Cabe perguntar se a arquitectura defendida por esses dois teóricos poderia ser usada nos dias de hoje, em um mundo globalizado, em que o arquitecto precisa superar suas fronteiras e exercer sua atividade em diferentes regiões e países.
Passadas várias décadas das publicações e das polémicas acerca dos escritos e das propostas de Lino e de Marianno, a arquitectura encontra-se em uma situação que demanda atenção. Escassez de recursos naturais, globalização e consequente perda de identidade cultural, políticas neoliberais que produzem um capitalismo selvagem, são apenas alguns dos problemas que os atuais arquitectos, sejam portugueses ou brasileiros ou de quase todo o mundo, têm que enfrentar.
Uma das primeiras questões, e que está presente na defesa de muitos trabalhos de arquitectura, relaciona-se aos problemas ambientais e de recursos naturais disponíveis. Raul Lino21 expõe de modo claro a importância da relação com o meio e o que está presente na tradição construtiva portuguesa essa ideia.
Aqui temos a chave que explica a principal razão porque há harmonia no conjunto de casas de qualquer antigo povoado. Por economia calculada ou inconsciente; por força da tradição, que muitas vezes outra coisa não é que a economia experimentada pelo decorrer dos tempos — o construtor vai buscar os materiais que são do uso na respectiva região e que muito frequentemente apresentam caracteres pelos quais a casa construída se liga a própria paisagem. E assim como a pedra local se aparente na cor e na estrutura ao terreno; assim como das condições económicas regionais, das condições topográficas, climáticas do local resulta certa harmonia no aspecto plástico de qualquer aglomeração de casas, assim também existem certos traços fisionómicos da casaria que são a expressão ou o reflexo do modo de ser, das maneiras de sentir de um povo unificado pela série de circunstâncias que constituem a sua história.
20 FERNANDES, J. M. Olhando a obra de Raul Lino, a pensar em Frank Lloyd Wright. 2016.
Disponível em http://www.revistas.usp.br/posfau/article/view/111945/119571. Acesso: 2 ago 2018
21LINO, R. Casas portuguesas: alguns apontamentos sobre o arquitectar das casas simples. Lisboa:
A mesma preocupação em relacionar a construção ao local em que ela se insere e com isso propiciar, não só conforto ambiental, mas economia e beleza está também nos escritos de José Marianno22.
Os arquitetos reduzem o exercício da arquitetura à prática de fachadas bonitas. Entretanto a chave do problema está na mão do sociólogo. Fenômeno geográfico por excelência, a arquitetura é em sua essência, uma expressão do meio.
Ou ainda23
As necessidades do homem, a noção que êle tem do próprio conforto, a harmonia dos seus hábitos com as coordenadas mesológicas e sociais, essas é que são as linhas mesmas eternas, de todos os sistemas arquitetônicos de fundo racial.
Ainda que não fosse negada as benesses da industrialização para a construção de casas e prédios, seria fundamental, para Lino e Marianno, que houvesse uma preocupação com os recursos e disponíveis na região; isso reduziria custos, e a plástica advinda daí seria natural e espontânea. “Se houvéssemos de aconselhar alguém quanto à qualidade espiritual a que primeiro lugar se deva entender no delinear da casa diríamos: NATURALIDADE”24.
O Movimento Moderno defendia que a arquitectura deveria ser expressão de seu tempo — Zeitgeist. Desenvolvida a partir de países como Alemanha e França, esse movimento via que a construção arquitectónica tinha que ser um reflexo da era industrial que esse início de s. XX vivia. Mas se em em Portugal, na década de 1920, apenas dez porcento da população vivia em núcleos com funções urbanas25, e no Brasil, na mesma época, somente 17% dela pertenciam a cidades com mais de vinte mil habitantes26, para quem então essa modernidade seria construída?
Em uma Europa mais rica e mais industrializada, a arquitectura como reflexo da era industrial até poderia fazer sentido. Mas nos casos português e brasileiro, essa associação se direcionava apenas a uma elite abastada que queria se diferenciar das camadas mais humildes da população e, para isso, adotava uma estética de aparência mais radical como signo de classe.
Cabe indagar se os princípios da arquitectura regionalista também não poderiam, e podem, ser entendidos como a expressão do seu tempo? Seus parâmetros (tanto em
22
MARIANNO FILHO, J. À margem do problema arquitetônico nacional. Rio de Janeiro: Artes Gráficas, 1943, p.58.
23 MARIANNO FILHO, J. À margem do problema arquitetônico nacional. Rio de Janeiro: Artes
Gráficas, 1943, p.64.
24 LINO, R. Casas portuguesas: alguns apontamentos sobre o arquitectar das casas simples. Lisboa:
Cotovia, 1992, p.50.
25 RODRIGUES, T. E PINTO, M. L. R. A evolução urbana em Portugal no último século (1890-1991).
1997. Disponível em http://www.cepese.pt/portal/pt/publicacoes/obras/populacao-e-sociedade/revista- populacao-e-sociedade-no-3/a-evolucao-urbana-em-portugal-no-ultimo-seculo-1890-1991. Acesso em 6 ago 2018.
26 VILELA, A.; SUZIGAN, W. Política do Governo e crescimento da economia brasileira 1889 –
relação à forma quanto em relação à técnica) não teriam talvez condições de servir de base para um princípio universal? Ou como José Marianno27 gostava de afirmar: “Em arquitetura, as verdades são universais, mas a aplicação é sempre regional.”
