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Porque na costa algarvia predominam os ventos do Oeste (Oeste propriamente dito NO e SO), aponta Leite de Vasconcelos, facilmente se confundiu barlavento com Oeste e sotavento com Leste, substantivos comuns tornados próprios, generalizados da costa a todo o Algarve. Esta divisão, não sendo antiga, gozava, segundo Vasconcelos, de “grande aceitação, tanto da parte dos escritores (geógrafos, etc.), como do próprio Governo”. (Vasconcelos, I:634-6) Se os termos em si não suscitam grande antiguidade, outros há bem mais sentidos239 que apontam a uma distinção Ocidente-Oriente remontável ao contexto árabe-islâmico (Gharb-Xarq intra ‘província’) do Algarve.

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Há ventos e ventos de Oriente; Levante qual..má ralé?!

Levante = «nome do vento, geralmente quente e abafado, que sopra no Algarve vindo de sueste e que costuma ter grande influência, normalmente prejudicial, sobre a agricultura e também sobre os animais e as pessoas. Daí dizer-se que uma pessoa está com o levante ou anda com o levante quando essa pessoa se mostra mal humorada.» (Gonçalves:121)

Má relé ou màrrelé: «irritação; zanga; marafação. Ex.: deu-me uma má relé; apanhei uma má relé. De: má ralé = má raça, mau génio, má índole (?); do árabe rehhalin ou rahhlin (?). No Alentejo aparece màrreleia. Também aparece só relé.» (Gonçalves:12X)

Fig. 3.3 – ruína no ‘Centro Histórico’ de Mértola qual zona de contacto (Clifford) 28/9/2010 Ver Anexo A:4

Qualquer que seja o prisma e mesmo a delimitação fronteiriça, a Barlavento ou Sotavento sempre se denota no Algarve independência bastante, historicamente sancionada no destaque que o nomeou e até pluralizou na designação da Coroa Portuguesa. Seja pela comunidade de interesses indexados a uma uniformidade cultural (figo, alfarroba e amêndoa) (Vasconcelos, II:594) ou por um cariz política ou até etno- socialmente regionalista240, a Algaravia241 remonta, em termos de habitação, a uma conectividade piscatória reconhecida pelo próprio descritor regional na acepção litoralizada, Algarve sendo a “designação utilizada tradicionalmente pelas populações da serra algarvia para se referirem à zona mais baixa que fica entre elas e o mar, incluindo o barrocal e litoral.” (Gonçalves:28-9)

Se do passado da “actual faixa algàrbi-andaluza” 242 interiorizado na noção de narrativa do ermamento aquando da “encorporação no grémio nacional”243 resulta excluído por defeito um presente da mesma faixa, na ausência de sua geo- referenciação, mesmo frisar que o Gharb, «teoricamente até ao Douro, constitui de facto a parte mais ocidental da Península a Sul do Tejo» (Dias & Brissos:25n8) pode ficar curto, em rigor, para quem, da Península Arábica apontando o Algarve, identifique toda a face Ocidental da Península Ibérica.244

A aplicação ao Algarve do Andaluz de um significado nacional como parte da estranheza que nos é vernácula é aferível no sentido da comunidade linguística?

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«O Algarve apresenta um conteúdo étnico-social que justifica plenamente o seu estatuto autonómico», exemplificado pela “Cruz de Portugal” (estrada de Silves para...Portugal) e pelas Ruas de Portugal em Loulé e Faro. (Dias & Brissos:56-7)

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«Algaravia (e algaraviada), linguagem confusa, o que não está muito longe de fala repetida. Falam frequentemente ao mesmo tempo. O estilo de alguns escritores é prolixo.» (Vasconcelos, Livro II:592) 242

«Os poetas algarvios sempre que, em suas inspiradas estâncias, salmodiam as tradições do Algarve, ressentem-se do mesmo erro em que o povo enferma: para eles, o passado remoto do Algarve pára nos árabes (...) Dir-se-ia um Algarvio de antanho a transparecer um fanático de Alá...» (Cabrita:20)

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«A ancestralidade árabe ou mourisca, amiúde consignada aos algarvios, vale mais como tema de mera literatura que como hipótese científica. Uma investigação aturada e séria, no terreno linguístico, poderá, talvez, levar muito mais longe as raízes antropológicas daquela província, apesar do fundo ermamento em que a acharam no Século XIII aqueles que a encorporaram no grémio nacional.» (Viana 1954:82)

«O árabe garbîî significa «ocidental», não «ocidente» (...) «Ocidente» em árabe é garb (lembremos o nosso Algarve...).

