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A crer no que nos dizem as fontes históricas disponíveis, as Danças de São Nicolau são tão antigas como as festas que os estudantes de Guimarães dedicam, ano após ano, século após século, ao seu padroeiro. Já no século XVII, os estudantes de Guimarães exibiam as suas danças, comédias e folias. Foi com estes divertimentos públicos que angariaram os meios que lhes permitiram financiar a construção da Capela de São Nicolau, na Igreja da Colegiada. Mas não sabemos quando começaram. No livro Inventário Geral

da Colegiada, num registo provavelmente referente ao ano de 1664, lê-se o seguinte:

«A Capela de São Nicolau fizeram-na os Estudantes desta Vila, e outros devotos, de dinheiro que ganharam em comédias e danças que por devoção do Santo e aumento da Capela aceitavam o dinheiro que lhes davam.»

Sabendo-se que o contrato assinado pelos mordomos da Confraria de São Nicolau com o mestre de pedraria Domingos Lourenço, para a construção, na igreja da Colegiada, da capela do seu padroeiro foi assinado em 21 de novembro de 1661, é lícito assumir-se que as danças com que os estudantes custearam as obras já se encenavam e exibiam em tempos anteriores àquela data.

Mas de que se fala, afinal, quando se fala de danças e comédias?

Antigamente, por ocasião de festas religiosas ou outras celebrações públicas, como nascimentos e casamentos na família real ou visitas régias, havia o costume de organizar danças e folias (não é fácil distinguir umas das outras, de tal modo se confundem), que consistiam em manifestações de teatro de rua de raiz popular. No dicionário de Bluteau, encontrámos a seguinte descrição das folias:

«Entre nós, folia vale o mesmo que festa de várias pessoas, tangendo e cantando com tambor e pandeiro, ou dança com muitas soalhas [chapinhas metálicas dos pandeiros] e outros instrumentos, com tanto ruído, extravagância e confusão que os que andam nela parecem doudos.»

Em Guimarães, eram particularmente notáveis as danças e folias que acompanhavam a procissão do Corpo de Deus, que o Abade de Tagilde estudou: a dança do rei David, a dança da judenga, a dança da mourisca, a dança da pela, a dança dos instrumentos, a dança das ciganas, a dança dos azeiteiros («muito boa, com sua música»), a dança dos tendeiros (dança de fitas), a dança dos linheiros («composta de dezasseis figuras, fora os tangedores, bem preparadas e vestidas»), dança das pescadeiras (dez figuras, com dois tangedores), a dança dos mercadores do pano do linho («uma folia com dezasseis figuras, fora os tangedores, com muito aparato e bem vestidas»), a folia das moças («sete figuras, incluindo as violas e tambor, feita com toda a perfeição»). Encontram-se também referências ao Império de Maria Garcia, com suas danças e tangeres.

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Estas danças e o seu financiamento eram objeto de atritos entre a Câmara Municipal, que organizava a procissão do Corpo de Deus, e aqueles que eram constrangidos a fazê-las. Em alguns casos, essas obrigações foram substituídas pela de assegurar umas quantas tochas para acompanhamento do cortejo. Algumas delas, como a dança da mourisca e a dança da judenga, pelo seu carácter de crítica social com contornos tidos por ofensivos e injuriosos, eram alvo de censura. Em 1732, o corregedor ordenou o fim das danças e folias na procissão do Corpo de Deus, fazendo-os substituir por andores.

Não faltam exemplos de danças executadas em momentos não associados a atos religiosos. Assim foi por exemplo, em meados de maio de 1548, aquando da visita do infante D. Luís (filho do rei D. Manuel I). À chegada, tinha à espera uma dança mourisca de trezentos meninos, tendo por “rei” o seu mestre, João de Évora. Em São Lázaro, saiu-lhe ao caminho «uma dança de moças bem-parecidas e concertadas, que dançavam muito bem, de que ele gostou, e lhe cantavam»:

Meninas de Alfama Não vades ao chafariz Bem sabeis as tretas Do infante D. Luís.

Estas manifestações folionas evoluíram com o tempo. No início eram exibições de teatro de rua, de cariz jocoso e burlesco, cujos intérpretes declamavam, cantavam e dançavam nas ruas, ao som de tambores e pandeiros. Estas demonstrações tinham um cariz eminentemente carnavalesco, em que os estudantes apareciam mascarados, tradição que, nas primeiras décadas do século XIX, já era classificada como muito antiga (em 1827, o cónego Pereira Lopes escreveu no seu diário que nos dias 5 e 6 de dezembro daquele ano, «saíram mascarados os estudantes como nos tempos remotos costumavam andar»). Por aquele tempo, as autoridades, a pretexto da manutenção da ordem, proibiam recorrentemente os estudantes de saírem à rua com máscaras. Eram também frequentes os conflitos entre os estudantes e aqueles que, não gozando do foro escolástico, se introduziam nos seus festejos, com as identidades ocultadas por máscaras.

