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Caminhar na contemporaneidade é um ato de contracultura, de reencantamento do mundo. Envolve uma relação consciente com o corpo, o tempo, o espaço (mais precisamente a Terra) e o próximo. A valorização da caminhada enquanto proposta de contacto com a natureza, constitui-se na contramão de uma abordagem desencantada do mundo, consubstanciada pelo racionalismo do paradigma científico moderno.

O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) descreve o “desencantamento do mundo” como a confiança na ciência e na técnica e o estiolamento dos idiomas morais e religiosos como guias da experiência humana: “O destino dos nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, acima de tudo, pelo ‘desencantamento do mundo’” (1982: 182). Apropriamo-nos do juízo weberiano para descrever uma concepção em que a natureza (o planeta Terra) surge como espaço sagrado, de redenção – o reencantamento do mundo – e, em que a sua “magia” entendida como energia vital, se transmite por contacto. E uma das formas de contactar com a natureza é caminhar.

João André na obra Renascimento e Modernidade: do poder da magia à magia do poder (1987), dá-nos uma visão plural do que foi a transição faustiana para a Modernidade. No seu entender, o homem da Época Medieval e dos primórdios da Renascença vive ainda em comunhão com a natureza, interpretando-a (lendo-a) a partir de um paradigma animista. Neste período, a relação do homem com a natureza caracteriza-se acima de tudo por uma atitude de empatia, o que implica o reconhecimento de uma dada similaridade entre o humano e o mundo natural. O pensamento intelectual era dominado pela escolástica e esta assentava numa concepção aristotélica do conhecimento – a valorização do senso comum e a verdade da percepção sensorial.

10 O presente capítulo recupera e parafraseia ideias e autores que apresentei no trabalho “Entre o azul do céu e o

verde da serra, ouve-se a água a correr. Pensar e sentir a(s) natureza(s) na Serra de Monchique” nas disciplinas

A Renascença italiana (XV e XVI) é uma época de transição para o que viriam a ser as grandes revoluções de pensamento (mecanicismo galilaico e o racionalismo cartesiano), instaurando a Modernidade.

A construção da Natureza, enquanto sistema, objetificado e livre das paixões humanas, dá-se mais tarde com a revolução conceptual operada por Galileu Galilei (1564-1642) e René Descartes (1596-1650), iniciadores da ciência moderna. Há um esforço de sistematização do universo. Segundo Evernden (1992), dá-se a separação entre domínio humano e o natural. Galileu e Descartes definiram os quadros conceptuais que vieram a estar subjacentes à era da ciência e da técnica. Galileu, através do seu método empírico, entre outras descobertas, mostra- nos que a Terra não é o centro do Universo. Descartes, por sua vez, afirma que a verdade científica se obtém através do poder da razão (e não de forças ocultas, alquímicas).

A passagem de uma percepção estética do mundo (a partilha do princípio criador dinâmico de uma natureza viva) na qual se funda a magia renascentista, para a sua racionalização, ocorre com a emergência do paradigma científico moderno. Por outras palavras, o paradigma estético e o paradigma científico são diferentes formas de conceptualizar a relação humana com a natureza e a posição do indivíduo nos cosmos – o primeiro relevando uma abordagem empática e sensorial e o segundo, uma visão distanciada e racional.

A verdadeira natureza do mundo passa a ser cognoscível através da razão matemática. Nesta lógica, a verdade do mundo sensível é ultrapassada, os nossos sentidos enganam-nos, a verdade está como que escondida para além das aparências do sensível- afinal, o Sol está situado no centro do universo e a Terra move-se e gira...

O mundo não é um mundo de experiência concreta. Os objectos observados não têm odor, gosto, nem som, isto é, não são mais que isso: objectos observados. No paradigma científico moderno há uma crescente imposição do paradigma visual11.