Quanto a magaraby: trata-se do árabe magarabîî, «relativo ao Magrebe», o nome do Ocidente do Norte de África. Não nos esqueçamos de que o nome do actual reino de

Marrocos é, na língua do país, al-magreb.

O idioma denomina-se magarabîîâ, tal como de garb se fez garbîîâ e de ‘arab apareceu ‘arabîîâ (donde os nossos aravia e algaravia).» (Machado 1997:91-2)245

Embora se reconheça que o topónimo Algarve “chegou a designar todo o Ocidente da Península Hispânica” e que antigamente foi zona e Reino de área nem sempre bem esclarecida (Machado 1997:264), a delimitação regional do Algarve que se operou entretanto na formatação de Portugal restringiu o uso do descritor no vernáculo nacional de diversas formas, mas não alterou o significado do termo na aravia de origem, aplicável hoje mesmo para designar não só o Ocidente.

Com efeito, se Algarve é Ocidente e nessa acepção sinónimo de Magrebe246, mais confere a área vocabular em causa o significado de lonjura247 e de termo/limite248, patente em expressões como Gharba daru fulani – a casa de fulano é

longe, distante (Lane:2241) ou Darahimu gharba – dinheiro ao largo (“não facilmente obtível”) (Lane:2241) – e na definição do estado/condição de

245

Ainda JP Machado, citando Garcia da Orta:

«Gerardo Cremonense nam era bom arabio, mas era andaluz, e a lingoa propria em que Avicena escreveo he a que esta lingoa chamam elles araby e a dos Mouros magaraby, que quer dizer mouro do ponente, porque garby em arabio quer dizer ponente e ma quer dizer dos...» (Garcia da Orta via Machado 1997:53) 246

Gharb é sinónimo de Maghrib, Xarq e Maxriq os seus contrários (Lane:2241) Maghrib ( pl. Magharibu) é ainda qualquer lugar que oculta, aplicado aos esconderijos dos animais selvagens, mugharib quem vai/está indo para ocidente. (Lane:2244) Mais ainda, religiosamente, Maghrib é espaçotempo de oração, do Poente solar. (Wehr:669)

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estranho/estrangeiro249, estendendo-se ainda a um notório não-humano, o - Ghurab – corvo, que equivale a um standard agricultural de referência250 e no Algarve do Andaluz remete nomeadamente para o Cabo entretanto designado de S. Vicente, em rigor precisamente localizado no Algarve do Algarve.

Consoante o geo-referencial e o contexto, já se vê, da aravia à algaravia, o Algarve não é necessariamente o mesmo251, a cada Algarve possível aporte lacrimejante252, pelo eventual exílio/Ocidentalismo que comporte253.

Considerando-se, ainda assim, o Algarve como a região presentemente delimitada no seio da República Portuguesa, teste-se o centro de seu mapa regionalizado horizontalmente - em Faro ou Quarteira ou Albufeira, ainda segundo Vasconcelos – em seu equivalente de escala lido na vertical em paralelo com Portugal, como Jorge Gaspar propõe:

249

- gharibi - estranho; estrangeiro; \ Ghurb(at) – estado ou condição do estranho ou estrangeiro (Lane:2242-3) Também António Rei, em aula do mestrado (22/11/08), apontava a estranheza como conceito associado ao descritor Algarve, além da acepção Ocidental.

250 wa jada thamarata al ghurabi [Encontrou a fruta do corvo], porque o corvo

escolhe os melhores frutos. (Lane:2243) 251

Discutindo uma tradição em que a ‘Gente do Algarve’/ Ahl al-Gharbi é ligada à verdade e à verdadeira religão, o Algarve é a Síria. (Lane:2242)

252

Ghurub = lágrimas (Lane:2241) A propósito, lágrimas de saudade?

«Os árabes dizem: Qualatni as-suaidá: matou-me a saudade. E isso quando a pessoa entristece pela perda de um ente querido. E dizem igualmente: al-mús-suaddat, os dias pesados e de tristeza. (...) Em árabe vulgar saudana é entristecer a alguém e tasaudana significa ficar triste, angustiado vem derivado desse verbo – é musauden, melancólico, triste, dolorido, cheio de desgosto.» (João Ribeiro via Costa & Gomes:15-6)

253

tagharrub ou ightirab significando emigração, Ocidentalismo; mugharrab – expatriado; exilado; mustaghrib – Ocidentalizado. (Wehr:669)

Num ‘Portugal deitado’, Portimão↔Porto, Faro↔Lisboa - e a Fuzeta?