A revista Universal Lisbonense, periódico dirigido por António Feliciano de Castilho, descreveu, em 1843, as festas de São Nicolau de Guimarães:

«Máscara Histórica – A festa de São Nicolau em Guimarães é popular e antiga na terra. Este ano foi

ainda mais luzida do que nos precedentes. A dança dos mascarados, principalmente, esteve muito para ver: entre outras figuras, apareceu nela uma representando um egresso a pedir esmola aos ricaços, que herdaram todos os seus bens, estando ele ainda vivo! O pensamento foi aplaudido geralmente.»

As danças dos estudantes ― que, em 1865, o jornal Vimaranense descreveu como a «clássica mascarada dos estudantes desta cidade» ― aconteciam sempre no dia 6 de dezembro (as exceções, aliás raras, resultaram de adiamentos forçados pelas condições climatéricas). Eram exibições de rua em que se apresentavam

137 quadros humorísticos protagonizados por estudantes. Também eram executadas em algumas casas particulares, onde se dava de comer e de beber aos jovens artistas, como se lê no programa das Festas de 1901:

Depois a dança da China, Grande pagode chinês. Há vinhinho e gelatina Como não há muita vez Em casa de gente fina.

Ao longo de décadas, as danças foram evoluindo no sentido de serem subtraídas à rua. Em 1856, terminaram, à noite, no Teatro D. Afonso Henriques (esse 6 de dezembro foi chuvoso, pelo que, durante o dia, foram poucas as exibições dos mascarados). Esta terá sido a primeira vez em que as danças aconteceram num teatro. O relato que então fez o jornal Tesoura de Guimarães afigura-se surpreendentemente atual:

«O Teatro D. Afonso Henriques estava tão cheio que muita gente não pôde entrar por falta de lugar, e outras se retiraram por incomodadas. Foi uma noite cheia, em que a juventude escolástica nada poupou para tornar-se agradável ao sexo encantador. Terminou o festejo era uma e meia hora.»

Nos anos que se seguiram, as danças encerrariam as suas exibições debaixo do teto do teatro. A partir de finais do século XIX, as folias estudantis de 6 de dezembro iniciavam no Teatro D. Afonso Henriques o seu périplo pelas ruas da cidade.

Em 1906, segundo o jornal Imparcial, muitas famílias presenciaram as danças no teatro, sendo os estudantes muito aplaudidos. Em 1912, as danças foram exibidas primeiramente no teatro e depois nas ruas, modelo que se repetiu nos anos seguintes. Progressivamente, iam passando para o interior do Teatro, mas sem que deixassem de ser exibidas nas ruas. Anos houve em que se fizeram duas exibições no Teatro, para corresponder ao interesse do público. Em 1945, os estudantes exibiram as suas danças nas ruas, logo a seguir à entrega das maçãs, repetindo-as a noite, no Teatro Jordão, no sarau de gala que assinalava o cinquentenário do ressurgimento das Festas Nicolinas, promovido e executado pelos estudantes veteranos. Com o andar do tempo, a tendência seria para as danças abandonarem definitivamente as exibições ao ar livre, passando a apresentar-se no espaço fechado das casas de espetáculos, com a perda da sua dimensão original de manifestação de teatro popular de rua.

A partir de meados do século XX, num contexto de separação de tarefas entre novos e velhos nicolinos, nem sempre inteiramente pacífico, as Danças de São Nicolau foram paulatinamente assumidas pelos antigos estudantes, que asseguraram a sua continuidade e o seu antigo brilho, que os novos já tinham dificuldade em sustentar.

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Assim persistem nos tempos que correm, fazendo gala da sua eterna jovialidade, tendo sabido adaptar- se curso do tempo. Atualmente, as antigas folias de rua apenas perduram como memória remota e com alguns resquícios no cortejo da entrega das maçãs. As Danças foram definitivamente apropriadas pelos Velhos Nicolinos, mantendo a condição de comédias, saudavelmente desbragadas e incontinentes, seguindo um modelo próximo da velha revista à portuguesa. Acontecem em sala de espetáculos. Já passaram pelo Teatro D. Afonso Henriques, pelo Teatro Gil Vicente, pelo Teatro Jordão, pelo Cinema S. Mamede, pelo Auditório da Universidade. Agora, são levadas à cena no grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.

Entretanto, há quem ainda não tenha desistido de projetar o dia em que as danças dos estudantes voltarão a encher de alegria as ruas da cidade no dia de São Nicolau.

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As Danças de São Nicolau: Guimarães em revista

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