Antes da comparação entre as coleções, faz-se necessário lembrar que, devido às mudanças nas legislações educacionais, aos avanços do PNLD e às regras que surgiram no processo de avaliação do material didático, os livros didáticos têm notoriamente apresentado progressos no que diz respeito ao ensino da língua materna. Mesmo que a passos lentos, surge nesses acervos uma nova concepção de ensino que procura se preocupar mais com os eixos de aprendizagem e tenta focar nos usos reais da língua tendo por base diferentes gêneros textuais.
121 Longe ainda de ser o ideal, pois predomina a ênfase na gramática normativa, os LDs deram espaço a temas de variação linguística e se esforçam em abordá-los no decorrer das coleções, por exemplo.
Nas duas coleções avaliadas nesta pesquisa, esses progressos foram identificados também. Contudo, nota-se que há um longo caminho a ser percorrido a fim de que o ensino e a aprendizagem do português não se limite a decorar regras gramaticais ou fazer análise sintática de estruturas que, em suma, não fazem parte do cotidiano do falante brasileiro. No tocante ao estudo lexical proposto por Singular & Plural: leitura, produção e estudos de linguagem (SP) e Para viver juntos: português (PP), ambas deixam a desejar tanto quantitativa como qualitativamente na abordagem lexical. Há pouquíssimo espaço destinado ao léxico nas duas coleções, sendo que, em uma coleção, é mais precário que na outra como vemos no quadro abaixo.
Tabela 9 - Quantidade de atividades lexicais por volume nas coleções
Volumes Coleção SP Coleção PP
Volume 6 12,1% 8,5%
Volume 7 9,1% 4,3%
Volume 8 15,1% 4,8%
Volume 9 13,1% 9,2%
A coleção SP tende a abordar muito mais as rubricas lexicais, demonstrando, nesse aspecto, ser uma melhor opção didática do que PP, todavia, tendo que em muito avançar no tocante ao estudo vocabular. Enquanto em SP, o foco lexical já é insuficiente, conforme vimos em análise anterior, em PP a situação é muito mais alarmante. Se somarmos as quantidades percentuais dos volumes das duas coleções e, em seguida, tirarmos a diferença entre os totais, observaremos que ela chega a mais de 20%, o que se traduz em muitas atividades não fornecidas por PP quando contrastadas à oferta de SP. Portanto, em termos quantitativos, evidentemente SP está disparada à frente de PP na disponibilidade de atividades vocabulares. Ao aluno, esse contato com exercícios que lhe promovam a constante aquisição lexical é fundamental para ser proficiente em leitura, escrita, oralidade e conhecimentos linguísticos, ou seja, nos eixos de ensino exigidos pelos documentos educacionais. Afinal, toda a linguagem se instancia no léxico e com esses eixos que existem pela linguagem não é diferente.
122 Fora essa questão mais genérica, ao verificarmos qual das coleções diversificam mais no tratamento lexical, notamos que, mais uma vez, SP se sobressai. Nela há mais equilíbrio na abordagem dada às rubricas, ainda que não seja o ideal, no decorrer dos volumes. Rubricas como sinonímia, antonímia, formação de palavras novas e sentidos novos na língua, por exemplo, não são apresentadas em apenas um volume, elas figuram nos quatro, ora mais em um, ora menos em outro, mas são frequentemente retomadas. Em PP, a situação é diferente, pois há conteúdos que simplesmente só figuram em um ou dois dos volumes no máximo, sendo tomados, aparentemente, pela coleção como suficientes à aprendizagem vocabular.
Nas duas coleções, há nítida preocupação com a variação linguística. No entanto, é em PP que a temática variacional predomina entre as três rubricas mais exploradas, liderando numericamente do volume 6 ao 8, limitando-se, como mostramos, em ensinar a variação diafásica. SP também enfatiza bastante nesse tipo de variação, mas apresenta melhor os outros tipos, em capítulo exclusivo, do que PP, volta e meia fazendo alusão à variação diatópica em praticamente todos os volumes.
No que se refere às categorias lexicais mais apresentadas, PP atenta-se, durante toda a coleção, em expor demasiadamente variação linguística, definições e formação de palavras novas e sentidos novos na língua, mudando somente no volume 8 ao expor homonímia nesse grupo mais ocorrente, o que dá a entender que o estudo lexical por ela oferecido se encerra apenas nesses conteúdos linguísticos. Em SP, o ranking das mais abordadas sempre apresenta definições, porém varia trazendo junto a essa variação linguística, sinonímia, antonímia, motivação icônica, polissemia, ambiguidades, formação de palavras novas e sentidos novos na língua entre os volumes.
Nas rubricas menos cotadas pelas coleções, podemos identificar certo padrão de oferta em cada uma. A coleção SP varia bastante na apresentação das menos atuantes nos LDs, tanto que aquelas que, em algum momento, estiveram no grupo das mais abordadas em um volume, passam a figurar como menos em outro. Pode-se dizer que há certo rodízio entre as categorias lexicais em SP. No entanto, em PP há certa frequência sistemática nas menos abordadas com polissemia, etimologia, termos genéricos e termos específicos se repetindo nesse grupo, algumas aparecendo em dois volumes, outras em três.
Em termos de quem mais deixa de apresentar rubricas, PP se destaca. Campos lexicais é um conteúdo que simplesmente não figura na coleção toda, homonímia só surge em um volume e antonímia (que costuma aparecer frequentemente e ao lado de sinonímia) tem 0% de abordagem na metade da coleção. O que se verifica em SP com relação a esse aspecto é que do
123 volume 6 ao 9 há aumento na quantia de categorias léxicas não abordadas. Todavia, de qualquer modo, seus números comparados a PP são melhores, haja vista que no seu volume 6 não são expostas três rubricas e no de PP não são apresentadas quatro rubricas. No volume 8 de SP, quatro rubricas não figuram, enquanto no de PP são seis não abordadas.
Em síntese, o que fica demonstrado nessa comparação é a maior negligência no tratamento lexical de uma coleção quando pareada com a outra. Indiscutivelmente, PP fica mais aquém de fomentar um estudo lexical adequado quando considerados tanto os números gerais de atividades lexicais quanto os números da exploração das rubricas mais, menos ou de nenhuma forma abordadas pela obra didática contrastados aos de SP.