Este transição é commumente identificada como raiz dos males da tecnocracia ocidental, dos excessos científicos subsequentes e como causa primeva do afastamento do homem da natureza

11 Embora não tivesse sido o único meio, a arte pictórica, enquanto expressão do discurso criativo, serviu para difundir (para a sociedade em geral) uma visão mais racionalista da natureza. A lógica da matemática evolui lado a lado com a teoria da arte (nomeadamente através da introdução da perspectiva) (Jay 1993).

e, sem querer ser redundante, da sua natureza (o corpo)- o homem deixou de ser homem e passou a ser uma máquina.

É como contraponto a esta ruptura que se retoma uma tendência de reencantamento do mundo, traduzida numa reabilitação de uma abordagem estética que se abre à maravilha e ao mistério do cosmos. Esta reabilitação é solidária de uma consciência e pensamentos ecológicos, da valorização de tradições filosóficas e religiosas orientais holísticas12 e ainda de práticas que assumem ressonâncias de um quase misticismo.

Neste processo de apropriação de diferentes cosmovisões e filosofias orientais (taoísmo, budismo, hinduísmo, entre outras) interessa menos as diferenças entre si, do que aquilo que lhes será comum: o ênfase na comunhão com o Outro e a unidade básica do universo (holismo) e a dimensão da impermanência13.

O reencantamento do mundo passa pela a tomada de consciência da unidade e relação entre todas as coisas e, deste modo, a transcendência do indivíduo isolado. Partilhamos a substância do mundo, bem como do seu movimento. O mundo é tido como um fluir contínuo de mudanças. Se o mundo está em constante revolução, também o indivíduo, na sua permanente ligação com o mundo, participa da impermanência.

Este aspecto pode ser encarado como uma ética para a liberdade. Esta entendida como a capacidade do ser humano se criar e recriar, através de ideias e práticas do quotidiano diferentes e, simultaneamente, como o respeito pelas diferenças de outros indivíduos. Uma ética para a liberdade que afirma a convicção de que cada pessoa tem um potencial muito maior do que aquele que é normalmente utilizado e que, ao se transformar individualmente, a sociedade será transformada.

12 As filosofias e práticas holísticas, no contexto original, dizem respeito à integração numa mesma linguagem de aspectos pessoais, sociais e cosmológicos/naturais. Os princípios que regulam a natureza são os mesmos que são utilizados para descrever a vida humana, nos seus aspectos somáticos, psicológicos ou sociais. Portanto falamos de uma filosofia que é, simultaneamente, uma medicina e uma religião bem como um conjunto de preceitos éticos (Fiadeiro 1996).

13Parece-nos que o sentido deste fenómeno – a procura de sistemas culturais holistas no ocidente- não reside unicamente, ou mesmo de todo, no significado dos sistemas culturais originários, mas sim nos seus desdobramentos e reconfigurações. Estas são, em parte, produto de um olhar historicamente construído sobre o Oriente, fértil geografia do imaginário ocidental.

Caminhar é uma via para se refazer o laço rompido pelo racionalismo cartesiano. O reencantamento do mundo passa por uma “ruptura com a ruptura” (André 1989). Esta começa no próprio indivíduo, na sua relação com o corpo (o seu Outro), na medida em que aquele também é corpo, a dupla ruptura não fica por aqui. O Outro pode ser articulado no plural: o Outro-corpo, o Outro-indivíduo, o Outro-oriente ou o Outro-feminino. Voltamos ao que foi assinalado como uma ética de liberdade: o respeito pela diferenças, assumidas como dualismos, e a capacidade de recriá-las, através de uma razão dialógica e tolerante. Neste sentido, citamos David Le Breton sobre o poder transformativo da caminhada e da abertura ao mundo, através da imersão corporal no espaço:

Caminar es una apertura al mundo. Restituye en el hombre el feliz sentimiento de su existencia. Lo sumerge en una forma activa de meditación que requiere una sensorialidad plena. A veces, uno vuelve de la caminata transformado, más inclinado a disfrutar del tiempo que a someterse a la urgencia que prevalece en nuestras existencias contemporáneas. (2017: 15)

Caminhar, num período dilatado, é uma actividade que envolve esforço corporal, ou melhor, envolve o aparecimento do corpo à consciência, apelando a todo o equipamento sensorial e cinestésico. É o esforço físico, a passada, o respirar – passamos a ser corpos que respiram e avançam no espaço.