É nesse momento que se tem que reflectir qual a função da arquitectura, para quem, ou melhor, para qual tipo de sociedade ela deve ser feita? Em cursos superiores de arquitectura, principalmente os realizados em instituições públicas, qual deveria ser o objectivo da formação do futuro arquitecto: para o mercado internacional ou para procurar respostas às questões locais?
Certamente, não se pode exigir que arquitectos, recém formados ou não, não atendam ao mercado que é certamente uma boa fonte de empregos. Porém, a preocupação em pensar com a prevalência mercadológica acaba por eclipsar atitudes de cunho político. Afinal, talvez o que se possa extrair de fundamental das lições de José Marianno e Raul Lino é que pensar a arquitectura é fundamentalmente pensar a cultura e a localidade em que ela se insere, ou seja, a cidade. Cidade e cultura são dois elementos essencialmente políticos. Para agir politicamente é necessário, acima de tudo, tomar atitudes corajosas que, na maioria das vezes, contrariam o mercado.
Não se estaria muito longe da verdade em afirmar que o mercado é invariavelmente conservador, já que tem como escopo o lucro. Qual então seria a arquitectura mais conservadora? A que procura se integrar às particularidades regionais em que ela está inserida ou aquela que pode ser realizada em qualquer parte do mundo? A que entende que arquitectura é arte ou a que entende que ela deva atender à função prevalentemente?
Considerações finais
Fora considerações políticas e ideológicas que possam alinhavar as posturas de Raul Lino e José Marianno com correntes conservadoras, ou não, facto é que o final do s. XX irá recuperar muito de suas ideias e concepções de arquitectura. O já decantado fim do Movimento Moderno com a implosão do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe, em 1972, sem dúvida é denotativo da impessoalidade e da frieza de uma modernidade que se pretendia universal, mas que falhava acintosamente com o ser humano.
Em outra vertente, projectos, principalmente residenciais, despontavam procurando dar relevo a elementos e factores que ensejassem o pertencimento e a relação com as características locais, tanto em relação aos matérias quanto à própria linguagem plástica. No Brasil, isso certamente foi notório.
Na arquitetura residencial, em contraste com a produção do milagre econômico brasileiro, repleto de torres de vidro, incorporando definitivamente o intenational style, surgia um modelo que, pouco a pouco, incorporava os anseio de grande parte da população. Algumas casas, construídas inicialmente em lugares pouco povoados, como o bairro da Joatinga, no Rio de Janeiro, utilizavam materiais de demolição, materializados em um repertório inicialmente indefinível. Sem referências estilísticas sistematizadas, forma batizadas de
27 MARIANNO FILHO, J. À margem do problema arquitetônico nacional. Rio de Janeiro: Artes
coloniais, denominação que se consagrou entre o público em geral, passando a frequentar revistas não especializadas, angariando antipatia e preconceitos da academia28.
Ainda que a academia e o meio profissional continuassem a rechaçar esse tipo de arquitectura, era inegável que ela tinha ainda muito a oferecer. José Manuel Fernandes29 também comenta a respeito desta arquitectura regionalista em Portugal.
Foi igualmente importante a frequentemente correcta articulação ou integração desta arquitectura, de modo enquadrado, em conjuntos planeados, fossem bairro, quarteirões ou pequenas parcelas urbanas — aspecto este facilitado igualmente pela vertente tradicionalista e conservadora da estética subjacente ao “Português Suave”.
Certamente nos dias de hoje, ainda não é possível constatar a existência de trabalhos sistematizados acerca do que se poderia entender de uma típica arquitectura portuguesa ou brasileira. Ligado principalmente aos debates que se realizavam à época, quando o nacionalismo estava em voga, Raul Lino e José Marianno acabaram inexoravelmente por estar ligados a essas discussões. O internacionalismo versus o nacionalismo daquela época refletia-se na arte ou na arquitectura e atrelava-se a movimentos políticos. Hoje, passada a época do fortalecimento das nações, o discurso nacionalista se esvaiu. Contudo, a era da globalização tornou premente a necessidade de pensar as questões relacionadas às identidades regionais e culturais.
Nesse sentido, é que a arquitectura regionalista acaba por voltar a tónica, porém despida, para bem ou para mal, de suas questões políticas, hoje, talvez, substituídas por questões ambientais que se transformam quase que em um consenso tanto nos meios profissional, académico, quanto no senso comum.
Mesmo passado vários anos dos escritos desses dois teóricos, creio que ainda haja muito para se reavaliar acerca de seus trabalhos. A quase total falta de publicações sobre seus escritos até, mais ou menos, os anos 1980, começa a ser preenchida com artigos, dissertações, teses, livros que, aos poucos, vão fazendo justiça a uma importante contribuição à arquitectura luso-brasileira. Por isso, acredito também que o debate acerca de Raul Lino em Portugal e de José Marianno no Brasil, ou melhor, desses dois personagens em qualquer meio académico ou profissional seja ainda pertinente e profundamente actual.
Bibliografia
BITTAR, W., SILVEIRA, M. No centro do problema arquitetônico nacional: a modernidade e a arquitetura tradicional brasileira. Rio de Janeiro: RioBooks, 2013.
28 BITTAR, W., SILVEIRA, M. No centro do problema arquitetônico nacional: a modernidade e a
arquitetura tradicional brasileira. Rio de Janeiro: RioBooks, 2013, p.126.
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