadas com o VEF1, CVF e com a relação FEV1/CVF. Os resultados
relações dos escores de TCAR com os TFP. Contudo, nesse artigo, não foram demonstradas as correlações de achados tomográficos específicos com TFP.
A função pulmonar tem sido tradicionalmente considerada como padrão ouro para monitorar pacientes com FC. Contudo, ela representa uma avaliação indireta do dano estrutural pulmonar, que pode, inclusive, nas fases iniciais, preceder alterações nos TFP (2,11,18,95,96). Alguns centros de FC têm associado à TCAR com TFP para avalição periódica dos pacientes (97). Brody et al, em 2005, sugeriram um sistema de escores para avaliar a progressão da doença pulmonar em crianças após exacerbações (81). Nesse trabalho foi possível demonstrar que as alterações observadas à tomografia, mensurados através de um sistema de escores, apresentam boas correlações com o número de exacerbações do trato respiratório num intervalo de 2 anos. No entanto, não foi possível determinar boas correlações dos TFP com o número de exacerbações no mesmo período. Foi o primeiro trabalho que conseguiu demonstrar o valor da tomografia como um verdadeiro marcador da evolução da doença. Em 2006 esse grupo conseguiu demonstrar a reprodutibilidade deste escore, bem como sua sensibilidade para variabilidade da doença pulmonar (82).
Num recente trabalho, de Jong et al estudaram 48 crianças com FC na Holanda através de TCAR e TFP, com objetivo de avaliar alterções da estrutura e função pulmonar num espaço de tempo de dois anos (95). O grau de evolução da doença pulmonar observada à TCAR nestes dois anos não foi observada nos TFP; ou seja, não houve uma piora progressiva nos TFP. Estes dados apontam para o reconhecimento da TCAR como um método diagnóstico mais sensível para acompanhamento de pacientes com FC, já que se trata de uma doença de curso progressivo. de Jong et al demonstraram que, em crianças e adultos, as tomografias realizadas de forma periódica para monitorização de pacientes com FC apresentaram crescente piora, e que o mesmo não foi observado nos TFP, que se mantiveram estáveis, ou apresentaram lento agravamento (98).
Alguns centros para acompanhamentos de pacientes com FC na Alemanha (8) e na Suíça (98) preconizam uma avaliação por TCAR a cada dois e três anos, respectivamente. O racional desta iniciativa é detectar alterações iniciais, muitas vezes não observadas através do VEF1, considerado como padrão ouro para o monitoramento da evolução da doença pulmonar na FC (8,98). Esta perspectiva sinaliza para a utilização da TCAR como exame de rotina para acompanhamento destes
doentes. A possibilidade de instituir tratamento mais agressivo quando, precocemente a doença é detectada, proporcionaria uma melhor sobrevida dos pacientes (17,99). Exames de TCAR com doses baixas de radiação poderiam representar uma forma alternativa de se avaliar pacientes com maior segurança (100,101). Brody et al, sugeriram uma possível redução da dose de radiação de mais de 85% aumentando o intervalo