Caminhar é despojarmo-nos de tudo, fica apenas o essencial. O mundo fica reduzido à escala dos nossos pés mas é simultaneamente imponderável. Citando Rebecca Solnit “Walking returns the body to its original limits again, to something supple, sensitive, and vulnerable, but walking itself extends into the world as do those tools that augment the body” (2014: 29).

Em “A Mística do Instante. O tempo e a promessa” (2014a), Tolentino Mendonça, teólogo e poeta, partindo da doutrina cristã, também descreve o reencantamento do mundo – o retomar a ligação ao Outro e ao Mundo. Tolentino Mendonça fala-nos de uma espiritualidade de corpo presente, por contraponto a uma mística desencarnada: "a “mística dos sentidos ou do instante” que passaremos a propor, por contraponto à “mística da alma”, não poderá ser senão uma espiritualidade que encare os sentidos como caminho que conduz e porta que nos abre ao encontro de Deus". (Mendonça 2014: 14)

Tolentino Mendonça retoma a análise do filósofo Byung-Chul Han, em "A Sociedade do Cansaço”, para falar do excesso de informação, de emoções, de solicitações, do aprisionamento da vida pela rotina (“de repente a rotina substitui-se à própria vida”), de uma atrofia dos sentidos e da perda da ligação com o próximo. É então necessário encontrar o sentido da vida.

"Para responder à pergunta sobre o sentido que a dada altura nos assalta ("A vida que levo que sentido tem?") é indispensável uma pedagogia de reativação dos sentidos." (Mendonça 2014: 21,22). Há que voltar a avaliar o mundo através do tato qual nascituros: "A nossa distância da natureza é tão grande que deixamos de saber coisas tão elementares como caminhar descalço, […]”. Há que regressar ao paladar (sentido ao qual nada é indiferente) e também deixarmo-nos impregnar por cheiros e aromas. Há que promover o retorno à audição, especialmente ao silêncio, mas também à escuta – escutar com o coração, ouvir o que realmente os outros e o que nos rodeia têm para nos transmitir.

MATERIALIDADE(S). Abro um parêntesis para falar da agência de entes materiais sobre as pessoas- isto é, uma forma de traduzir a magia renascentista à luz do paradigma atual. A interpretação dos lugares (rios, árvores, caminhos, o chão) enquanto sujeito de acção, é sugerida pela noção de simetria epistemológica de Bruno Latour, que traduz a importância da comensurabilidade entre agentes sociais e naturais para esbater a oposição natureza/ cultura em que alguns estudos sobre a natureza têm incorrido (Little 1999). Isto não significa reconhecer algum grau de intencionalidade às entidades naturais mas sim que estas oferecem aos seres humanos uma abundância de possibilidades e de constrangimentos, exercendo assim algum tipo de agência, na medida em que o indivíduo também se relaciona com o mundo sensorialmente e cinestesicamente – andar por caminhos de terra batida com pó e calor tórrido, são formas de experiência da materialidade dos caminhos e de inscrição destes no sujeito (ou no seu corpo), contribuindo para a construção da identidade do lugar e das próprias pessoas.

Citamos ainda Rebecca Solnit para sublinhar o corpo enquanto produtor de sentido: “Walking shares with making and working that crucial element of engagement of the body and the mind with the world, of knowing the world through the body and body through he world” (Solnit 2014: 29). Esta formulação é-nos igualmente útil para refletir sobre a (i)materialidade da caminhada enquanto prática artística. Se por um lado, caminhar desmaterializa a prática artística ligada à produção objetual, por outro confere materialidade, através da união do corpo presente com o espaço, o tempo e as coisas do mundo.

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